{"id":11275,"date":"2009-03-31T00:00:00","date_gmt":"2009-03-31T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:44:40","modified_gmt":"2017-09-15T19:44:40","slug":"plinio-marcos-e-as-quebradas-do-mundareu-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/plinio-marcos-e-as-quebradas-do-mundareu-2\/","title":{"rendered":"Pl\u00ednio Marcos e as quebradas do mundar\u00e9u (2)"},"content":{"rendered":"<p>Pl\u00ednio Marcos morreu em novembro de 1999. O que transcrevo a seguir \u00e9 a segunda parte da entrevista que fiz com \u201co cronista das quebradas do mundar\u00e9u\u201d, ao lado do amigo e jornalista Cl\u00f3vis Naconecy de Souza,  publicada em 4 de mar\u00e7o de 1978. <\/p>\n<p>A tem\u00e1tica de hoje: arte, cultura e a implac\u00e1vel censura.<\/p>\n<p>\u2013 Li uma entrevista, voc\u00ea fazendo uma compara\u00e7\u00e3o entre cultura erudita e cultura popular. Explique isso?<\/p>\n<p>PM- Eu n\u00e3o fiz essa compara\u00e7\u00e3o, n\u00e3o. Eu disse que os intelectuais brasileiros s\u00e3o marginais de classe m\u00e9dia que querem ganhar status atrav\u00e9s da cultura. E por isso mesmo eles s\u00f3 d\u00e3o import\u00e2ncia para a cultura erudita, desprezam a cultura de massa, a cultura popularesca e desconhecem totalmente a cultura popular.<\/p>\n<p>\u2013 No ano passado tivemos o caso do Macumbinha (violonista negro que morreu no anonimato), voc\u00ea poderia colocar a situa\u00e7\u00e3o do m\u00fasico brasileiro. Naquela ocasi\u00e3o, lembro, voc\u00ea escreveu uma cr\u00f4nica a respeito da morte desse m\u00fasico.  <\/p>\n<p>PM \u2013 A posi\u00e7\u00e3o do m\u00fasico \u00e9 a de todos artistas, de todos n\u00f3s. S\u00e3o 172 filmes estrangeiros na televis\u00e3o brasileira por semana. 80 % das m\u00fasicas que tocam nas r\u00e1dios s\u00e3o estrangeiras, todos os dias. S\u00e3o 9.600 filmes estrangeiros contra 100 filmes brasileiros por ano no Brasil. Ent\u00e3o, tudo isso, evidentemente, nos tira o mercado de trabalho e as pessoas v\u00e3o acabar, como Macumbinha, se matando por desespero, por n\u00e3o poder sustentar a fam\u00edlia, s\u00f3 com o exerc\u00edcio de seu of\u00edcio, de sua arte.<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea \u00e9 a favor dessa lei de obrigatoriedade?<\/p>\n<p>PM &#8211; N\u00e3o. Sou contra que entre lixo estrangeiro. Por que lixo estrangeiro? Por que n\u00f3s temos que ter leis que protejam o filme estrangeiro? Em nenhum pa\u00eds civilizado do mundo voc\u00ea protege a importa\u00e7\u00e3o de cultura de consumo. S\u00f3 no Brasil, que aqui as classes dominantes vivem de vender caf\u00e9 ao estrangeiro. E para o estrangeiro comprar caf\u00e9 a gente tem que comprar a cultura de consumo deles. E n\u00f3s estamos gastando mais na cultura de consumo do que na importa\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo. O que evidentemente \u00e9 um empobrecimento econ\u00f4mico para o pa\u00eds, al\u00e9m de ser um empobrecimento cultural de nosso povo. Que essa importa\u00e7\u00e3o de cultura est\u00e1 esmagando nossas manifesta\u00e7\u00f5es mais espont\u00e2neas.  <\/p>\n<p>\u2013 Sua opini\u00e3o sobre cinema nacional?<\/p>\n<p>PM &#8211; Cinema nacional n\u00e3o pode existir porque n\u00e3o tem mercado. Se eles passam 9.600 filmes estrangeiros contra apenas 100 brasileiros, como \u00e9 que vai se formar uma ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica? Porque quem decide o que deve ser visto por n\u00f3s, brasileiros, \u00e9 o exibidor, geralmente tem um traidor da p\u00e1tria, um ignoranta\u00e7o ganancioso ou ent\u00e3o o distribuidor que \u00e9 um mero testa-de-ferro das multinacionais do cinema. Ent\u00e3o nosso cinema n\u00e3o pode existir, m\u00e3o pode ter sua linguagem pr\u00f3pria. N\u00f3s temos que conquistar nosso mercado de trabalho, para depois discutir cinema. <\/p>\n<p>&#8212; Qual a import\u00e2ncia do teatro brasileiro hoje?<\/p>\n<p>PM &#8211; O teatro brasileiro n\u00e3o faz nenhum sentido ao prezado momento, porque ele n\u00e3o \u00e9 uma tribuna livre onde se possa discutir, at\u00e9 as \u00faltimas consequ\u00eancias, o problema do homem brasileiro. \u00c9 um teatro subvencionado pelo governo, e qualquer arte atrelada a quem det\u00e9m o poder \u00e9 uma arte menor, muito menor. N\u00e3o pode nem fazer seu papel de ser cr\u00edtica da sociedade. Ao lado disso, a censura, que \u00e9 um bra\u00e7o do colonialismo cultural, constrange os artistas que gostariam de discutir a realidade brasileira. Ent\u00e3o, gera essa onda de obscurantismo, que envolve nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u2013 Atualmente, quantas pe\u00e7as voc\u00ea tem censuradas?<\/p>\n<p>PM \u2013 Quantas eu tenho ou&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Ou quantas foram liberadas ?<\/p>\n<p>PM \u2013 tenho duas pe\u00e7as em cartaz. As que n\u00e3o est\u00e3o em cartaz ou est\u00e3o proibidas ou est\u00e3o sem alvar\u00e1 que \u00e9 a mesma coisa. Pois n\u00e3o pode ser encenada. Ao todo, escrevi at\u00e9 agora 22 pe\u00e7as.<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea sempre foi muito visado pela censura. Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>PM &#8211; Bem, eu n\u00e3o me componho, n\u00e3o aceito com facilidade. Muito menos escrevo fazendo auto-censura. Ent\u00e3o, sempre cria atritos. Agora eu n\u00e3o sou sambista, mas mesmo no mundo do samba eu j\u00e1 fui proibido. Por exemplo, a Mocidade Alegre do Bairro do Lim\u00e3o ia trazer uma alegoria, certa feita, com uma frase minha e a censura proibiu.<\/p>\n<p>\u2013 Qual era a frase?<\/p>\n<p>PM \u2013 Era: \u201cUm povo que n\u00e3o ama e que n\u00e3o preserva suas formas de express\u00e3o mais aut\u00eanticas jamais ser\u00e1 um povo livre\u201d.<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea se acha um homem realizado?<\/p>\n<p>PM \u2013 Se eu me achasse um homem realizado eu deitava e morria, n\u00e9? N\u00e3o pode haver nenhuma realiza\u00e7\u00e3o para n\u00f3s, enquanto o povo brasileiro estiver nesse estado de miserabilidade em que se encontra. Impedido at\u00e9 de participar da sua hist\u00f3ria, e impedido de influir no seu pr\u00f3prio destino. Como fa\u00e7o parte do povo, tamb\u00e9m estou constrangido. Igualmente, n\u00e9?<\/p>\n<p>FOTO no blog: Caio Kenji<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pl\u00ednio Marcos morreu em novembro de 1999. 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