{"id":11279,"date":"2007-09-04T00:00:00","date_gmt":"2007-09-04T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T04:06:07","modified_gmt":"2017-09-14T04:06:07","slug":"manhas-de-sabado-folhetim","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/manhas-de-sabado-folhetim\/","title":{"rendered":"Manh\u00e3s de s\u00e1bado (folhetim)"},"content":{"rendered":"<p>Conto como acho que foi&#8230;<\/p>\n<p>Ele entrou naquele bar na esquina das ruas Grenfeeld com Bom Pastor. Cumprimentou os conhecidos com um aceno vago, levantou o polegar no sinal de positivo para o balconista. De pronto, dois copos surgiram \u00e0 sua frente. Um para a cerveja; outro, menor, para a branquinha, o quebra-gelo. <\/p>\n<p>Virou numa golada s\u00f3 a segunda. No instante seguinte, enfrentou o primeiro copo de cerveja com a mesma voracidade. Deu um suspiro e percebeu que as m\u00e3os pararam de tremer, os olhos clarearam. <\/p>\n<p>Sentiu-se vivo, mas vazio, vazio.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m foi falar com ele. <\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o queria falar com ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Era manh\u00e3 de s\u00e1bado. Mas, poderia ser outro dia qualquer. N\u00e3o faria diferen\u00e7a. Ali\u00e1s, de um tempo pra c\u00e1, as coisas pareciam n\u00e3o fazer sentido. N\u00e3o, para ele. Talvez outros pudessem sonhar, encontrar caminhos. Vislumbrar uma brecha. <\/p>\n<p>Algo que valesse a pena.<\/p>\n<p>Repetiu o ritual. Virou a cacha\u00e7a, sorveu a cerveja. Mastigou o contraste dos sabores e o desconcerto de come\u00e7ar a embebedar-se \u00e0quela hora do dia. Pensou nos anos todos que dedicou ao banco. Imaginava-se importante. Riu dos contratempos, dos prazos, daquele dia-a-dia estressante. As gravatas. O rel\u00f3gio de ouro quando completou 30 anos de trabalho. A aposentadoria \u2013 e os trocados que lhe garantiam a vida med\u00edocre, mas livres dos hor\u00e1rios e dos ritos.<\/p>\n<p>Teve a sincera impress\u00e3o que desperdi\u00e7ara o melhor da vida. Mas, nada poderia fazer. Nada. <\/p>\n<p>A n\u00e3o ser, beber.<\/p>\n<p>&#8212; Bebamos, pois&#8230; Sa\u00fade, gente!!!<\/p>\n<p>Alguns sorriram c\u00famplices. Outros at\u00e9 levantaram seus copos. Muitos ficaram indiferentes. Ningu\u00e9m se achegou \u2013 o que ele achou bom. Desta vez, ele pr\u00f3prio espantou-se com a rapidez com que fez o vira-vira.<\/p>\n<p>Apoiou o cotovelo no balc\u00e3o e a cabe\u00e7a na palma da m\u00e3o esquerda. Deixou-se estar por instantes. N\u00e3o era essa a vida que um dia ele pensou levar. Ser\u00e1 que s\u00f3 fez andar em c\u00edrculos at\u00e9 chegar ali \u2013 c\u00edruculos vagos, por nada e para nada.<\/p>\n<p>Filhos crescidos \u2013 dois; respeit\u00e1veis cidad\u00e3os. Netos bonitos, ainda com a vida pela frente. Todos saud\u00e1veis. A mulher a cuidar da casa. Tudo certo. Aparentemente certo. Nos conformes, como dizia um amigo. S\u00f3 aquele n\u00f3 na garganta. Inexplic\u00e1vel n\u00f3 a lhe roubar o ar, a lhe tirar o ch\u00e3o. De onde veio essa ang\u00fastia. E para onde o levaria&#8230;<\/p>\n<p>Resolveu tirar essa d\u00favida a limpo. <\/p>\n<p>Viram quando deixou uns trocados sobre o balc\u00e3o. Nem se importou quando o balconista lhe disse:<\/p>\n<p>&#8212; Mo\u00e7o, tem troco.<\/p>\n<p>Subiu no primeiro \u00f4nibus que parou no ponto, logo em frente. Era o F\u00e1brica\/Pinheiros, velho de guerra. Ningu\u00e9m nunca mais ouviu falar de Orlando, este era o nome do homem. Uns dizem que era coisa de mulher. Outros que estava com doen\u00e7a ruim. Houve quem dissesse que ele estava bebendo demais. <\/p>\n<p>Os familiares choraram nos primeiros dias \u2013 mas, ningu\u00e9m desesperou. Entenderam logo que a vida tem seus des\u00edgnios. Todos sa\u00edram ganhando. Depois a mulher sozinha poderia morar num apartamento menor e a avarandada casa de c\u00f4modos \u2013 o xod\u00f3 do pai \u2013 ficaria para a fam\u00edlia do filho mais velho. Afinal, os garotos estavam crescendo, precisavam de espa\u00e7o para brincar. Ah! tamb\u00e9m queriam ter um cachorro de estima\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ta relampiando, cad\u00ea nen\u00e9m?<\/p>\n<p>Acordou de suas lembran\u00e7as, com a pergunta de Bartira. Sorriu como sorri os que tem a alma lavada. Apontou a rede no pequeno quarto, onde dormia, a sono solto, o garoto de ano e meio, filho dos dois. Recebeu um beijo agradecido na face e um convite.<\/p>\n<p>Irrecus\u00e1vel convite:<\/p>\n<p>&#8212; Vamu aproveit\u00e1. Vem pra rede mais eu. Vem&#8230;<\/p>\n<p>Os primeiros pingos da tarde come\u00e7aram a cair, enviesados e grossos naqueles cafund\u00f3s da Ilha do Maraj\u00f3. N\u00e3o esperou a chuva encorpar, menos ainda um segundo chamado. Era um homem sem passado. Entrou feliz, pleno como se nunca vivera aquela distante manh\u00e3 de s\u00e1bado. <\/p>\n<p>Enfim, Orlando tinha o melhor da vida&#8230; <\/p>\n<p>* Manh\u00e3 de s\u00e1bado 2<\/p>\n<p>Conto como foi. Mas, n\u00e3o garanto&#8230;<\/p>\n<p>Ele entrou naquele bar na esquina das ruas Grenfeeld com Bom Pastor. Cumprimentou os conhecidos com um aceno vago, levantou o polegar no sinal de positivo para o balconista. De pronto, dois copos surgiram \u00e0 sua frente. Um para a cerveja; outro, menor, para a branquinha, o quebra-gelo. <\/p>\n<p>Virou numa golada s\u00f3 a segunda. No instante seguinte, enfrentou o primeiro copo de cerveja com a mesma voracidade. Deu um suspiro e percebeu que as m\u00e3os pararam de tremer, os olhos clarearam. <\/p>\n<p>Sentiu-se vivo, mas vazio, vazio.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m foi falar com ele. <\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o queria falar com ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Era manh\u00e3 de s\u00e1bado. Mas, poderia ser outro dia qualquer. N\u00e3o faria diferen\u00e7a. Ali\u00e1s, de um tempo pra c\u00e1, as coisas pareciam n\u00e3o fazer sentido. N\u00e3o, para ele. Talvez outros pudessem sonhar, encontrar caminhos. Vislumbrar uma brecha. <\/p>\n<p>Algo que valesse a pena.<\/p>\n<p>Repetiu o ritual. Virou a cacha\u00e7a, sorveu a cerveja. Mastigou o contraste dos sabores e o desconcerto de come\u00e7ar a embebedar-se \u00e0quela hora do dia. Pensou nos anos todos que dedicou ao banco. Imaginava-se importante. Riu dos contratempos, dos prazos, daquele dia-a-dia estressante. As gravatas. O rel\u00f3gio de ouro quando completou 30 anos de trabalho. A aposentadoria \u2013 e os trocados que lhe garantiam a vida med\u00edocre, mas livres dos hor\u00e1rios e dos ritos.<\/p>\n<p>Teve a sincera impress\u00e3o que desperdi\u00e7ara o melhor da vida. Mas, nada poderia fazer. Nada. <\/p>\n<p>A n\u00e3o ser, beber.<\/p>\n<p>&#8212; Bebamos, pois&#8230; Sa\u00fade, gente!!!<\/p>\n<p>Alguns sorriram c\u00famplices. Outros at\u00e9 levantaram seus copos. Muitos ficaram indiferentes. Ningu\u00e9m se achegou \u2013 o que ele achou bom. Desta vez, ele pr\u00f3prio espantou-se com a rapidez com que fez o vira-vira.<\/p>\n<p>Apoiou o cotovelo no balc\u00e3o e a cabe\u00e7a na palma da m\u00e3o esquerda. Deixou-se estar por instantes. N\u00e3o era essa a vida que um dia ele pensou levar. Ser\u00e1 que s\u00f3 fez andar em c\u00edrculos at\u00e9 chegar ali \u2013 c\u00edrculos vagos, por nada e para nada.<\/p>\n<p>Filhos crescidos \u2013 dois; respeit\u00e1veis cidad\u00e3os. Netos bonitos, ainda com a vida pela frente. Todos saud\u00e1veis. A mulher a cuidar da casa. Tudo certo. Aparentemente certo. Nos conformes, como dizia um amigo. S\u00f3 aquele n\u00f3 na garganta. Inexplic\u00e1vel n\u00f3 a lhe roubar o ar, a lhe tirar o ch\u00e3o. De onde veio essa ang\u00fastia. E para onde o levaria&#8230;<\/p>\n<p>Ouviu o ronco conhecido do bus\u00e3o, o F\u00e1brica\/Pinheiros, que se aproximava da fat\u00eddica esquina. Ali, onde o Sacom\u00e3 entorta o rabo e o coletivo faz a curva aos trancos e aos sustos. <\/p>\n<p>\u00c9 um salve-se quem puder. Passageiros s\u00e3o jogados para a esquerda \u2013 e a\u00ed de quem n\u00e3o se segurar. Quem est\u00e1 no meio da rua corre para escapar do mostrengo que bufa e se entorta todo. At\u00e9 os que est\u00e3o na cal\u00e7ada fazem figa para que tudo termine bem \u2013 e o bich\u00e3o n\u00e3o se descontrole cal\u00e7adas e pr\u00e9dios adentro.<\/p>\n<p>Tudo volta \u00e0 aparente normalidade no ponto de parada a 50 metros dali. <\/p>\n<p>Foi exatamente para l\u00e1 que o homem correu, sem sequer pagar a conta. <\/p>\n<p>&#8212; Vige, o que deu nele? Saiu sem pagar&#8230;<\/p>\n<p>Quem quis ver viu Orlando se esbaforir na tentativa de alcan\u00e7ar o \u00f4nibus.<\/p>\n<p>&#8212; O que deu no homem? \u2013 perguntaram-se.<\/p>\n<p>Uns disseram que era coisa de mulher. <\/p>\n<p>&#8212; Desde que a amante o deixou, deu de beber.<\/p>\n<p>Outros, que estava com doen\u00e7a ruim. <\/p>\n<p>&#8212; Me disseram que est\u00e1 fazendo uns exames e&#8230; Sabe, n\u00e9, como \u00e9 a vida.<\/p>\n<p>Houve quem conclu\u00edsse sabiamente:<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 s\u00f3 um cachaceiro correndo do calote que deu.<\/p>\n<p>Indiferente a tudo, Orlando viu o \u00f4nibus parar no ponto, como a lhe esperar. N\u00e3o sabia exatamente o porqu\u00ea fazia tudo aquilo. Para onde iria e mesmo se iria. Queria estar dentro coletivo e a\u00ed ganhar o mundo. A porta aberta era a certeza de que chegaria a tempo. N\u00e3o sentia o cansa\u00e7o da tresloucada corrida, nem o cora\u00e7\u00e3o acelerar. S\u00f3 tinha olhos para a porta. Assim que entrasse agradeceria a gentileza do motorista que o esperou&#8230; <\/p>\n<p>Menos de cinco metros. Alguns passos e a liberdade lhe sorria. Teria coragem?<\/p>\n<p>Saltou o meio fio e&#8230; <\/p>\n<p>S\u00f3 se escutou o estrondo do baque, depois a gritaria de quem viu a cena. <\/p>\n<p>Uma exclama\u00e7\u00e3o calou fundo no pessoal do boteco:<\/p>\n<p>&#8212; Meu Deus, a moto atropelou o v\u00e9io&#8230;<\/p>\n<p>Acordou na cama do hospital. Gesso por todo o corpo. Bra\u00e7o esquerdo estendido para a frente, perna esquerda suspensa por um fio, cabe\u00e7a enfaixada. Estava imobilizado. Procurou com os olhos fazer o reconhecimento do local. Mas, s\u00f3 conseguiu mesmo ver o teto bege amarelecido pelo tempo. <\/p>\n<p>Ouviu vozes conhecidas. A mulher, um dos filhos e talvez um m\u00e9dico estavam por ali. Ningu\u00e9m chorava. N\u00e3o havia desespero. Mas, sentiu o clima de expectativa.<\/p>\n<p>&#8212; Nasceu de novo \u2013 disse o desconhecido.<\/p>\n<p>&#8212; Dez dias de coma, doutor. Ser\u00e1 que n\u00e3o vai ficar seq\u00fcela? <\/p>\n<p>Era o filho mais velho com voz de preocupa\u00e7\u00e3o. O solu\u00e7o que imaginou ser da esposa se antecipou \u00e0 resposta.<\/p>\n<p>&#8212; Fiquem tranq\u00fcilo&#8230;<\/p>\n<p>Agradeceu a Deus pelo diagn\u00f3stico. N\u00e3o estava t\u00e3o ruim assim. De imediato, refez a cena e n\u00e3o atinou com os fatos. Como n\u00e3o chegou ao \u00f4nibus? O que teria acontecido? Desistiu por hora, pois se lembrou do pior. A morena Bartira, a crian\u00e7a dormindo, o para\u00edso da Ilha do Maraj\u00f3 \u2013 era tudo fic\u00e7\u00e3o. Sonho de um ser inconsciente \u2013 e inconseq\u00fcente. <\/p>\n<p>Parecia t\u00e3o real.<\/p>\n<p>&#8212; Vem pra rede mais eu. Vem&#8230;<\/p>\n<p>Suspirou. Quis voltar o tempo, refazer a manh\u00e3 de s\u00e1bado. Conformou-se com a certeza do agora:<\/p>\n<p>Estar vivo \u00e9 o melhor da vida.<\/p>\n<p>* Manh\u00e3 de s\u00e1bado 3<\/p>\n<p>Conto como foi&#8230;<\/p>\n<p>(Porque tudo leva crer que sempre \u00e9 assim.)<\/p>\n<p>Ele entrou naquele bar na esquina das ruas Grenfeeld com Bom Pastor. Cumprimentou os conhecidos com um aceno vago, levantou o polegar no sinal de positivo para o balconista. De pronto, dois copos surgiram \u00e0 sua frente. Um para a cerveja; outro, menor, para a branquinha, o quebra-gelo. <\/p>\n<p>Virou numa golada s\u00f3 a segunda. No instante seguinte, enfrentou o primeiro copo de cerveja com a mesma voracidade. Deu um suspiro e percebeu que as m\u00e3os pararam de tremer, os olhos clarearam. <\/p>\n<p>Sentiu-se vivo, mas vazio, vazio.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m foi falar com ele. <\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o queria falar com ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Era manh\u00e3 de s\u00e1bado. Mas, poderia ser outro dia qualquer. N\u00e3o faria diferen\u00e7a. Ali\u00e1s, de um tempo pra c\u00e1, as coisas pareciam n\u00e3o fazer sentido. N\u00e3o, para ele. Talvez outros pudessem sonhar, encontrar caminhos. Vislumbrar uma brecha. <\/p>\n<p>Algo que valesse a pena.<\/p>\n<p>Repetiu o ritual. Virou a cacha\u00e7a, sorveu a cerveja. Mastigou o contraste dos sabores e o desconcerto de come\u00e7ar a embebedar-se \u00e0quela hora do dia. Pensou nos anos todos que dedicou ao banco. Imaginava-se importante. Riu dos contratempos, dos prazos, daquele dia-a-dia estressante. As gravatas. O rel\u00f3gio de ouro quando completou 30 anos de trabalho. A aposentadoria \u2013 e os trocados que lhe garantiam a vida med\u00edocre, mas livres dos hor\u00e1rios e dos ritos.<\/p>\n<p>Teve a sincera impress\u00e3o que desperdi\u00e7ara o melhor da vida. Mas, nada poderia fazer. Nada. <\/p>\n<p>A n\u00e3o ser, beber.<\/p>\n<p>&#8212; Bebamos, pois&#8230; Sa\u00fade, gente!!!<\/p>\n<p>Alguns sorriram c\u00famplices. Outros at\u00e9 levantaram seus copos. Muitos ficaram indiferentes. Ningu\u00e9m se achegou \u2013 o que ele achou bom. Desta vez, ele pr\u00f3prio espantou-se com a rapidez com que fez o vira-vira.<\/p>\n<p>Apoiou o cotovelo no balc\u00e3o e a cabe\u00e7a na palma da m\u00e3o esquerda. Deixou-se estar por instantes. N\u00e3o era essa a vida que um dia ele pensou levar. Ser\u00e1 que s\u00f3 fez andar em c\u00edrculos at\u00e9 chegar ali \u2013 c\u00edrculos vagos, por nada e para nada.<\/p>\n<p>Filhos crescidos \u2013 dois; respeit\u00e1veis cidad\u00e3os. Netos bonitos, ainda com a vida pela frente. Todos saud\u00e1veis. A mulher a cuidar da casa. Tudo certo. Aparentemente certo. Nos conformes, como dizia um amigo. S\u00f3 aquele n\u00f3 na garganta. Inexplic\u00e1vel n\u00f3 a lhe roubar o ar, a lhe tirar o ch\u00e3o. <\/p>\n<p>De onde veio essa ang\u00fastia? E para onde o levaria?<\/p>\n<p>Ouviu o ronco conhecido do bus\u00e3o, o F\u00e1brica\/Pinheiros, que se aproximava da fat\u00eddica esquina. Ali, onde o Sacom\u00e3 entorta o rabo e o coletivo faz a curva aos trancos e aos sustos. <\/p>\n<p>Se fosse homem com aga mai\u00fasculo entraria no bicho sem olhar o letreiro e ganharia o mundo. Um dia ainda tomaria essa decis\u00e3o \u2013 e ficaria livre de todas as amarras, de todos os compromissos. De toda essa chatice. <\/p>\n<p>Pensou em correr e n\u00e3o deixar escapar o \u00f4nibus e a oportunidade. <\/p>\n<p>Que o qu\u00ea. As quatro cacha\u00e7as e as tr\u00eas cervejas viraram chumbo na corrente sangu\u00ednea. Sentiu uma leseira, uma larga\u00e7\u00e3o. Deitou a cabe\u00e7a no balc\u00e3o e se ajeitou torto mesmo.<\/p>\n<p>&#8212; Vige, o que deu no homem? Dormiu&#8230;<\/p>\n<p>Era o balconista Gil, acostumado \u00e0s bebedeiras de Orlando.<\/p>\n<p>&#8212; Ainda bem que tenho o celular do filho. Qualquer coisa o mo\u00e7o vem busc\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, por ali, j\u00e1 haviam se acostumado \u00e0quela cena. Orlando resfolegava a sono solto. Mas, porque era s\u00e1bado e ainda de manh\u00e3, a turma resolveu maldizer o amigo que, de uns tempo para c\u00e1, virara um p\u00e9 de cana. <\/p>\n<p>&#8212; Desde que a amante o deixou, deu de beber.<\/p>\n<p>&#8212; Me disseram que est\u00e1 fazendo uns exames e&#8230; Doen\u00e7a ruim.<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00eas sabem? O de b\u00eabado n\u00e3o tem dono.<\/p>\n<p>&#8212; Gente, por favor, \u00e9 s\u00f3 um cachaceiro dormindo sobre o balc\u00e3o.<\/p>\n<p>Gastaram o repert\u00f3rio de bobagens. Indiferente, Orlando parecia bem feliz no seu sonhar. <\/p>\n<p>N\u00e3o demorou, por\u00e9m, acordou ao sentir a m\u00e3o de algu\u00e9m pesar sobre o ombro. Abriu os olhos. N\u00e3o entendeu a express\u00e3o de susto nos olhos do filho. Ouviu vozes conhecidas \u2013 os amigos do bar, se \u00e9 que podia chamar aquela turba de amigos? <\/p>\n<p>Havia um clima diferente, percebeu.<\/p>\n<p>&#8212; O que foi?<\/p>\n<p>&#8212; Vou levar o senhor para casa. <\/p>\n<p>Era o filho mais velho com voz de preocupa\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Orlando se aprumou como p\u00f4de. P\u00f4s-se em p\u00e9 amparado pelo bra\u00e7o do filho. Achou que lhe devia uma satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Fique tranq\u00fcilo. Estou bem. De ressaca. Mas, bem.<\/p>\n<p>Riu de si mesmo.<\/p>\n<p>Quer dizer que a bela Bartira, a crian\u00e7a dormindo, o para\u00edso da Ilha do Maraj\u00f3 \u2013 tudo fic\u00e7\u00e3o. Tudo sonho de um ser inconsciente \u2013 e inconseq\u00fcente. <\/p>\n<p>Por quanto tempo dormira? <\/p>\n<p>O sonho. Parecia t\u00e3o real.<\/p>\n<p>&#8212; Vem pra rede mais eu. Vem&#8230;<\/p>\n<p>Gostou de lembrar a voz da bela morena Bartira, que s\u00f3 existiu em seus devaneios.<\/p>\n<p>&#8212; Pai, o senhor precisa parar de beber. Pensamos no pior. Uma moto atropelou um homem perto do ponto de \u00f4nibus. O cara est\u00e1 nas \u00faltimas. Talvez nem ande mais. J\u00e1 imaginou se acontece com voc\u00ea?<\/p>\n<p>Foi a vez de Orlando espantar-se. <\/p>\n<p>O \u00f4nibus, a corrida, a porta aberta a lhe esperar. O baque. O hospital&#8230;<\/p>\n<p>Coincid\u00eancia, pesadelo, premoni\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Balan\u00e7ou a cabe\u00e7a. <\/p>\n<p>Preferiu n\u00e3o contar ao filho \u2013 ali\u00e1s, n\u00e3o contaria a ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>A vida tem seus mist\u00e9rios. <\/p>\n<p>\u00c0quela hora, naquela manh\u00e3 de s\u00e1bado, Orlando perdeu a vontade de desvend\u00e1-los.<\/p>\n<p>O melhor da vida \u00e9 deixar tudo como est\u00e1&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conto como acho que foi&#8230;<\/p>\n<p>Ele entrou naquele bar na esquina das ruas Grenfeeld com Bom Pastor. Cumprimentou os conhecidos com um aceno vago, levantou o polegar no sinal de positivo para o balconista.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-11279","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-parangoles"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11279","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11279"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11279\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13970,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11279\/revisions\/13970"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11279"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11279"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11279"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}