{"id":11251,"date":"2009-02-08T00:00:00","date_gmt":"2009-02-08T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2018-03-29T20:43:44","modified_gmt":"2018-03-29T20:43:44","slug":"a-despedida","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-despedida\/","title":{"rendered":"A despedida"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Autor: Mino Carta<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Quando escolhi o Brasil como lugar definitivo da minha vida, optei tamb\u00e9m pelo jornalismo. Existe uma indissol\u00favel conex\u00e3o entre as duas atitudes. E explico. At\u00e9 o golpe de 1964, fui jornalista com s\u00e9ria dedica\u00e7\u00e3o profissional. De alguma forma mercen\u00e1rio, no entanto.<\/p>\n<p>Diga-se que, depois da ren\u00fancia de J\u00e2nio Quadros, em agosto de 1961, quando a press\u00e3o militar s\u00f3 permitiu a posse de Jo\u00e3o Goulart, sucessor constitucional, ao for\u00e7ar a ado\u00e7\u00e3o do parlamentarismo, eu ficara de sobreaviso. Mas o golpe se deu tamb\u00e9m sobre a minha alma e motivou minhas escolhas definitivas.<\/p>\n<p>Entendi que fosse meu dever praticar o jornalismo em um pa\u00eds submetido \u00e0 ditadura imposta pela classe dominante com a inestim\u00e1vel ajuda dos seus gendarmes, e que se uma \u00fanica, escassa linha da minha escrita sobrasse para o futuro, teria conseguido conferir um m\u00ednimo de import\u00e2ncia \u00e0 minha profiss\u00e3o. Fa\u00e7o quest\u00e3o de sublinhar que n\u00e3o agia desta maneira pelo Brasil, e sim por mim mesmo.<\/p>\n<p>Quarenta e cinco anos depois, vivo uma quadra de extremo desalento, em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0s grandes esperan\u00e7as alimentadas durante a ditadura. Logo frustradas pela rejei\u00e7\u00e3o da emenda das elei\u00e7\u00f5es diretas ap\u00f3s uma campanha a favor que honra o povo brasileiro. Fez-se, pelo contr\u00e1rio, a concilia\u00e7\u00e3o das elites, nos exatos moldes previamente desenhados pelo general Golbery do Couto e Silva. A aposta do Merlin do Planalto estava certa e vale at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Fez-se a concilia\u00e7\u00e3o para eleger Fernando Collor e para derrub\u00e1-lo. E novamente para eleger Fernando Henrique Cardoso em 1994 e 1998. A Carta aos Brasileiros assinada por Lula foi uma tentativa de aparar arestas antes do pleito de 2002, aparentemente mal-sucedida, por ter convencido um n\u00famero bastante diminuto de privilegiados. A concilia\u00e7\u00e3o veio depois da posse, a despeito do \u00f3dio de classe que at\u00e9 o momento cega a m\u00eddia.<\/p>\n<p>A mim, que estou de olhos escancarados, a Carta convenceu por consider\u00e1-la sincera. Naquela \u00e9poca, n\u00e3o cansei de definir Lula como um conciliador desde os tempos da lideran\u00e7a sindical. No governo, contudo, ele foi muito al\u00e9m das minhas expectativas. Ou, por outra: deu para me decepcionar progressivamente.<\/p>\n<p>O balan\u00e7o de seis anos de Lula no poder n\u00e3o \u00e9 animador, no meu entendimento. A pol\u00edtica econ\u00f4mica privilegiou os mais ricos e deu aos mais pobres uma esmola. H\u00e1 quem diga: j\u00e1 \u00e9 alguma coisa. Respondo: \u00e9 pouco, \u00e9 uma migalha a cair da mesa de um banquete farto al\u00e9m da conta. O desequil\u00edbrio \u00e9 monstruoso. Na pol\u00edtica ambiental abriu a porta aos transg\u00eanicos, cuidou mal da Amaz\u00f4nia, dispensou Marina Silva, admir\u00e1vel figura, para entregar o posto a um senhorzinho t\u00e3o esvoa\u00e7ante quanto seus coletes.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica social pela en\u00e9sima vez sequer esbo\u00e7ou um plano de reforma agr\u00e1ria e enfraqueceu os sindicatos. E quanto ao poder pol\u00edtico? O Congresso acaba de eleger para a presid\u00eancia do Senado Jos\u00e9 Sarney, senhor feudal do estado mais atrasado da Federa\u00e7\u00e3o, estrategista da derrubada da emenda das diretas-j\u00e1 e mesmo assim, gra\u00e7as ao humor negro dos fados, presidente da Rep\u00fablica por cinco anos.<\/p>\n<p>Outro que foi para o trono, no caso da C\u00e2mara, \u00e9 Michel Temer, um ex-progressista capaz de optar vigorosamente pelo fisiologismo. Reconstitui-se o \u201ccentr\u00e3o\u201d velho de guerra, uma das obras-primas da concilia\u00e7\u00e3o tradicional. Enquanto isso, o Brasil ainda divide com Serra Leoa e Nig\u00e9ria a primazia mundial da m\u00e1 distribui\u00e7\u00e3o de renda, exporta commodities, 55 mil brasileiros morrem assassinados todo ano, 5% ganham de 800 reais pra cima. E 2009 promete ser bem pior que pretendiam os economistas do governo.<\/p>\n<p>Houve, e h\u00e1, justificad\u00edssima grita quanto \u00e0s privatiza\u00e7\u00f5es processadas no governo FHC. E que dizer do BNDES que empresta aos bilion\u00e1rios para armar a BrOi, a qual (\u00e9 uma modesta previs\u00e3o) acabar\u00e1 nas m\u00e3os de ouro de Carlos Slim? E que dizer da compra pelo governo de 49% das a\u00e7\u00f5es do Banco Votorantim \u00e0 beira da fal\u00eancia?<br \/>\nEm um ponto houve melhoras sens\u00edveis, na pol\u00edtica exterior. E a\u00ed vem o caso Battisti. At\u00e9 este serve ao prop\u00f3sito da concilia\u00e7\u00e3o, a despeito das cr\u00edticas bem fundamentadas da m\u00eddia.<\/p>\n<p>O ministro Tarso Genro disse em Bel\u00e9m que a favor da extradi\u00e7\u00e3o de Battisti se alinham os defensores da anistia aos torturadores da ditadura, \u201ccom exce\u00e7\u00e3o de Mino Carta\u201d. Agrade\u00e7o a refer\u00eancia, observo, por\u00e9m, que o ministro cai em clamorosa contradi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o foi ele quem, em rompante que beira a s\u00e1tira volteriana, sugeriu \u00e0 It\u00e1lia baixar uma lei da anistia igual \u00e0quela assinada no Brasil pelo ditador de plant\u00e3o?<\/p>\n<p>Talvez o ministro n\u00e3o saiba que enquanto no Brasil vigorou o Terror de Estado, na It\u00e1lia houve uma grav\u00edssima e fracassada tentativa terrorista de desestabilizar um Estado democr\u00e1tico de Direito estabelecido desde o fim do fascismo.<\/p>\n<p>Se eu digo que o Festival de Besteira assola o Pa\u00eds desde a \u00e9poca de Stanislaw Ponte Preta, e que se o ministro merece o Oscar do Febeap\u00e1, ao menos o professor Dalmo Dallari faz jus a uma cita\u00e7\u00e3o, recebo as mensagens ferozes e as agressivas admoesta\u00e7\u00f5es de centenas de patriotas. Pois n\u00e3o \u00e9 bobagem (sou condescendente) dizer que na It\u00e1lia dos anos 70 estava no poder um governo de extrema-direita, ou que se Battisti for extraditado, de volta ao seu pa\u00eds corre at\u00e9 risco de vida? Ou afirmar que Mestre e Mil\u00e3o, norte da pen\u00ednsula, s\u00e3o muito distantes, quando entre as duas cidades h\u00e1 menos de 200 quil\u00f4metros? Sem contar que, como me levam a observar v\u00e1rios frequentadores do meu blog, Battisti foi o autor do homic\u00eddio de Mestre e apenas o idealizador daquele de Mil\u00e3o.<\/p>\n<p>Est\u00e1 claro que o ministro Tarso n\u00e3o erra ao dizer que a m\u00eddia nativa est\u00e1 sempre a agredir o governo de Lula, e contra esta forma desvairada de preconceito Carta Capital tem se manifestado com frequ\u00eancia. Ocorre que, ao referir-se \u00e0 extradi\u00e7\u00e3o negada a m\u00eddia est\u00e1 certa, antes de mais nada em fun\u00e7\u00e3o dos motivos alegados, a exibir ao mundo ignor\u00e2ncia, falta de sensibilidade diplom\u00e1tica e irresponsabilidade pol\u00edtica, ao afrontar um estado democr\u00e1tico amigo.<\/p>\n<p>De todo modo, Battisti transcende sua personalidade de \u201cassassino em estado puro\u201d, segundo um grande magistrado como o italiano Armando Spataro, para se prestar a uma opera\u00e7\u00e3o que visa compactar o PT e empolgar um certo g\u00eanero de patriotas canarinhos.<\/p>\n<p>Isto tudo me leva a uma conclus\u00e3o desoladora, embora saiba de muit\u00edssimos leitores generosos e fi\u00e9is: minha cren\u00e7a no jornalismo faliu. Em mat\u00e9ria de furo n\u2019\u00e1gua, produzi a Fossa de Mindanao, iludi-me demais, mea culpa.<\/p>\n<p>Donde tomo as seguintes decis\u00f5es: despe\u00e7o-me deste blog e, por ora, calo-me em CartaCapital.<\/p>\n<p>Creio que a revista ainda precise de minha longa experi\u00eancia profissional, completa 60 anos no fim de 2009. Eu confiei muito em Lula, por quem alimento amizade e afeto. Entendo que o Brasil perde com ele uma oportunidade \u00fanica e insisto em um ponto j\u00e1 levantado neste espa\u00e7o: o pr\u00f3ximo presidente da Rep\u00fablica n\u00e3o ser\u00e1 um ex-metal\u00fargico com quem o povo identifica-se automaticamente. Conforme demonstra ali\u00e1s o \u00edndice de aprova\u00e7\u00e3o do presidente, cada vez mais dilatado.<\/p>\n<p>Vai sobrar-me tempo para escrever um livro sobre o Brasil. Talvez n\u00e3o ache editor, pouco importa, vou escrev\u00ea-lo de qualquer forma, quem sabe venha a ser premiado pela publica\u00e7\u00e3o p\u00f3stuma.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><strong><em>Autor: Mino Carta<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Quando escolhi o Brasil como lugar definitivo da minha vida, optei tamb\u00e9m pelo jornalismo. 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