{"id":11246,"date":"2009-03-10T00:00:00","date_gmt":"2009-03-10T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2025-07-25T17:44:34","modified_gmt":"2025-07-25T17:44:34","slug":"a-beira-do-tal-caminho-de-santiago","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-beira-do-tal-caminho-de-santiago\/","title":{"rendered":"\u00c0 beira do tal Caminho de Santiago"},"content":{"rendered":"<p>Ainda hoje depois de tanto tempo n\u00e3o sei explicar.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, penso que tudo n\u00e3o passou de um terr\u00edvel pesadelo. Aqueles em que n\u00e3o conseguimos sair, despertar. E a cabe\u00e7a gira e o cora\u00e7\u00e3o acelera e o corpo sua e se contorce todo a cada imagin\u00e1rio golpe que recebe.<\/p>\n<p>Lembro que. quando acordei, tremia de frio prostrado no ch\u00e3o de um banheiro do quarto em um simp\u00e1tico hotel, nos arredores de Santiago de Compostella. Era madrugada de uma noite qualquer daquela semana que precede o fim de ano. Mas, parecia o fim dos tempos.<\/p>\n<p>(Algu\u00e9m me disse, tempos depois, que foi um acerto de contas, um encontro m\u00edstico. Que eu precisava passar por isso para por os bofes para fora e limpar alma e corpo de todos os males e enfrentamentos do ano que hora se encerrava. 2007, se bem lembro.)<\/p>\n<p>Fingi acreditar. Mas, na hora, nada entendi.<\/p>\n<p>Recostei-me \u00e0 parede recoberta de ladrilhos gelados e sentir a camiseta empapada de suor. O mal estar espalhava-se por todo corpo, um misto de dor e fraqueza.<\/p>\n<p>Tentei me erguer. Apoiei-me na murada da pequena banheira. Dei um impulso com o que me restava de for\u00e7as para me agarrar \u00e0s cortinas de pl\u00e1sticos que serviam de box. Uma imprud\u00eancia. Veio tudo abaixo, desabando sobre mim.<\/p>\n<p>Inanimado, voltei a posi\u00e7\u00e3o original.<\/p>\n<p>Por instantes, achei que n\u00e3o sairia dali. Nunca mais veria a luz do sol.<\/p>\n<p>Abandonei-me \u00e0 pr\u00f3pria sorte \u2013 ou azar.<\/p>\n<p>Queria voltar a dormir, ali mesmo que fosse. Mas, a simples possibilidade de reviver o pesadelo sem fim me deixou em p\u00e2nico. Outro arrepio de pavor afastou a letargia que me dominava. Iria \u00e0 luta, fosse qual fosse o resultado.<\/p>\n<p>Seriam essas as agruras do tal caminho?<\/p>\n<p>N\u00e3o fazia id\u00e9ia das horas. No escuro do humilde aposento, sequer divisava as venezianas das janelas de madeira. Faltava muito para amanhecer.<\/p>\n<p>\u00c0 noite, nossos medos s\u00e3o maiores, mais agudos, mais reais. E aquilo \u2013 fosse o que fosse: acerto de conta, encontro m\u00edstico, rito de passagem, sei l\u00e1 o qu\u00ea \u2013 n\u00e3o era do bem.<\/p>\n<p>Quando garoto, n\u00e3o pensava assim. Acordava durante a noite com o barulho das correntes do cadeado que trancava o port\u00e3o. Sinal que o pai chegara \u2013 ent\u00e3o, sentia-me aliviado de eventuais temores mundanos. Estava protegido, em plena paz.<\/p>\n<p>Com os olhos cerrados, podia enveredar por meus sonhos infantis. Faria o gol mais bonito jogando pela sele\u00e7\u00e3o do Col\u00e9gio Nossa Senhora da Gl\u00f3ria. Ganharia uma guitarra e passaria a ser o quinto beatle. Ao clarear o dia, a caminho da escoa, o acaso faria com que nos encontr\u00e1ssemos na esquina de casa e, ai de mim, ela me deixaria seguir ao seu lado, encantado e feliz.<\/p>\n<p>Agora, eu, o estrop\u00edcio, estava ali. Homem feito, j\u00e1 curtido em anos, estatelado naquele est\u00fapido ch\u00e3o in\u00f3spito, perdido num lugar que n\u00e3o era o meu. Sem \u00e2nimo e vigor para sair dali, sem coragem para acreditar.<\/p>\n<p>Aposto que se ela e todas as outras que vieram depois dela me vissem ali n\u00e3o acreditariam que vim, em solo sagrado, combater o bom combate.<\/p>\n<p>Parece que as ou\u00e7o dizer; n\u00e3o em un\u00edssono porque cada qual teve o seu tempo:<\/p>\n<p>&#8212; Tomou todas, o imprest\u00e1vel!<\/p>\n<p>Pelo gol que n\u00e3o marquei&#8230;<\/p>\n<p>Pela can\u00e7\u00e3o que n\u00e3o fiz&#8230;<\/p>\n<p>Pelos amores idos e vividos&#8230;<\/p>\n<p>Querem saber?<\/p>\n<p>Tomei, sim. E da\u00ed?<\/p>\n<p>(Adoro vinho espanhol!)<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ainda hoje depois de tanto tempo n\u00e3o sei explicar.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, penso que tudo n\u00e3o passou de um terr\u00edvel pesadelo. Aqueles em que n\u00e3o conseguimos sair, despertar. 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