{"id":11378,"date":"2009-07-27T00:00:00","date_gmt":"2009-07-27T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:40:54","modified_gmt":"2017-09-15T19:40:54","slug":"caminhemos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/caminhemos\/","title":{"rendered":"Caminhemos"},"content":{"rendered":"<p>Meu saudoso cunhado Z\u00e9 Mango era um obstinado.  A tudo aquilo que se dispunha fazer, queria fazer \u201cbem feito\u201d e, para tanto, dedicava horas e horas de estudo e dedica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Era um perfeccionista.<\/p>\n<p>No trabalho, e no lazer.<\/p>\n<p>Sim, porque o homem trabalhava muito. Era chefe no Laborat\u00f3rio de An\u00e1lises Cl\u00ednicas do renomado Instituto Penido Burnier, em Campinas.<\/p>\n<p>Mas, nas horas vagas, descontava. Esquecia de tudo e se afundava, de corpo e alma, em hobbys  qualificados.<\/p>\n<p>Lembro de dois. Ou melhor, de tr\u00eas.<\/p>\n<p>O primeiro foi fotografia. <\/p>\n<p>Numa \u00e9poca em que fotos coloridas s\u00f3 com m\u00e1quinas importadas, sofisticadas e car\u00edssimas, o Mango ajeitara, num canto do quarto, milhares de cromos enfileirados e organizados por tema. Uma preciosidade.<\/p>\n<p>Outro que me lembro era a cole\u00e7\u00e3o de canetas tinteiros. <\/p>\n<p>Tinha raridades, verdadeiras j\u00f3ias que, segundo minha irm\u00e3 Doroti, comprometiam consideravelmente o sal\u00e1rio do m\u00eas.<\/p>\n<p>Numa \u00e9poca, o Z\u00e9 Mango deu de ser criador de peixes ornamentais \u2013 e uma profus\u00e3o de aqu\u00e1rios invadiu a casa da fam\u00edlia. Ele passava madrugadas em claro a observar o comportamento dos peixes, de diversos tipos e proced\u00eancias. Tamb\u00e9m entabulava trocas com criadores de todo o Brasil.<\/p>\n<p>Numa tarde, minha irm\u00e3 resolveu dedetizar a casa. <\/p>\n<p>Resultado: n\u00e3o sobrou uma alma viva. Quer dizer, um peixe vivo.<\/p>\n<p>Foi o fim.<\/p>\n<p>Mas, al\u00e9m de um breve acesso de f\u00faria, ele at\u00e9 que compreendeu que ela n\u00e3o teve inten\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Menos mal.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, por falar em Z\u00e9, da dign\u00edssima esposa Doroti e hobbys, acabei de lembrar de uma outra atividade que encantava o mo\u00e7o (O Z\u00e9 morreu cedo com 35 anos. Uma l\u00e1stima!).<br \/>\nEle adorava tocar viol\u00e3o. Comprou um bel\u00edssimo Di Giorgio e \u2018viajava\u2019 em acordes e harmonias de cl\u00e1ssico do nosso cancioneiro popular.<\/p>\n<p>Certa noite, ele caprichava nos bord\u00f5es ao tocar Caminhemos, de Herivelto Martins. Um primor a apresenta\u00e7\u00e3o que fazia a mim e a minha irm\u00e3. S\u00f3 que o Z\u00e9 n\u00e3o era l\u00e1 um grande cantor. Foi quando a Doroti se ofereceu para interpretar a pungente can\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Ele avisou logo:<\/p>\n<p>&#8212; Mas, \u00e9 para levar a s\u00e9rio, hein!<\/p>\n<p>Ela topou \u2013 e come\u00e7aram o ensaio. Pra valer.<\/p>\n<p>Duas horas e tanto depois, estavam tinindo. S\u00f3 faltava o finalzinho.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que tudo aconteceu.<\/p>\n<p>A Doroti se empolgou e imaginando-se a pr\u00f3pria Dalva de Oliveira n\u00e3o prestou a devida aten\u00e7\u00e3o \u00e0s armadilhas dos tempos verbais.<\/p>\n<p>Sem perceber, soltou a seguinte p\u00e9rola:<\/p>\n<p>\u201cCaminhemos<br \/>\n  Talvez nos VEJEMOS&#8230;<br \/>\n  &#8230; depois\u201d<\/p>\n<p>Foi o fim da cantoria, da promissora carreira art\u00edstica da Doroti e quase quase foi o fim do Di Giorgio de estima\u00e7\u00e3o que o Z\u00e9, de raiva, amea\u00e7ou jogar contra a parede.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Meu saudoso cunhado Z\u00e9 Mango era um obstinado.  A tudo aquilo que se dispunha fazer, queria fazer \u201cbem feito\u201d e, para tanto, dedicava horas e horas de estudo e dedica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Era um perfeccionista.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-11378","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11378","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11378"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11378\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16582,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11378\/revisions\/16582"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11378"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11378"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11378"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}