{"id":11253,"date":"2008-09-17T00:00:00","date_gmt":"2008-09-17T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2018-03-29T20:31:36","modified_gmt":"2018-03-29T20:31:36","slug":"heroi-morto-nos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/heroi-morto-nos\/","title":{"rendered":"Her\u00f3i morto. N\u00f3s."},"content":{"rendered":"<p><em><strong>por Louren\u00e7o Diaf\u00e9ria<\/strong><\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o me venham com besteiras de dizer que her\u00f3i n\u00e3o existe. Passei metade do dia imaginando uma palavra menos desgastada para definir o gesto desse sargento S\u00edlvio, que pulou no po\u00e7o das ariranhas, para salvar o garoto de catorze anos, que estava sendo dilacerado pelos bichos.<\/p>\n<p>O garoto est\u00e1 salvo. O sargento morreu e est\u00e1 sendo enterrado em sua terra.<\/p>\n<p>Que nome devo dar a esse homem?<\/p>\n<p>Escrevo com todas as letras: o sargento Silvio \u00e9 um her\u00f3i. Se n\u00e3o morreu na guerra, se n\u00e3o disparou nenhum tiro, se n\u00e3o foi enforcado, tanto melhor.<\/p>\n<p>Podem me explicar que esse tipo de hero\u00edsmo \u00e9 resultado de uma total inconsci\u00eancia do perigo. Pois quero que se lixem as explica\u00e7\u00f5es. Para mim, o her\u00f3i -como o santo- \u00e9 aquele que vive sua vida at\u00e9 as \u00faltimas consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>O her\u00f3i redime a humanidade \u00e0 deriva.<\/p>\n<p>Esse sargento Silvio podia estar vivo da silva com seus quatro filhos e sua mulher. Acabaria capit\u00e3o, major.<\/p>\n<p>Est\u00e1 morto.<\/p>\n<p>Um bel\u00edssimo sargento morto.<\/p>\n<p>E todavia.<\/p>\n<p>Todavia eu digo, com todas as letras: prefiro esse sargento her\u00f3i ao duque de Caxias.<\/p>\n<p>O duque de Caxias \u00e9 um homem a cavalo reduzido a uma est\u00e1tua. Aquela espada que o duque ergue ao ar aqui na Pra\u00e7a Princesa Isabel -onde se re\u00fanem os ciganos e as pombas do entardecer- oxidou-se no cora\u00e7\u00e3o do povo. O povo est\u00e1 cansado de espadas e de cavalos. O povo urina nos her\u00f3is de pedestal. Ao povo desgosta o her\u00f3i de bronze, irretoc\u00e1vel e irretorqu\u00edvel, como as enfadonhas li\u00e7\u00f5es repetidas por cansadas professoras que n\u00e3o acreditam no que mandam decorar.<\/p>\n<p>O povo quer o her\u00f3i sargento que seja como ele: povo. Um sargento que d\u00ea as m\u00e3os aos filhos e \u00e0 mulher, e passeie inc\u00f3gnito e desfardado, sem divisas, entre seus irm\u00e3os.<\/p>\n<p>No instante em que o sargento -apesar do grito de perigo e de alerta de sua mulher- salta no fosso das simp\u00e1ticas e ferozes ariranhas, para salvar da morte o garoto que n\u00e3o era seu, ele est\u00e1 ensinando a este pa\u00eds, de her\u00f3is est\u00e1ticos e fundidos em metal, que todos somos respons\u00e1veis pelos espinhos que machucam o couro de todos.<\/p>\n<p>Esse sargento n\u00e3o \u00e9 do grupo do cambalacho.<\/p>\n<p>Esse sargento n\u00e3o pensou se, para ser honesto para consigo mesmo, um cidad\u00e3o deve ser civil ou militar. Duvido, e fa\u00e7o pouco, que esse pobre sargento morto fez revolu\u00e7\u00f5es de bar, na base do u\u00edsque e da farolagem, e duvido que em algum instante ele imaginou que apareceria na primeira p\u00e1gina dos jornais.<\/p>\n<p>\u00c9 apenas um homem que -como disse quando pressentiu as suas \u00faltimas quarenta e oito horas, quando pressentiu o roteiro de sua \u00faltima viagem- n\u00e3o podia permanecer insens\u00edvel diante de uma crian\u00e7a sem defesa.<\/p>\n<p>O povo prefere esses her\u00f3is: de carne e sangue.<\/p>\n<p>Mas, como sempre, o her\u00f3i \u00e9 reconhecido depois, muito depois. Tarde demais.<\/p>\n<p>\u00c9 isso, sargento: nestes tempos cru\u00e9is e embotados, a gente n\u00e3o teve o instante de te reconhecer entre o povo. A gente n\u00e3o distinguiu teu rosto na multid\u00e3o. \u00c9ramos irm\u00e3os, e s\u00f3 descobrimos isso agora, quando o sangue verte, e quanto te enterramos. O her\u00f3i e o santo \u00e9 o que derrama seu sangue. Esse \u00e9 o pre\u00e7o que deles cobramos.<\/p>\n<p>Pod\u00edamos ter estendido nossas m\u00e3os e te arrancando do fosso das ariranhas -como voc\u00ea tirou o menino de catorze anos- mas quer\u00edamos que algu\u00e9m fizesse o gesto de solidariedade em nosso lugar.<\/p>\n<p>Sempre \u00e9 assim: o her\u00f3i e o santo \u00e9 o que estende as m\u00e3os.<\/p>\n<p>E este \u00e9 o nosso grande remorso: o de fazer as coisas urgentes e inadi\u00e1veis -tarde demais.<\/p>\n<p><em><strong>Folha de S. Paulo: 01\/09\/1977<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em><strong>por Louren\u00e7o Diaf\u00e9ria<\/strong><\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o me venham com besteiras de dizer que her\u00f3i n\u00e3o existe. 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