{"id":11498,"date":"2009-12-05T00:00:00","date_gmt":"2009-12-05T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T03:58:43","modified_gmt":"2017-09-14T03:58:43","slug":"mensagem-para-voce","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/mensagem-para-voce\/","title":{"rendered":"Mensagem para voc\u00ea *"},"content":{"rendered":"<p>Debru\u00e7o sobre a janela para espiar o mundo l\u00e1 fora.<\/p>\n<p>N\u00e3o chove, nem faz sol.<\/p>\n<p>Vejo a mo\u00e7a, l\u00e1 embaixo, distante, a andar de um lado para outro, com o celular junto ao ouvido.<\/p>\n<p>Faz o que eu chamaria de \u2018a dan\u00e7a do pav\u00e3o\u2019 \u2013 ou melhor, da \u2018pavoa\u2019, com todo o respeito, \u00e9 claro. <\/p>\n<p>Passinhos pra c\u00e1, passinhos pra l\u00e1. <\/p>\n<p>Aposto que nem ela pr\u00f3pria se d\u00e1 conta do vaiv\u00e9m.<\/p>\n<p>Aposto mais.<\/p>\n<p>Fala com o namorado, o admirador, o ficante, o peguete&#8230;<\/p>\n<p>Certamente, algu\u00e9m que lhe interessa \u2013 e muito e versa e vice.<\/p>\n<p>C\u00e1 com meus cambaleantes bot\u00f5es, tento lembrar como era o mundo antes do celular. <\/p>\n<p>O mundo e os amores.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Era mesmo um perereco. <\/p>\n<p>Quantos plant\u00f5es sem fim diante daquele aparelho, sinistro, preto, que teimava em n\u00e3o tocar?<\/p>\n<p>O inverso tamb\u00e9m era verdadeiro.<\/p>\n<p>Quanta expectativa para ouvir o \u201cal\u00f4\u201d quando lig\u00e1vamos \u2013 e nada de a mo\u00e7a atender?<\/p>\n<p>E as filas quilom\u00e9tricas diante de orelh\u00f5es?<\/p>\n<p>Nos fins de semana ficavam apinhados de gente para falar com a parentada do Nordeste \u2013 e a gente, ali, esperando a vez.<\/p>\n<p>Depois, a gente ainda tomava um esculhambo porque demoramos a ligar.<\/p>\n<p>N\u00e3o era f\u00e1cil.<\/p>\n<p>Havia casos, os tais amores clandestinos, em que era terminantemente proibido telefonar para a casa da amada. Poderia ser uma tr\u00e1gica bandeira.<\/p>\n<p>Era preciso mesmo criatividade \u2013 e empenho \u2013 para conjugar o verbo amar.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Dogiva era um dos nossos, freq\u00fcentador ass\u00edduo daquele Sujinho na esquina da rua Bom Pastor com a rua Greenfeld, onde o Sacom\u00e3 torce o rabo. <\/p>\n<p>Dado \u00e0s trampolinagens expl\u00edcitas e aos amores imposs\u00edveis, armava mil e um esquemas para dar seus recados \u00e0 \u201cmulher da sua vida\u201d. <\/p>\n<p>Voc\u00eas podem at\u00e9 achar que estou inventando, mas n\u00e3o. <\/p>\n<p>Era exatamente assim que chamava a todas, incautas que ca\u00edam no seu convers\u00ea.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Para variar, Dogiva se apaixonou por uma senhora de fino trato. Que se mostrou simp\u00e1tica a seus olhares e promessas. <\/p>\n<p>&#8212; Quem sabe, um dia, talvez&#8230;<\/p>\n<p>Foi o que lhe disse, prometendo tudo sem nada prometer. <\/p>\n<p>Fez mais. <\/p>\n<p>Proibiu as liga\u00e7\u00f5es e qualquer tipo de manifesta\u00e7\u00e3o p\u00fablica que pudesse comprometer sua ilibada reputa\u00e7\u00e3o \u2013 e conseq\u00fcentemente seu est\u00e1vel casamento com poderoso empres\u00e1rio.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Para confirma\u00e7\u00e3o do prov\u00e1vel encontro, desenvolveram uma estrat\u00e9gia. <\/p>\n<p>Iriam se comunicar por meio de bilhetes que, dentro de um pequeno envelope, eram deixados presos a determinado poste, pr\u00f3ximo \u00e0 casa da mo\u00e7oila.<\/p>\n<p>Ele teria que saber esperar e conquist\u00e1-la \u00e0 moda antiga, romanticamente.<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Sem problemas.<\/p>\n<p>Dogiva era pr\u00f3digo em vontades e f\u00e9rtil na escrita. <\/p>\n<p>Imaginem como e o quanto funcionou o correio que inventaram. <\/p>\n<p>A cada verso do amigo, a mo\u00e7a se dizia mais apaixonada em suas telegr\u00e1ficas respostas.<\/p>\n<p>Estava quase cedendo.<\/p>\n<p>&#8212; Quest\u00e3o de tempo, meus caros.<\/p>\n<p>Dogiva se achava.<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>De repente, os bilhetes da mo\u00e7a escassearam. Sumiram.<\/p>\n<p>Nunca mais ela passou em frente ao boteco.<\/p>\n<p>O que teria acontecido?<\/p>\n<p>VIII.<\/p>\n<p>O Casanova tupiniquim repassou as etapas que cumpria di\u00e1ria e fielmente.<\/p>\n<p>Passava a madrugada poetando. <\/p>\n<p>Logo cedo cumpria o rito de deixar o ma\u00e7o de papel no lugar devido e, na manh\u00e3 seguinte, encontraria a resposta e deixaria \u201coutra obra de amor e l\u00e1grimas\u201d.<\/p>\n<p>Dogiva era um amante exasperado.<\/p>\n<p>IX.<\/p>\n<p>S\u00f3 que nada de retorno.<\/p>\n<p>Ficou transtornado.<\/p>\n<p>A \u00fanica vez que viu a mo\u00e7a ao longe tentou uma v\u00e3 aproxima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ela trancou a cara e apressou o passo para mudar de cal\u00e7ada.<\/p>\n<p>O que fizera de errado?<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que o marido descobriu?<\/p>\n<p>X.<\/p>\n<p>Resolveu at\u00e9, por uma quest\u00e3o de seguran\u00e7a, meter um plant\u00e3o sorrateiro diante do poste.<\/p>\n<p>Antes, retomou as esperan\u00e7as.<\/p>\n<p>Escreveu longu\u00edssima carta, falando de toda \u201ctristeza com os rumos que tomara o grande amor de ambos sentiam\u201d e que, ansioso, aguardava resposta imediata \u201cme chamando de meu bem, com dia e hora para o almejado encontro de duas almas que querem perdida e infinitamente\u201d.<\/p>\n<p>Enfiou os escritos no envelope \u2013 e o deixou preso ao poste.<\/p>\n<p>Feito isso, escondeu-se para ver o que acontecia.<\/p>\n<p>N\u00e3o tardou.<\/p>\n<p>Soube da resposta&#8230;<\/p>\n<p>XI.<\/p>\n<p>Um senhor de certa idade se aproximou do poste com jeit\u00e3o sinistro.<\/p>\n<p>Olhou aqui, olhou ali.<\/p>\n<p>E crau!<\/p>\n<p>Tirou um papel da sacola de pano e, com duas ou tr\u00eas pinceladas, colou o cartaz no poste, bem em cima da poesia. N\u00e3o respeitou sequer o lirismo de suas palavras e as inten\u00e7\u00f5es que as maltra\u00e7adas anunciavam.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, o homem era um aut\u00f4mato.<\/p>\n<p>Repetiu o gesto com a mesma inclem\u00eancia em todos os postes da rua.<\/p>\n<p>Dogiva se p\u00f4s a imaginar quantos amores poderiam estar se perdendo ali, naquele exato momento.<\/p>\n<p>Quase chorou.<\/p>\n<p>S\u00f3 ent\u00e3o se deu conta de que, em tempos eleitorais, o poste \u00e9 um espa\u00e7o publicit\u00e1rio dos mais concorridos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Debru\u00e7o sobre a janela para espiar o mundo l\u00e1 fora.<\/p>\n<p>N\u00e3o chove, nem faz sol.<\/p>\n<p>Vejo a mo\u00e7a, l\u00e1 embaixo, distante, a andar de um lado para outro,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-11498","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-parangoles"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11498","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11498"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11498\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13951,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11498\/revisions\/13951"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11498"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11498"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11498"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}