{"id":11347,"date":"2009-06-17T00:00:00","date_gmt":"2009-06-17T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:41:00","modified_gmt":"2017-09-15T19:41:00","slug":"jornalismo-uma-profissao-diante-do-supremo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/jornalismo-uma-profissao-diante-do-supremo\/","title":{"rendered":"Jornalismo: uma profiss\u00e3o diante do Supremo"},"content":{"rendered":"<p>Por Ayrton Maciel*<\/p>\n<p>Jornalismo n\u00e3o \u00e9 arte. N\u00e3o \u00e9 arte pl\u00e1stica, n\u00e3o \u00e9 arte c\u00eanica, n\u00e3o \u00e9 literatura, n\u00e3o \u00e9 cordel, n\u00e3o \u00e9 o artesanato da palavra. Jornalismo \u00e9 s\u00f3 uma profiss\u00e3o, um of\u00edcio com suas t\u00e9cnicas de apura\u00e7\u00e3o, reda\u00e7\u00e3o e apresenta\u00e7\u00e3o, que tem seu espa\u00e7o de cria\u00e7\u00e3o, mas, que &#8211; diferentemente da arte &#8211; n\u00e3o tem qualquer tra\u00e7o de fic\u00e7\u00e3o, nem \u00e9 ilimitado no imagin\u00e1rio do jornalista. Uma atividade que, infelicitadamente, ganhou um glamour &#8211; influ\u00eancia do grande desenvolvimento tecnol\u00f3gico que nos tempos modernos deu \u00e1urea \u00e0 informa\u00e7\u00e3o &#8211; e uma dimens\u00e3o muito al\u00e9m do que ela em si mesmo deveria merecer. Pensem s\u00f3: ser tachada de o quarto poder j\u00e1 \u00e9 algo que transcende \u00e0s rela\u00e7\u00f5es equilibradas em sociedade. N\u00e3o est\u00e1 institu\u00eddo que a imprensa \u00e9 poder, mas ela atua como tal. Povoa o imagin\u00e1rio popular.<\/p>\n<p>Caberia \u00e0 imprensa apenas informar e formar as pessoas para que pudessem ter o esp\u00edrito cr\u00edtico em seu l\u00edvre arb\u00edtrio para julgar, analisar, optar  ou decidir. Por\u00e9m, passou a ser mais do que isso. Passou a um est\u00e1gio de status ser apresentado como jornalista. Portanto, nada como todo mundo querer ser jornalista. Todo mundo n\u00e3o, todos aqueles que cr\u00eaem que imprensa \u00e9 poder e que ser jornalista \u00e9 ser, estar e conviver com o poder. Por isso, \u00e9 comum, nos dias atuais, as p\u00e1ginas de opini\u00e3o dos jornais estarem preenchidas de artigos de autores que se identificam por  sua profiss\u00e3o original e por uma segunda atividade complementar: jornalista. \u00c9 desembargador e jornalista, m\u00e9dico e jornalista, escritor e jornalista, advogado e jornalista etc, etc, etc. Ou seja, todo mundo \u00e9 jornalista. Nenhum quer, entretanto, deixar uma sala com ar-condicionado para subir morros cariocas, entrar em favelas do Recife, percorrer periferias de S\u00e3o Paulo, virar noites e feriados em coberturas de trag\u00e9dias.<\/p>\n<p>Nas pr\u00f3ximas 48 horas, o Supremo Tribunal Federal (STF) ir\u00e1 julgar uma entre duas situa\u00e7\u00f5es: a preserva\u00e7\u00e3o ou o fim de uma profiss\u00e3o. Ir\u00e1 dizer se Jornalismo \u00e9 arte, que qualquer ser humano letrado poder\u00e1 exercer, ou se Jornalismo \u00e9 um of\u00edcio que necessita de forma\u00e7\u00e3o (e abnega\u00e7\u00e3o!). Ao contr\u00e1rio daqueles que acreditam que Jornalismo \u00e9 uma arte, h\u00e1 aqueles &#8211; os profissionais, os abnegados &#8211; que s\u00e3o convictos de que um jornalista, em seu of\u00edcio, n\u00e3o est\u00e1 fazendo arte, seja literatura ou qualquer cria\u00e7\u00e3o. O jornalista n\u00e3o cria, apenas relata, narra, conta. Coincide, t\u00e3o-somente, com o artista apenas na necessidade imperiosa da liberdade de express\u00e3o. Liberdade que, ao ser utilizada,  recebe a \u00e1urea de liberdade de imprensa. Uma pequena metamorfose, porque, no Jornalismo, liberdade de imprensa \u00e9 s\u00f3 uma forma de liberdade de express\u00e3o. Esta \u00e9 muito mais ampla, inclui, inclusive, a liberdade nas artes.<\/p>\n<p>O Jornalismo faz parte do imagin\u00e1rio do homem, mas \u00e9 s\u00f3 o mediador da comunica\u00e7\u00e3o. Assim, n\u00e3o \u00e9 arte, n\u00e3o pode ter a criatividade das artes, n\u00e3o pode ser fic\u00e7\u00e3o. As mat\u00e9rias primas deste of\u00edcio s\u00e3o a verdade (o fato) e o conhecimento acumulado. Ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 liberdade de express\u00e3o em todas as suas formas.<\/p>\n<p>Mais que isso! Jornalismo n\u00e3o se vende, n\u00e3o \u00e9 mercadoria, n\u00e3o \u00e9 moeda de troca, de barganha ou de acumula\u00e7\u00e3o de riqueza. Quem assume o papel do capital \u00e9 a empresa privada e quem assume o papel do poder p\u00fablico \u00e9 o Estado, por seus aparelhos de controle ideol\u00f3gico e por suas institui\u00e7\u00f5es de poder, n\u00e3o \u00e9 o Jornalismo. Portanto, precisa ter algu\u00e9m para exerc\u00ea-lo com identidade. Mas, nos dias que se precedem, corremos todos &#8211; aqueles que t\u00eam o Jornalismo por atividade exclusiva e para qual se prepararam &#8211; e a sociedade o risco de conviver com uma profiss\u00e3o para qual n\u00e3o se exigir\u00e1 preparo, muito menos um c\u00f3digo de \u00e9tica, e sem que haja uma categoria. Na medida em que deixar de existir uma regulamenta\u00e7\u00e3o profissional, deixar\u00e1 de existir uma categoria. A remunera\u00e7\u00e3o, as condi\u00e7\u00f5es de acessibilidade, as regras de um c\u00f3digo de atua\u00e7\u00e3o, os crit\u00e9rios para as pautas, tudo ser\u00e1 orientado pelos interesses, pela empresa, pelo poder. A\u00ed, o Jornalismo vira mercadoria. Qual independ\u00eancia ter\u00e1 um profissional para dizer n\u00e3o a quem lhe ferir os escr\u00fapulos ou o direito de consci\u00eancia?<\/p>\n<p>Jornalismo tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9, e n\u00e3o pode ser, o ref\u00fagio dos incompetentes, a atividade dos que n\u00e3o deram certo em outros of\u00edcios e, por falta de op\u00e7\u00f5es mais f\u00e1ceis, venha a ser a alternativa de senhores de dinheiro, pol\u00edticos ou autoridades de verem um filho enfim empregado e finalmente com uma profiss\u00e3o. Jornalismo n\u00e3o pode ser a ocupa\u00e7\u00e3o dos que n\u00e3o deram certo no direito, na engenharia, na medicina, na economia, no com\u00e9rcio, em qualquer outro ramo. Nem dos que querem o t\u00edtulo para glamourizar o curriculo. E n\u00e3o pode ser o meio mais f\u00e1cil de atua\u00e7\u00e3 de organiza\u00e7\u00f5es sociais que n\u00e3o queiram respeitar a organiza\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria da sociedade: o trabalho. Este \u00e9 a primeira das organiza\u00e7\u00f5es sociais. Uma exig\u00eancia natural que a revolu\u00e7\u00e3o industrial e a organiza\u00e7\u00e3o do capitalismo provocaram. A organiza\u00e7\u00e3o do trabalho foi a contrapartida necess\u00e1ria e o sindicato o instrumento de media\u00e7\u00e3o. Como, ent\u00e3o, ter sindicato forte sem uma profiss\u00e3o regulamentada, sem existir categoria?<\/p>\n<p>Neste Pa\u00eds, n\u00e3o h\u00e1 ramo de empresas que tenha tantos privil\u00e9gios e incentivos que o da comunica\u00e7\u00e3o, a m\u00eddia, a imprensa. Qual o grande jornal do Brasil que fechou as portas de 1964 para c\u00e1? O \u00faltimo grande t\u00edtulo que encerrou a atividade foi o \u00daltima Hora, empastelado pelo regime militar. Jornais n\u00e3o pagam imposto sobre importa\u00e7\u00e3o de papel, r\u00e1dios e TVs n\u00e3o perdem a concess\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 um s\u00f3. \u00c0 sombra de 64, muitos tornaram-se grandes conglomerados de comunica\u00e7\u00e3o, que conseguem rolar d\u00edvidas ou obter empr\u00e9stimos para sair de dificuldades sem os empecilhos que os outros ramos empresariais emfrentam.<\/p>\n<p>A comunica\u00e7\u00e3o tem sido o melhor ramo para se construir um monop\u00f3lio. At\u00e9 de quem parte a acusa\u00e7\u00e3o de inconstitucionalidade da regulamenta\u00e7\u00e3o de uma profiss\u00e3o, no verso n\u00e3o pesa a argui\u00e7\u00e3o de inconstitucionalidade da propriedade cruzada dos meios de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Enfim, quem j\u00e1 pesquisou ou leu jornais de d\u00e9cadas passadas ou sobre o Jornalismo que se fez at\u00e9 1969, o ano da regulamenta\u00e7\u00e3o dos jornalistas brasileiros &#8211; um decreto que \u00e9 s\u00f3 uma legisla\u00e7\u00e3o trabalhista -, constatar\u00e1 que o Jornalismo feito foi sempre inferior ao Jornalismo que se faz. Fazemos um Jornalismo sempre melhor do que sempre se fez. E temos que agradecer aos cursos institu\u00eddos a partir nos anos 40 e 50, \u00e0 forma\u00e7\u00e3o no Jornalismo, que ampliou o profissional, deu-lhe a no\u00e7\u00e3o de impessoalidade, despertou-lhe a sensibilidade para o que \u00e9 not\u00edcia, instigou-lhe a independ\u00eancia e exigiu-lhe um c\u00f3digo de \u00e9tica profissional. Com tudo isso, se n\u00e3o h\u00e1 imparcialidade, por serem todos humanos, h\u00e1 condi\u00e7\u00e3o de ser isento no exerc\u00edcio do of\u00edcio. O risco ser\u00e1 perder tudo para quem acha que Jornalismo \u00e9 arte.<\/p>\n<p>* Presidente do Sindicato dos Jornalistas de Pernambuco (SinjoPE)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Ayrton Maciel*<\/p>\n<p>Jornalismo n\u00e3o \u00e9 arte. N\u00e3o \u00e9 arte pl\u00e1stica, n\u00e3o \u00e9 arte c\u00eanica, n\u00e3o \u00e9 literatura, n\u00e3o \u00e9 cordel, n\u00e3o \u00e9 o artesanato da palavra. 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