{"id":11289,"date":"2009-04-09T00:00:00","date_gmt":"2009-04-09T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:44:39","modified_gmt":"2017-09-15T19:44:39","slug":"a-voz-da-experiencia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-voz-da-experiencia\/","title":{"rendered":"A voz da experi\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>Trabalhar na quinta-feira santa nunca foi o forte de Nicola, o taxista e psic\u00f3logo, que prepara tese de doutorado sob o tema Mulheres Que amam Demais. Crian\u00e7a ainda, as escolas n\u00e3o tinham aulas nesse dia e havia um tom triste e cerimonioso pelas ruas da pacata S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Por isso, ele n\u00e3o abriu a agenda do consult\u00f3rio para hoje. <\/p>\n<p>Mas, \u00e0 ultima hora, desistiu de viajar. <\/p>\n<p>Quer dizer, numas&#8230;<\/p>\n<p>Mal embicou o imponente Santan\u00e3o branco ali nas imedia\u00e7\u00f5es da USP para pegar a Marginal que o traria at\u00e9 a Imigrantes, via avenida dos Bandeirantes, e uma mo\u00e7a fez sinal para o t\u00e1xi parar.<\/p>\n<p>For\u00e7a do h\u00e1bito. Nicola parou.<\/p>\n<p>Algo lhe dizia que l\u00e1 vinha hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>E veio, mesmo.<\/p>\n<p>&#8212; Bom dia.<\/p>\n<p>&#8212; Pra onde vamos?<\/p>\n<p>&#8212; Engra\u00e7ado. Passei os \u00faltimos 25 anos respondendo a mesma pergunta. Quando respondo, Vila Zelina, ou\u00e7o: &quot;Nossa! Por que voc\u00ea mora no fim do mundo. Atravessa de leste a oeste para chegar ao trabalho. Perde tr\u00eas horas di\u00e1rias no tr\u00e2nsito&#8230;&quot;A\u00ed eu respondo: &quot;\u00c9 por causa da torre da minha igreja. Quando vou subindo a avenida Zelina e vejo aquela torre, sinto uma serenidade que n\u00e3o consigo explicar. Sabe, eu n\u00e3o sou cat\u00f3lica, mas quando vejo a torre da igreja daminha inf\u00e2ncia, sinto que tenho um lugar no mundo. E n\u00e3o adianta explicar que ningu\u00e9m entende.  \u00c9 como se eu conseguisse voltar para casa. Olha, eu j\u00e1 tentei morar na Vila Madalena, em Higien\u00f3polis, agora, em Moema&#8230; Mas nunca, jamais, abdiquei da casa onde nasci, do bairro dos lituanos, russos, onde a modernidade parece n\u00e3o conseguir entrar na rotina. A padaria S\u00e3o Jos\u00e9 que h\u00e1 mais de meio s\u00e9culo faz a mesma receita de p\u00e3o preto. A vendinha que conserva os mesmos arm\u00e1rios de nogueira com porta de vidro. O balc\u00e3o onde os aposentados se encostam para apreciar cerveja com picles de cenoura, repolho e pepino&#8230; As lojinhas que vendem tudo a prazo sem pedir documentos. A feira com o mesmo batateiro, o mesmo verdureiro&#8230;Enfim, uma riqueza sem igual. Quando estou triste, vou correndo para o banco da pra\u00e7a e fico contemplando a torre da igreja. O senhor me entende, n\u00e3o?<\/p>\n<p>Nicola n\u00e3o \u00e9 de muita conversa \u2013 e todo aquele papo n\u00e3o contribuiu em nada com a sua tese de doutorado. Mas, em sil\u00eancio, balan\u00e7ou a cabe\u00e7a afirmativamente. Depois de alguns segundos, falou a voz da experi\u00eancia:<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 uma bela hist\u00f3ria para uma quinta-feira santa&#8230;<\/p>\n<p>FOTO no blog: J\u00f4 Rabelo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Trabalhar na quinta-feira santa nunca foi o forte de Nicola, o taxista e psic\u00f3logo, que prepara tese de doutorado sob o tema Mulheres Que amam Demais. 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