{"id":11316,"date":"2009-05-14T00:00:00","date_gmt":"2009-05-14T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:44:36","modified_gmt":"2017-09-15T19:44:36","slug":"simonal-3","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/simonal-3\/","title":{"rendered":"Simonal (3)"},"content":{"rendered":"<p>Naqueles anos de chumbo, o medo e a coragem andavam lado a lado nas reda\u00e7\u00f5es, nas ruas e pra\u00e7as. Na vida dos brasileiros.<\/p>\n<p> A censura ditava o que se podia ou n\u00e3o escrever \u2013 o que se podia ou n\u00e3o pensar. Havia uma inexor\u00e1vel divis\u00e3o de lados, fosse qual fosse a ideologia. <\/p>\n<p>Pensava-se: <\/p>\n<p>Quem n\u00e3o est\u00e1 comigo est\u00e1 contra mim.<\/p>\n<p>Termos como maioria silenciosa, alienados \u00fateis, burguesia, tinham n\u00edtida conota\u00e7\u00e3o pejorativa. Eram todos massa de manobras para que os ditadores se preservassem no poder.<\/p>\n<p>At\u00e9 a conquista da Copa de 70, para muitos, entrou no rol das coisas desprez\u00edveis. Futebol como sin\u00f4nimo de \u00f3pio do povo.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>A arte, por sua vez, precisava engajar-se nessa luta.<\/p>\n<p>S\u00f3 assim era poss\u00edvel se entender como arte.<\/p>\n<p>Cantar a alegria \u2013 mesmo depois do toque\/can\u00e7\u00e3o de Caetano \u2013 s\u00f3 para os incultos, e inconseq\u00fcentes.<\/p>\n<p>Outro termo da moda: as temidas patrulhas ideol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>At\u00e9 os tropicalistas foram alvos delas&#8230; <\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Explique-se. <\/p>\n<p>Era natural que fosse assim.<\/p>\n<p>Grupos de direita andavam, de estandartes e bandeiras, pelas em defesa da tradi\u00e7\u00e3o, fam\u00edlia e propriedade. E viam inimigos vermelhos em que n\u00e3o se dispunha subscrever seus enigm\u00e1ticos abaixo-assinados.<\/p>\n<p>Havia a tortura, as mortes e uma Na\u00e7\u00e3o a se reconstruir.<\/p>\n<p>IV,<\/p>\n<p>Foi nesse contexto, conturbado e em ebuli\u00e7\u00e3o, que surgiu a den\u00fancia de que dois tiras, a mando de um certo cantor, haviam levado um ex-empregado do pr\u00f3prio ao Dops, para lhe aplicar um corretivo. <\/p>\n<p>Motivo: o homem comum entrara com uma causa trabalhista contra o patr\u00e3o poderoso, que apelara para viol\u00eancia.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>A cena dizia por si.<\/p>\n<p>Foi juntar l\u00e9 com cr\u00e9. <\/p>\n<p>O rastro de destrui\u00e7\u00e3o da not\u00edcia foi incontrol\u00e1vel e devastador. Nenhum jornalista se prop\u00f4s a apurar a informa\u00e7\u00e3o com isen\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>(Podia sobrar para ele&#8230;)<\/p>\n<p>Deixou-se o dito pelo que nunca se comprovou.<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Simonal, o patr\u00e3o e \u00eddolo da MPB, o Rei do Suingue, ganhou a pecha de dedo-duro dos milicos. O cara apostava na alegria e cantava o \u201cPa\u00eds Tropical aben\u00e7oado por Deus e bonito por natureza\u201d. Fazia galeras enormes cantar \u201cmeu lim\u00e3o, meu limoeiro, meu p\u00e9 de jacarand\u00e1\u201d.<\/p>\n<p>Decidamente, aquele n\u00e3o era um tempo de zazueiras. <\/p>\n<p>E assim se encerrou melancolicamente uma de nossas mais brilhantes carreiras musicais.<\/p>\n<p>*<br \/>\nAmanh\u00e3 continua&#8230;<\/p>\n<p>*<br \/>\nAmanh\u00e3, nos cinemas: SIMONAL. Ningu\u00e9m sabe o duro que dei. Um filme de Cl\u00e1udio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Naqueles anos de chumbo, o medo e a coragem andavam lado a lado nas reda\u00e7\u00f5es, nas ruas e pra\u00e7as. 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