{"id":11257,"date":"2009-03-14T00:00:00","date_gmt":"2009-03-14T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:44:45","modified_gmt":"2017-09-15T19:44:45","slug":"poderosa","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/poderosa\/","title":{"rendered":"Poderosa"},"content":{"rendered":"<p>Descobri que eram brasileiros porque falavam ingl\u00eas.<\/p>\n<p>Como assim? Explico.<\/p>\n<p>Tr\u00eas deles \u2013 dois rapazes e uma mo\u00e7a \u2013 exibiam-se no idioma do Tio Patinhas. O outro, pela discreta camisa quadriculada e o ar circunspecto a economizar palavras, me pareceu ser mesmo made in USA.<\/p>\n<p>Pinta de executivos, jovens executivos ali pela feliz casa dos trinta, seguramente viajaram para o Uruguai para concluir, desconfio, algum bom neg\u00f3cio. Imobili\u00e1rio, talvez. A imprensa local, na contram\u00e3o da crise, anunciou nos dias que tamb\u00e9m andei por l\u00e1 grandes projetos para o setor nos arredores da encantadora Punta Del Leste.<\/p>\n<p>N\u00e3o posso afirmar.  As vozes \u2013 a bem da verdade, os sons me chegavam entrecortados. Tamb\u00e9m se me viessem inteiros, eu continuaria sem entender. N\u00e3o manjo nada de ingl\u00eas.<\/p>\n<p>Em todo caso, continuei a observa-los.<\/p>\n<p>Ocup\u00e1vamos mesas pr\u00f3ximas no Caf\u00e9 do aeroporto de Montevid\u00e9u e, f\u00e1cil intuir, esper\u00e1vamos voo para S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Naquele momento, tudo o que eu queria era esquecer os 20 d\u00f3lares que a tal Pluna me tomou, na m\u00e3o grande, para embarcar uma reles mala de viagem. N\u00e3o foi excesso de peso, n\u00e3o. \u00c9 praxe ali, em seus dom\u00ednios, a empresa de avia\u00e7\u00e3o cobrar pelo procedimento.<\/p>\n<p>\u201cAs aeronaves s\u00e3o pequenas\u201d, justificou, diante da minha indigna\u00e7\u00e3o, a mo\u00e7a do balc\u00e3o de atendimento.<\/p>\n<p>Alheio a taxas e preju\u00edzos, o grupo conversava em tom informal.<\/p>\n<p>J\u00e1 lhes falei aqui antes, em outras cr\u00f4nicas. Tenho uma certa tend\u00eancia a imaginar coisas.<\/p>\n<p>Pois \u00e9.<\/p>\n<p>Comecei a perceber um n\u00edtido jogo de sedu\u00e7\u00e3o da mo\u00e7oila \u2013 nenhuma Rainha de Bateria, mas fatalmente bela como s\u00f3 e acontecer com as mulheres brasileiras \u2013 para cima do indefeso e guapo americano.<\/p>\n<p>Para completar o enredo, entendi que os brazucas eram c\u00famplice da investida que me pareceu iminente. Faziam cara de paisagem e logo inventaram boas desculpas para deixar o casal a s\u00f3s, embora em p\u00fablico e sob minha vigilante observa\u00e7\u00e3o. Um sacou o notebook da mochila e foi procurar um canto onde a conex\u00e3o \u201cn\u00e3o ca\u00edsse tanto\u201d. No outro, surgiu a s\u00fabita vontade de espairecer, esticar as pernas e desaparecer dos arrabaldes da pequena mesa redonda, onde estava o americano indiferente e de postura inabal\u00e1vel. A mo\u00e7a, meus caros, era s\u00f3 sorrisos, cochichos e meneios de cabe\u00e7a. Cabelo pra c\u00e1, cabelo pra l\u00e1. Um charme.<\/p>\n<p>\u201cAvavava\u201d, ruminei comigo mesmo. N\u00e3o pode ser. Os dois trazem alian\u00e7as taludas, em formatos e tamanhos distintos, na m\u00e3o esquerda. S\u00e3o casados, portanto \u2013 e t\u00eam l\u00e1 seus c\u00f4njuges (como se grafava nos antigos convites de n\u00fapcias; ops, outra palavra daqueles idos tempos!) nos respectivos pa\u00edses.<\/p>\n<p>Desencanei.<\/p>\n<p>Bendita mania de querer achar hist\u00f3ria para lhes contar diariamente.<\/p>\n<p>D\u00e1 nisso.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m eu fui bater pernas.<\/p>\n<p>Voltei a prestar aten\u00e7\u00e3o \u2013 inevit\u00e1vel \u2013 na turma dentro do avi\u00e3o. O gringo e a mo\u00e7a \u2013 inevit\u00e1vel 2 \u2013 se acomodaram em bancos colados tr\u00eas ou quatro fileiras \u00e0 minha frente. Os amigos passaram por mim, com um sorrisinho sacana de tudo, e foram se instalar nos confins do bich\u00e3o voador. Quer dizer, nem t\u00e3o \u201cbich\u00e3o\u201d assim, pois como disse o avi\u00e3o era pequeno e as pessoas, lado a lado, dois a dois, ficavam praticamente coladas umas as outras.<\/p>\n<p>Um desconforto, mas em determinadas situa\u00e7\u00f5es pode ser bom.<\/p>\n<p>Feitos os procedimentos para a decolagem, luzes apagadas, n\u00e3o houve como. Acabei por adormecer e esquecer meu talento natural para ver coisas onde n\u00e3o existem.<\/p>\n<p>Tanto que foi surpresa v\u00ea-los despedirem-se, todos cerimoniosos, assim que chegamos a Cumbica, ao lado da confusa esteira de bagagens. O grandalh\u00e3o foi para um lado \u00e0 procura de uma prov\u00e1vel conex\u00e3o que o levaria de volta ao portentoso pa\u00eds. Estava algo decomposto, notei. O grupo rumou para a sa\u00edda natural dos brasileiros. Para onde segui tamb\u00e9m, sem qualquer outro objetivo sen\u00e3o voltar ao conv\u00edvio dos meus.<\/p>\n<p>Voc\u00eas podem n\u00e3o acreditar. Mas, por J\u00fapiter!, por Nossa Senhora que tamb\u00e9m protege os cronistas sem assunto!, juro que ouvi a mo\u00e7a, toda poderosa, confessar j\u00e1 no idioma p\u00e1trio.<\/p>\n<p>&#8212; Eu n\u00e3o disse que conseguia! Ent\u00e3o?<\/p>\n<p>Desculpem. Sei que n\u00e3o \u00e9 da minha conta. Longe de mim comentar a vida alheia. Mas vou lhes dizer, de cora\u00e7\u00e3o. Ainda hoje me inquieta a d\u00favida:<\/p>\n<p>Que tipo de parceria essa mo\u00e7a conseguiu fazer com o americano em pleno voo?<\/p>\n<p>Poderosa, linda e faceira retocou a maquiagem e foi \u00e0s compras no Free Shop.<\/p>\n<p>Foto: J\u00f4 Rabelo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Descobri que eram brasileiros porque falavam ingl\u00eas.<\/p>\n<p>Como assim? Explico.<\/p>\n<p>Tr\u00eas deles \u2013 dois rapazes e uma mo\u00e7a \u2013 exibiam-se no idioma do Tio Patinhas. O outro,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-11257","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11257","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11257"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11257\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16693,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11257\/revisions\/16693"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11257"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11257"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11257"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}