{"id":11327,"date":"2009-05-26T00:00:00","date_gmt":"2009-05-26T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:44:34","modified_gmt":"2017-09-15T19:44:34","slug":"menino-de-chapeu","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/menino-de-chapeu\/","title":{"rendered":"Menino de chap\u00e9u"},"content":{"rendered":"<p>Este n\u00e3o \u00e9 um post politicamente correto.<\/p>\n<p>Mas, convenhamos, no tempo em que os fatos ocorreram, a express\u00e3o sequer era cogitada \u2013 e as pessoas, eu diria, primavam pelo senso de fraternidade.<\/p>\n<p>S\u00f3 que n\u00e3o perdiam a chance de uma boa piada.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Foi nos idos dos anos 50.<\/p>\n<p>Os homens vestiam ternos bem cortados, de cores s\u00f3brias. Os chap\u00e9us completavam o rigor dos trajes. As crian\u00e7as andavam de cal\u00e7as curtas e diziam \u201csim, senhor\u201d ou \u201cn\u00e3o senhor\u201d aos adultos.<\/p>\n<p>Tinha l\u00e1 meus cinco ou seis anos \u2013 e dois sonhos na vida.<\/p>\n<p>Crescer o mais r\u00e1pido poss\u00edvel para usar cal\u00e7as cmpridas e chap\u00e9u igual ao meu pai.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, era praxe nas fam\u00edlias italianas que os garotos s\u00f3 fizessem esse rito de passagem (ou seja, passassem a usar cal\u00e7as compridas) ap\u00f3s os doze anos. Um tempo amplo demais para aquietar meus anseios infantis.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>O v\u00f4 Carlito era chapeleiro do Ramenzzoni, uma das renomadas marcas da \u00e9poca. O irm\u00e3o do pai, o tio Orlando, era alfaiate. Na verdade, toda a fam\u00edlia era especialista no of\u00edcio de vestir.<\/p>\n<p>Voc\u00eas j\u00e1 perceberam a estrat\u00e9gia&#8230;<\/p>\n<p>Apelei para o cora\u00e7\u00e3o generoso e a alma napolitana do v\u00f4 \u2013 e, semanas depois, ele me presenteou com uma caixa redonda, onde estavam impressas as imagens de cavaleiros em uma competi\u00e7\u00e3o de hipismo. Nunca vou esquecer. Dentro dela, meu objeto de desejo: um mini-chap\u00e9u igualzinho aos dos adultos.<\/p>\n<p>Fiquei feliz que s\u00f3.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>A conquista das cal\u00e7as compridas n\u00e3o foi t\u00e3o simples assim.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m me dava ouvidos.<\/p>\n<p>Nem o tio, nem a m\u00e3e (que j\u00e1 n\u00e3o ag\u00fcentava as minhas lam\u00farias), nem o pai (que ainda me devia um uniforme do Palmeiras).<\/p>\n<p>Dizia que sentia frio nas pernas mesmo no ver\u00e3o. Ou que machucara o joelho jogando futebol e precisava proteger o corte. Inventava mil e uma. Nem assim&#8230;<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>N\u00e3o lembro bem, mas desconfio que foi minha irm\u00e3 Rosa a autora da proeza.<\/p>\n<p>Ela era garota ainda \u2013 e aprendiz de costureira.<\/p>\n<p>Uma bela tarde, ganhei a tal cal\u00e7a comprida, e n\u00e3o tive d\u00favidas.<\/p>\n<p>Vesti traje completo (meias e sapatos pretos, cal\u00e7a comprida, palet\u00f3 verde escuro, camisa, gravata e o indefect\u00edvel chap\u00e9u Ramenzzoni, feito exclusivamente para mim) e esperei o pai chegar para acompanh\u00e1-lo ao Bar Ast\u00f3ria, na esquina da rua Lavap\u00e9s com a Justo Azambuja.<\/p>\n<p>L\u00e1 se reuniam os italianos e descendentes para falar de futebol (\u201cPalestra em rede\u201d) e jogar Patr\u00e3o e Soto. Todos adultos \u2013 a \u00fanica crian\u00e7a era eu, o Aldinho, como eles me chamavam, que ficava correndo entre as mesas e olho grande nas balas Toffes e no Guaran\u00e1 Ca\u00e7ulinha.<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Voc\u00eas devem imaginar&#8230;<\/p>\n<p>Cheguei todo prosa ao Ast\u00f3ria. Enfim, era um deles&#8230;<\/p>\n<p>Quem sabe n\u00e3o me chamariam para participar das acirradas disputas por um copo de cerveja? Claro que trocaria a minha parte por goladas de Ca\u00e7ulinhas&#8230;<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>Mal apareci na porta, percebi que me equivocara nos sonhos, e na roupa.<\/p>\n<p>Seu Vicente, o Vich\u00e9, n\u00e3o perdoou:<\/p>\n<p>&#8212; Caspite, Aldo, teu filho t\u00e1 parecendo um an\u00e3ozinho!!!<\/p>\n<p>* FOTO no Blog: J\u00f4 Rabelo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este n\u00e3o \u00e9 um post politicamente correto.<\/p>\n<p>Mas, convenhamos, no tempo em que os fatos ocorreram, a express\u00e3o sequer era cogitada \u2013 e as pessoas, eu diria, primavam pelo senso de fraternidade.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-11327","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11327","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11327"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11327\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16630,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11327\/revisions\/16630"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11327"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11327"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11327"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}