{"id":11412,"date":"2009-08-31T00:00:00","date_gmt":"2009-08-31T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:40:49","modified_gmt":"2017-09-15T19:40:49","slug":"sol-no-rosto","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/sol-no-rosto\/","title":{"rendered":"Sol no rosto"},"content":{"rendered":"<p>Vieira vai casar.<\/p>\n<p>Foi ele pr\u00f3prio que me disse hoje pela manh\u00e3.<\/p>\n<p>Preferi n\u00e3o entrar em detalhes. <\/p>\n<p>Tenho meus motivos.<\/p>\n<p>Vou cont\u00e1-los ao lembrar uma antiga hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Tinha uma viagem marcada para Natal, onde fugiria da lida e passaria uma semana na paz, entre dunas e praias e sol e mar.<\/p>\n<p>O voo sa\u00eda por volta das 13 horas em Congonhas. Havia tempo, pois, para fazer a barba e aparar o cavanhaque, coisa que fa\u00e7o, ao menos uma vez por semana, no amigo Vieira, cearense falador, que sonha em ser radialista, mas vive do que lhe rendem o pente, a tesoura e agora as terr\u00edveis m\u00e1quinas el\u00e9tricas.<\/p>\n<p>Assim que cheguei o homem estava terminando de ajeitar o sal\u00e3o para a lida daquele s\u00e1bado. Que, ali\u00e1s, \u00e9 um dia bastante concorrido nos sal\u00f5es. O movimento \u00e9 maior e Vieira, doubl\u00e9 de barbeiro e locutor, costuma estar mais prosa do que o habitual.<\/p>\n<p>Naquela manh\u00e3, por\u00e9m, eu o achei macamb\u00fazio, triste, \u201cdesenxabido\u201d, como ele mesmo me confessou. N\u00e3o precisei perguntar para que me dissesse sobre o motivo de tamanho desalento. Nanda, a oriental com quem vivia e era feliz, acabara de partir para a distante Mal\u00e1sia, sua terra de origem, \u201clonge muito longe\u201d.<\/p>\n<p>Vieira falava e olhava para o rel\u00f3gio na parede. Implac\u00e1vel no passar das horas e no aumentar o tal \u201clonge muito longe\u201d:<\/p>\n<p>&#8212; Partiu ontem \u00e0 noite. Agora deve estar chegando a Paris. Faz conex\u00e3o com&#8230;<\/p>\n<p>Ele sabia timtim por timtim os passos da amada distante at\u00e9 a \u201clonge muito longe\u201d Mal\u00e1sia. Por isso, olhava sistematicamente para o rel\u00f3gio. <\/p>\n<p>&#8212; De Paris, ela pega um voo para Frankfurt, na Alemanha, e&#8230;<\/p>\n<p>Pelo arrastar da conversa \u2013 quer dizer do mon\u00f3logo porque Vieira alterava a navalha \u00e0 m\u00e1quina zero no meu rosto \u2013, logo deduzi que a viagem era de ida sem volta. E, por mais que ele disfar\u00e7asse, j\u00e1 deveria ter se dado conta disso. <\/p>\n<p>Era o fim.<\/p>\n<p>Mas, n\u00e3o seria eu a diz\u00ea-lo. <\/p>\n<p>Ali\u00e1s, notei a perplexidade da criatura assim olhou meu rosto, depois de consultar pela mil\u00e9sima vez o inef\u00e1vel caminhar dos ponteiros.<\/p>\n<p>Desconfiei que ele pr\u00f3prio se dera conta do adeus.<\/p>\n<p>Resolvi consol\u00e1-lo:<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o fique assim, Vieira? O mundo n\u00e3o vai acabar porque&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o terminei a frase. Foi a vez de ele me surpreender:<\/p>\n<p>&#8212; O mundo, n\u00e3o. Mas, o seu cavanhaque, sim.<\/p>\n<p>&#8212; Como assim?<\/p>\n<p>&#8212; Olhei para o rel\u00f3gio e&#8230; raspei o seu cavanhaque.<\/p>\n<p>N\u00e3o tive alternativa. Perdoei o Vieira. Precisava mesmo tomar um sol no rosto.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Isso aconteceu h\u00e1 cinco ou seis anos. \u00d3bvio que a Nanda n\u00e3o voltou. \u00c0s vezes, ele come\u00e7ava a falar dela; eu cortava o assunto, de primeira. Bastava lembr\u00e1-lo da vez que fez o escalpe do meu cavanhaque.<\/p>\n<p>Hoje, ele estava entusiasmado com o novo amor, a Bruna.<\/p>\n<p>Preferi n\u00e3o entrar em detalhes.<\/p>\n<p>Tenho meus motivos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vieira vai casar.<\/p>\n<p>Foi ele pr\u00f3prio que me disse hoje pela manh\u00e3.<\/p>\n<p>Preferi n\u00e3o entrar em detalhes. <\/p>\n<p>Tenho meus motivos.<\/p>\n<p>Vou cont\u00e1-los ao lembrar uma antiga hist\u00f3ria.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-11412","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11412","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11412"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11412\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16548,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11412\/revisions\/16548"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11412"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11412"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11412"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}