{"id":11287,"date":"2008-03-12T00:00:00","date_gmt":"2008-03-12T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T04:04:01","modified_gmt":"2017-09-14T04:04:01","slug":"de-tempos-em-tempos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/de-tempos-em-tempos\/","title":{"rendered":"De tempos em tempos *"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o sei como lhes dizer,<br \/>\nmas me sinto a rodar<br \/>\nna espiral do tempo.<\/p>\n<p>J\u00e1 sei, j\u00e1 sei o que v\u00e3o dizer.<\/p>\n<p>N\u00e3o despiroquei de vez, n\u00e3o.<\/p>\n<p>S\u00e3o coisas que s\u00f3 aqui<br \/>\npodem acontecer.<\/p>\n<p>Querem ver?<\/p>\n<p>Hoje \u00e9 quase amanh\u00e3<br \/>\ne assim ser\u00e1 quando eu<br \/>\nterminar de postar o texto de hoje<br \/>\nque, na verdade, se apresentar\u00e1<br \/>\ncomo texto de ontem.<\/p>\n<p>Entenderam?<\/p>\n<p>Explico \u2013 e rapidinho, pois<br \/>\nse assim for, e tiver tempo h\u00e1bil,<br \/>\no post de hoje ser\u00e1 o de hoje mesmo,<br \/>\nn\u00e3o o de amanh\u00e3 que, ali\u00e1s,<br \/>\ns\u00f3 escreverei amanh\u00e3<br \/>\nno decorrer do dia&#8230;<\/p>\n<p>Ficou mais confuso?<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, vamos aos detalhes.<\/p>\n<p>Faltam alguns breves minutos<br \/>\npara a meia-noite,<br \/>\nportanto ainda \u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Ok?<\/p>\n<p>Ok.<\/p>\n<p>S\u00f3 que nada escrevi. <\/p>\n<p>A vida me levou de rold\u00e3o.<br \/>\nN\u00e3o tive como postar.<\/p>\n<p>Entre uma aula e outra,<br \/>\num compromisso e outro,<br \/>\nos minutos voaram. <\/p>\n<p>Nem percebi.<\/p>\n<p>N\u00e3o reclamo, n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 da vida e dos amores.<\/p>\n<p>Melhor viver assim do que<br \/>\no t\u00e9dio das horas iguais.<\/p>\n<p>Em casa, com hora e tanto<br \/>\npara a tarefa de postar \u2013 que diga-se<br \/>\ncumpro com prazer e alegria \u2013,<br \/>\no simp\u00e1tico computador<br \/>\nresolveu emba\u00e7ar a minha.<\/p>\n<p>N\u00e3o abriu \u2013 e n\u00e3o abriu.<\/p>\n<p>Reiniciei dezenas de vezes<br \/>\ne nada de nada&#8230;<\/p>\n<p>Recorri, ent\u00e3o, ao simp\u00e1tico Word.<br \/>\nDigitei o texto e estou \u00e0 espera<br \/>\nda boa vontade da m\u00e1quina.<\/p>\n<p>\u00c9 o que agora fa\u00e7o.<\/p>\n<p>Se o considerado me der a honra<br \/>\ne facilitar meu trabalho, ainda<br \/>\nhoje cumpro a minha lida di\u00e1ria.<\/p>\n<p>Se continuar dando \u2018migu\u00e9\u2019,<br \/>\nvou ser obrigado a postar amanh\u00e3.<br \/>\nMas, por uma quest\u00e3o de princ\u00edpios,<br \/>\nvou ao \u2018publicador\u2019 e altero a data<br \/>\ne, tal e qual superman naquele filme,<br \/>\nfa\u00e7o voltar o tempo.<\/p>\n<p>Ele fez a proeza por causa<br \/>\nda mulher amada, lembram?<\/p>\n<p>Eu, no melhor estilo Don Quixote,<br \/>\nque n\u00e3o tem qualquer ilus\u00e3o de<br \/>\nencontrar a sua Dulcin\u00e9ia,<br \/>\nposso muito bem exercer<br \/>\nmeus super poderes<br \/>\nem nome dos meus diletos<br \/>\ncinco ou seis leitores&#8230;<\/p>\n<p>Por que n\u00e3o?<\/p>\n<p>\u00c9 o que farei.<br \/>\nAssim que a net abrir.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito, algu\u00e9m a\u00ed tem horas?<\/p>\n<p>PARTE 2<br \/>\nCom a permiss\u00e3o de todos, quero perseverar por esses pr\u00f3ximos dias na tem\u00e1tica de ontem: o tempo. Esse tal que, n\u00e3o canso de escrever e lembrar, \u201cn\u00e3o p\u00e1ra no porto, n\u00e3o apita na curva, n\u00e3o espera ningu\u00e9m\u201d (versos de Reginaldo Lessa).<\/p>\n<p>Do tempo que vem, do tempo que vai.<br \/>\nDo tempo que o tempo tem.<br \/>\nDe querer o tempo de volta.<br \/>\nOu a volta daqueles tempos. <\/p>\n<p>A neura, muitas vezes, \u00e9 a de sempre:<\/p>\n<p>N\u00e3o matar o tempo.<br \/>\nN\u00e3o desperdi\u00e7\u00e1-lo.<br \/>\nN\u00e3o perd\u00ea-lo. <\/p>\n<p>N\u00e3o v\u00ea-lo esvair-se pelos v\u00e3os dos dedos.<\/p>\n<p>Ou no lind\u00edssimo entender de Caetano que fez a sua Ora\u00e7\u00e3o ao Tempo,<br \/>\n\u201ccompositor dos destinos, tambor de todos os ritmos\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o me recordo a pretexto de qu\u00ea, uma das am\u00e1veis leitoras deixou, certa vez, coment\u00e1rio no blog para que eu escrevesse sobre o tempo e suas implica\u00e7\u00f5es. Se os prezad\u00edssimos tiverem a paci\u00eancia que n\u00e3o tenho, poder\u00e3o ver no \u00edndice de procura que, vira e mexe, estou aqui a tangenciar o tema \u2013 mas enfrent\u00e1-lo de frente, \u00e9 que s\u00e3o elas.<\/p>\n<p>At\u00e9 porque \u201cele (o tempo) sabe passar. Eu n\u00e3o sei.\u201d, como ensinou o poeta Aldir Blanc. Mesmo assim, \u00e9 o que farei a partir de hoje.<\/p>\n<p>Tentarei saldar a d\u00edvida com a leitora.<\/p>\n<p>No m\u00ednimo, no m\u00ednimo, ela (se \u00e9 que permanece por aqui) e voc\u00eas ter\u00e3o algumas hist\u00f3rias curiosas.<\/p>\n<p>I.<\/p>\n<p>A cineasta Izabel Jaguaribe flagrou o dia-a-dia do cantor\/compositor Paulinho da Viola em um requintado document\u00e1rio. Num dado momento das filmagens, Izabel quis saber do artista como era a vida \u201cno seu tempo\u201d. Referia-se obviamente aos anos 60 e 70 quando o sambista despontou com sucesso e a m\u00fasica brasileira vivia um momento riqu\u00edssimo, bem diferente dos dias atuais.<\/p>\n<p>Ao ouvir a indaga\u00e7\u00e3o, Paulinho, que \u00e9 uma figura\u00e7a, arregalou os olhos e tascou:<\/p>\n<p>&#8212; Meu tempo? Meu tempo \u00e9 hoje&#8230;<\/p>\n<p>Resultado:<\/p>\n<p>\u201cMeu Tempo \u00c8 Hoje\u201d virou t\u00edtulo do document\u00e1rio.<\/p>\n<p>Imperd\u00edvel.<\/p>\n<p>A trilha sonora, deliciosa, foi lan\u00e7ada em CD pela Biscoito Fino.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Vou vender como comprei.<\/p>\n<p>Portanto, n\u00e3o posso assinar e dar f\u00e9.<\/p>\n<p>Mas, \u00e9 interessante, ent\u00e3o vou contar.<\/p>\n<p>Um amigo que entrevistou o Benjor me disse que ele tem verdadeiro horror a alus\u00f5es ao passado mais remoto. Quando algu\u00e9m lhe mostra um daqueles vinis antigos e pede para que autografe, ele diz que n\u00e3o d\u00e1 para assinar porque aquele cara da foto n\u00e3o \u00e9 ele \u2013 \u00e9 um tal de Jorge Ben. <\/p>\n<p>Brincadeiras \u00e0 parte, acho que Jorge Du\u00edlio Lima de Menezes \u2013 o verdadeiro nome deste carioca de Rio Cumprido, j\u00e1 entrado e vivido nos seis ponto qualquer muita coisa \u2013 tem l\u00e1 sua raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Nada mais constrangedor do que sentir que as pessoas lhe empurram e confinam a determinada \u00e9poca. <\/p>\n<p>Falo at\u00e9 por experi\u00eancia pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>D\u00e1 a sensa\u00e7\u00e3o que voc\u00ea est\u00e1 fazendo hora extra neste mundo.<\/p>\n<p>PARTE 3<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Outra do Nasci.<\/p>\n<p>O Bola era um cara legal, mas sempre foi s\u00f3. <\/p>\n<p>&quot;Avulso&quot;, como o Nasci o chamava. <\/p>\n<p>At\u00e9 a\u00ed nada demais. Cada um, cada um. <\/p>\n<p>O \u00fanico problema \u00e9 que ele andava ranzinza. <\/p>\n<p>Colocava defeito em todas as mulheres que o pessoal da Reda\u00e7\u00e3o arranjava. <\/p>\n<p>Era implac\u00e1vel em seus julgamentos. <\/p>\n<p>Batia de baranga, tribuf\u00fa e por a\u00ed ia. <\/p>\n<p>N\u00e3o escapava uma.<\/p>\n<p>Um dia o Nasci se invocou e deu troco.<\/p>\n<p>&#8212; \u00d4 meu querido, voc\u00ea manda bem em todos os conceitos sobre mulher. S\u00f3 que trabalha com a gente h\u00e1 tanto tempo e nunca soubemos de nenhum romance para os seus lados. Me diz uma coisa. Perdoe a intromiss\u00e3o. Voc\u00ea \u00e9 discreto mesmo ou est\u00e1 a seco todo esses anos?<\/p>\n<p>Assim na lata, diante de todos, o amigo perdeu o ch\u00e3o. <\/p>\n<p>N\u00e3o soube o que responder. <\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o Mestre dos Mestres prosseguiu.<\/p>\n<p>&#8212; Ent\u00e3o cara, se voc\u00ea gosta da fruta \u00e9 melhor come\u00e7ar a se interessar pelas mo\u00e7as normais. Ir treinando, sabe? Vai que a Brooke Shields, que voc\u00ea tanto ama, vem ao Brasil e lhe encontra e diz: quero voc\u00ea! E a\u00ed? Vai ficar com essa express\u00e3o de abadejo em geladeira de supermercado? J\u00e1 imaginou se ela vier pra cima. Voc\u00ea n\u00e3o vai saber nem por onde come\u00e7ar.<\/p>\n<p>Em tr\u00eas meses, o Bola arranjou uma namorada, noivou e casou.<\/p>\n<p>Radicalizou, eu diria. Mas, n\u00e3o perdeu mais tempo.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Sobre a relatividade do tempo, tamb\u00e9m vale refletir.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m, desesperado, bate sofregamente na porta do banheiro que est\u00e1 ocupado.<\/p>\n<p>De l\u00e1 de dentro, ouve a voz:<\/p>\n<p>&#8212; Ei, meu, calma. Dois minutos&#8230;<\/p>\n<p>Um fala de instantes, o outro imagina a eternidade. <\/p>\n<p>PARTE 4<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Pois h\u00e1 que se viver enquanto \u00e9 tempo de&#8230;<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>Um relato tocante sobre o tempo que n\u00e3o se recupera.<\/p>\n<p>Ela:<\/p>\n<p>Da \u00faltima vez que eu o vi, pude lhe dizer o quanto estava bonito. Palet\u00f3 de linho branco, desestruturado, sobre uma camiseta com listas horizontais, finas, em azul e branco. Cabelos em desalinho, raspados na nuca e o mesmo olhar de menino assustado que tanto me encantou desde que eu o conheci. <\/p>\n<p>Ele ficou feliz &#8211; e algo sem gra\u00e7a.<\/p>\n<p>Era um homem t\u00edmido e sens\u00edvel.<\/p>\n<p>Fui visit\u00e1-lo de surpresa num fim de tarde em seu est\u00fadio de trabalho. Amigos comuns me alertaram que ele n\u00e3o andava nada bem. <\/p>\n<p>Me recebeu como de habito, elegante e af\u00e1vel, apesar do longo tempo em que n\u00e3o nos v\u00edamos. Em segundos, recuperamos a antiga cumplicidade. <\/p>\n<p>Quando percebemos j\u00e1 era noite. <\/p>\n<p>Pediu que eu jantasse com ele. N\u00e3o houve porqu\u00ea recusar.<\/p>\n<p>Tomamos sopa juntos &#8211; ele n\u00e3o podia comer nada pesado.<\/p>\n<p>E ele at\u00e9 me fez uma surpresa.<\/p>\n<p>Havia comprado bombons de damasco que eu tanto gosto. Trouxe em uma bandeja de cristal, alinhados em tr\u00eas fileiras. Ao me oferecer, tinha um sorriso sedutor e travesso. <\/p>\n<p>Perguntei qual a raz\u00e3o daquelas del\u00edcias ali, se n\u00e3o podia comer doces. Era muita tenta\u00e7\u00e3o, como ele resistia?<\/p>\n<p>Precisou de alguns segundos para responder:<\/p>\n<p>&#8212; F\u00e1cil. Os bombons e eu esper\u00e1vamos voc\u00ea.<\/p>\n<p>Vivi uma noite rara. De encanto e delicadezas. <\/p>\n<p>Colocamos a conversa em dia e at\u00e9 falamos confiantes do futuro que, esquecemos naquela fantasia, para ele talvez n\u00e3o existisse. <\/p>\n<p>No caminho de volta para casa, enquanto dirigia meu carro, me veio o sobressalto: a sensa\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o lhe restava muito tempo.<\/p>\n<p>Chorei em sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Passaram-se alguns dias e ele me ligou. <\/p>\n<p>Conversamos sobre os planos que fizemos.<\/p>\n<p>Em seguida, me fez um convite.<\/p>\n<p>Queria que desenvolv\u00eassemos aqueles projetos juntos.<\/p>\n<p>Insistiu. <\/p>\n<p>Percebi uma certa ang\u00fastia naquele apelo.<\/p>\n<p>Estava com minha agenda profissional lotada de afazeres. N\u00e3o havia como escapar desses compromissos. Tentei lhe dizer. Mas, no fundo, eu sabia.<\/p>\n<p>Era uma estrat\u00e9gia. <\/p>\n<p>Ele tinha clareza de tudo. <\/p>\n<p>Mesmo assim, apostou viver cada segundo. <\/p>\n<p>Um gesto de coragem. <\/p>\n<p>Queria algu\u00e9m ao lado dele, com dedica\u00e7\u00e3o integral. Que ficasse o tempo inteiro por perto. Eu&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o pude aceitar.<\/p>\n<p>Na verdade, n\u00e3o tive for\u00e7as para aceitar. <\/p>\n<p>Fiquei com medo.<\/p>\n<p>Devo confessar.<br \/>\nMedo de v\u00ea-lo morrer,<\/p>\n<p>Foi ego\u00edsmo, talvez.<\/p>\n<p>Talvez n\u00e3o estivesse \u00e0 altura da miss\u00e3o.<\/p>\n<p>Sempre fui muito insegura. <\/p>\n<p>Hoje me arrependo.<\/p>\n<p>O que me custaria?<\/p>\n<p>Por vezes, passamos tanto tempo \u00e0 toa. <\/p>\n<p>Em outras, nos dedicamos a quem n\u00e3o merece.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o?<\/p>\n<p>Repito: o que me custaria?<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 como voltar o tempo.<\/p>\n<p>Que tristeza.<\/p>\n<p>\u00c0 noite, tem vez que acordo com a sensa\u00e7\u00e3o de nunca cheguei a lhe dizer, com todas as palavras que ele merecia ouvir, o quanto eu lhe amava e amo.<\/p>\n<p>Mesmo assim, no sonho\/del\u00edrio, ele sorri compreensivo e, sei l\u00e1 o motivo, h\u00e1 um perfume no ar. Um perfume bom de chocolate e damasco&#8230; <\/p>\n<p>PARTE 5<br \/>\nVIII.<\/p>\n<p>A Menina dos Cabelos Vermelhos me escreve.<\/p>\n<p>Est\u00e1 brava com ela mesma. <\/p>\n<p>Diz que n\u00e3o se perdoa pelo que lhe aconteceu.<\/p>\n<p>Ela acordou, dia desses, com uma baita saudade do ex.<\/p>\n<p>Acho que ela nem gostaria que eu relatasse isso aqui.<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho como escapar.<\/p>\n<p>Sabem o porqu\u00ea?<\/p>\n<p>Porque foi do email dela que tirei a id\u00e9ia desta s\u00e9rie. <\/p>\n<p>Lembrei de uma internauta que pediu para que eu escrevesse sobre o tempo.<\/p>\n<p>Vejam no que deu.<\/p>\n<p>J\u00e1 estamos no quinto post \u2013 e eu nada disse a Isa, a Menina dos Cabelos Vermelhos ou Levemente Avermelhados, a depender de seus humores\/amores.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, creio, j\u00e1 \u00e9 tempo de dizer.<\/p>\n<p>O que sente, Menina, n\u00e3o \u00e9 exatamente \u2018saudades\u2019.<\/p>\n<p>Ou \u00e9?<\/p>\n<p>Nunca sei.<\/p>\n<p>Enfim&#8230;<\/p>\n<p>Eu chamaria de nostalgia.<\/p>\n<p>Ou seja, a lembran\u00e7a boa de algo que voc\u00ea viveu num tempo preciso. <\/p>\n<p>Com come\u00e7o, meio e fim.<\/p>\n<p>A vida \u00e9 assim.<\/p>\n<p>Bom lembrar. <\/p>\n<p>Bom ter vivido, pois a fez melhor, mais humana.<\/p>\n<p>Iluminou sua exist\u00eancia e a preparou para novos v\u00f4os.<\/p>\n<p>Agora aqueles dias \u2013 \u00e9 bom que tenha clareza \u2013 voc\u00ea nunca mais viver\u00e1. <\/p>\n<p>Simples. Est\u00e1 na can\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cNada do que foi ser\u00e1 do jeito que j\u00e1 foi um dia\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 assim.<\/p>\n<p>Poder\u00e1 &#8212; e certamente h\u00e1 de \u2013 viver outros sonhos de amor.<\/p>\n<p>Mais intensos, mais envolventes, mais tudo.<\/p>\n<p>Aquele, por\u00e9m, nunca mais&#8230;<\/p>\n<p>Lembro de um amigo que vivia \u00e0s turras com a namorada.<\/p>\n<p>Amavam-se demais. Brigavam outro tanto.<\/p>\n<p>Por tudo e por nada.<\/p>\n<p>Iam e voltavam. <\/p>\n<p>Um dia, ele chegava transtornado. <\/p>\n<p>Meia hora e um telefonema depois, estava feliz.<\/p>\n<p>Antes do fim do expediente e ap\u00f3s sucess\u00e3o de liga\u00e7\u00f5es, terminavam e voltavam v\u00e1rias vezes.<\/p>\n<p>Os motivos eram sempre os mesmos. <\/p>\n<p>Inexplic\u00e1veis \u00e0 luz do bom-senso de quem estava do lado de fora.<\/p>\n<p>Para eles, por\u00e9m, bastava um deles para que o mundo ru\u00edsse. <\/p>\n<p>Certa tarde, o Nasci falou ao desorientado rapaz que armasse uma estrat\u00e9gia. <\/p>\n<p>\u00c0 noite, convidasse a mo\u00e7a para ir at\u00e9 sua casa e a\u00ed fossem \u00e0s \u00faltimas conseq\u00fc\u00eancias na discuss\u00e3o.<\/p>\n<p>Um detalhe. <\/p>\n<p>Antes, ele deveria ligar um gravador e registrar tudo, tudo o que dissessem&#8230;<\/p>\n<p>Levasse o tempo que levasse.<\/p>\n<p>Mas, era importante ir da primeira \u00e0 \u00faltima quest\u00e3o pol\u00eamica \u2013 e, se poss\u00edvel, respeitar a ordem cronol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Cada um dos contendores \u2013 porque j\u00e1 os entend\u00edamos assim, n\u00e3o eram namorados ou coisa que o valha; eram contendores \u2013 deveria ficar com uma c\u00f3pia da fita gravada. <\/p>\n<p>E ouvi-la \u00e0 exaust\u00e3o.<\/p>\n<p>Ouvi-la, ouvi-la, ouvi-la&#8230;<\/p>\n<p>S\u00f3 a\u00ed formatar uma parecer. Se deveriam continuar juntos ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>O motivo era bem simples para n\u00f3s incautos ouvintes dos telefonemas.<\/p>\n<p>A cada liga\u00e7\u00e3o, diminu\u00eda o tempo das promessas e das declara\u00e7\u00f5es apaixonadas. Em compensa\u00e7\u00e3o, aumentava substancialmente a carga hor\u00e1ria dos xingamentos e das acusa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>E o Nasci fechou a proposta no melhor estilo.<\/p>\n<p>&#8212; Se insistirem na teimosia de continuar juntos, ao menos voc\u00eas brigam s\u00f3 a briga do dia. Na hora que um de voc\u00eas, come\u00e7ar com as discuss\u00f5es passadas \u00e9 s\u00f3 ligar o gravador porque o bate-boca de voc\u00eas \u00e9 sempre igual. No m\u00ednimo, economizam a conta do telefone e a nossa paci\u00eancia. <\/p>\n<p>PARTE 6<\/p>\n<p>IX.<\/p>\n<p>&quot;O tempo \u00e9 o ponto de vista do rel\u00f3gio.&quot; <\/p>\n<p>(M\u00e1rio Quintana)<\/p>\n<p>X.<\/p>\n<p>O tempo que p\u00e1ra&#8230; <\/p>\n<p>&#8230; um segundo ap\u00f3s<br \/>\no chute a gol. <\/p>\n<p>Quando o Sr. Imponder\u00e1vel<br \/>\nde Almeida decide a trajet\u00f3ria<br \/>\nda bola, a defesa do goleiro<br \/>\nou, explos\u00e3o maior, o gol.<\/p>\n<p>XI.<\/p>\n<p>O tempo que p\u00e1ra&#8230;<\/p>\n<p>&#8230; no exato instante,<br \/>\n&#8230; no preciso momento,<br \/>\n&#8230; no minuto final,<br \/>\n&#8230; na hora H,<br \/>\n&#8230; no dia D,<br \/>\n&#8230; entre o raio e o trov\u00e3o,<br \/>\n&#8230; quando o sol bate e se inclina.<\/p>\n<p>XII.<\/p>\n<p>O tempo que p\u00e1ra&#8230;<\/p>\n<p>&#8230; no apagar das luzes,<br \/>\n&#8230; na boca da noite,<br \/>\n&#8230; no romper da manh\u00e3<br \/>\ncom gosto de promessa v\u00e3.<\/p>\n<p>XIII.<\/p>\n<p>O tempo que p\u00e1ra&#8230; <\/p>\n<p>um segundo antes&#8230; <\/p>\n<p>&#8230; do cantor soltar a voz,<br \/>\n&#8230; do ator soltar sua fala,<br \/>\n&#8230; da plat\u00e9ia irromper em aplausos,<br \/>\n&#8230; de voltar ao palco<br \/>\n&#8230; e agradecer em cena aberta.<\/p>\n<p>Ser protagonista na arte e na vida.<br \/>\nMas, se quiser fazer figura\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8230; tamb\u00e9m vale.<\/p>\n<p>XIV.<\/p>\n<p>O tempo que p\u00e1ra&#8230;<\/p>\n<p>&#8230; no precioso instante<br \/>\nem que o amor acontece.<\/p>\n<p>&#8230; e se faz a luz.<br \/>\n&#8230; e os olhos brilham.<br \/>\n&#8230; e o cora\u00e7\u00e3o salta.<br \/>\n&#8230; as m\u00e3os se tocam.<\/p>\n<p>O tempo que p\u00e1ra&#8230;<\/p>\n<p>&#8230; um segundo antes do<br \/>\nprimeiro e inesquec\u00edvel beijo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8230; se faz o tempo de encantar-se.<\/p>\n<p>XV.<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea \u00e9 tudo que eu sempre quis. Para sempre.<\/p>\n<p>&#8212; O qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea \u00e9 tudo. Que eu sempre quis para sempre.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o entendi. Diz outra vez.<\/p>\n<p>&#8212; Para sempre. Voc\u00ea \u00e9 tudo que eu sempre quis.<\/p>\n<p>* Di\u00e1logo capaz de fazer o tempo<br \/>\ncorar de inveja, morrer de vontade. <\/p>\n<p>PARTE 7<\/p>\n<p>XVI.<\/p>\n<p>Ontem, o nosso site\/blog \u201cbombou\u201d no dizer da garotada. Bateu em 150 visitas di\u00e1rias. Preciso explicar que n\u00e3o sei bem o que \u00e9 isso. Se &#8216;visita&#8217; \u00e9 diferente de acesso. Ou s\u00e3o uma coisa s\u00f3. Em todo caso, ao que me informaram, &quot;\u00e9 uma boa audi\u00eancia&quot; para um blog solto no web espa\u00e7o que, de resto, n\u00e3o est\u00e1 sequer pendurado num grande portal. <\/p>\n<p>Ah! \u00c9 o recorde do ano.<\/p>\n<p>Claro, fiquei bastante feliz.<\/p>\n<p>Espero que voc\u00eas tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>XVII.<\/p>\n<p>E pensar que toda a s\u00e9rie &quot;De Tempos em Tempos&quot;, respons\u00e1vel por esses bons \u00edndices, s\u00f3 come\u00e7ou porque, dia desses, fiquei sem tempo para escrever. Cheguei tarde em casa &#8211; onze e tanto &#8211; e n\u00e3o conseguia acessar a net.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o tem rem\u00e9dio remediado est\u00e1. Para n\u00e3o perder tempo, fui adiantando o texto no velho e bom word \u00e0 espera da vontade do computador. Enquanto escrevia, pensava em qual data deveria postar: quarta ou na quinta?<\/p>\n<p>Ou seja, me vi diante do inexor\u00e1vel Senhor dos Destinos.<\/p>\n<p>Tempo, tempo, tempo, tempo&#8230;<\/p>\n<p>Mas, esta hist\u00f3ria j\u00e1 lhes contei em Fiz Voltar o Tempo, em 05.03.08 <\/p>\n<p>XVIII.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, n\u00e3o me sa\u00edam da mente o significado e a magia da palavra.<\/p>\n<p>\u00d3bvio que come\u00e7aram a jorrar hist\u00f3rias, que aqui contei. <\/p>\n<p>Uma ap\u00f3s outra.<\/p>\n<p>Apareceram naturalmente como esta que narro a seguir:<\/p>\n<p>XIX. <\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que, ao estrondo do abrir de portas do velho elevador, todos puderam flagrar o chefete do Administrativo e a secret\u00e1ria, agarrad\u00edssimos, no maior dos beijos.<\/p>\n<p>Diante de tamanho espanto, o respons\u00e1vel pelas p\u00e1ginas de Ci\u00eancia n\u00e3o se conteve.<\/p>\n<p>&#8212; A pauta \u00e9 minha.<\/p>\n<p>Se o rapaz do elevador fosse casado, quem sabe a cena resultasse numa boa manchete policial.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o era, entendemos as raz\u00f5es do jornalista cient\u00edfico.<\/p>\n<p>Mesmo assim, ele fez quest\u00e3o de explicar:<\/p>\n<p>&#8212; Que fen\u00f4meno! Quem disse que dois corpos n\u00e3o s\u00e3o capazes de ocupar um s\u00f3 espa\u00e7o ao mesmo tempo? <\/p>\n<p>XX.<\/p>\n<p>Assim, de hist\u00f3ria em hist\u00f3ria, chegamos \u2013 eu e voc\u00eas \u2013 \u00e0 s\u00e9tima coluna.<\/p>\n<p>Ter\u00edamos assuntos para outras tantas mais.<\/p>\n<p>Por que?<\/p>\n<p>Ora como entender o hoje sem o ontem?<\/p>\n<p>Como vislumbrar o amanh\u00e3 sem a vida que hoje se vive?<\/p>\n<p>Em todo caso, n\u00e3o vamos apressar o rio.<\/p>\n<p>Deixemos, pois, a bela tem\u00e1tica ao balan\u00e7o de \u00e1guas futuras.<\/p>\n<p>E fiquemos por aqui, com versos de Chico \u00e0 espera de novos tempos e suspiros. <\/p>\n<p>&quot;N\u00e3o se afobe, n\u00e3o, que nada \u00e9 pr\u00e1 j\u00e1&#8230;&quot;<\/p>\n<p>* POSF\u00c1CIO:<\/p>\n<p>Fa\u00e7o com esta s\u00e9rie uma rever\u00eancia ao Tempo,<br \/>\njustamente na semana em que completo<br \/>\n35 anos de carreira e agrade\u00e7o a voc\u00eas<br \/>\na companhia e o carinho.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o sei como lhes dizer,<br \/>\nmas me sinto a rodar<br \/>\nna espiral do tempo.<\/p>\n<p>J\u00e1 sei, j\u00e1 sei o que v\u00e3o dizer.<\/p>\n<p>N\u00e3o despiroquei de vez,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-11287","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-parangoles"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11287","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11287"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11287\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13964,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11287\/revisions\/13964"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11287"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11287"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11287"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}