{"id":11550,"date":"2010-02-22T00:00:00","date_gmt":"2010-02-22T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T03:57:42","modified_gmt":"2017-09-14T03:57:42","slug":"filho-exemplar-integra","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/filho-exemplar-integra\/","title":{"rendered":"Filho exemplar (\u00edntegra)"},"content":{"rendered":"<p>Escova era um dos nossos.<\/p>\n<p>Dia sim e outro tamb\u00e9m, especialmente ao cair da tarde e no subir da noite, reun\u00edamos  ali, naquele Sujinho que existia na esquina das ruas Bom Pastor com Greenfeld, onde o Sacom\u00e3 torce o rabo e hoje, toda pimpona, est\u00e1 a Esta\u00e7\u00e3o do Metr\u00f4.<\/p>\n<p>Era o ponto de encontro do pessoal da combalida Reda\u00e7\u00e3o assoalhada com os cabulosos de plant\u00e3o, a fina flor do \u00f3cio e dos desvalidos do Ipirang\u00e3o velho de guerra. L\u00e1 nos encontr\u00e1vamos sem hora para chegar ou sair. Ouv\u00edamos as hist\u00f3rias do Grande Nasci, mestre de todos n\u00f3s e, entre um gole e outros mais, cont\u00e1vamos causos e prosas sem fim.<\/p>\n<p>Escova, como j\u00e1 disse, era um dos nossos.<\/p>\n<p>Tido, havido e reconhecido como o mais chegado \u00e0 pr\u00e1tica do esporte ol\u00edmpico da trampolinagem. Era invejado por muitos, veemente criticado por outros. Mas, h\u00e1 que se reconhecer o homem tinha coragem e l\u00e1bia. <\/p>\n<p>Por isso, quando ele desaparecia da roda por uns tempos, todos j\u00e1 sabiam o motivo. \u00danico e inabal\u00e1vel. Havia mulher nova no peda\u00e7o.<\/p>\n<p>E ele embarcava com tudo nas \u00e1guas. revoltas da paix\u00e3o.<\/p>\n<p>A n\u00f3s, marujos de pedalinhos, cabia a tarefa suprema de justificarmos as aus\u00eancias do amigo \u00e0 Dona Encrenca, dignissima Sra. Escova, que, sem ter mais onde procurar, aparecia no Sujinho para saber not\u00edcias do paradeiro do marid\u00e3o sumido de casa e da Reda\u00e7\u00e3o h\u00e1 dias.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, d\u00e1-lhe reportagem especial na Amaz\u00f4nia em prol do meio-ambiente. Ou uma sigilosa investiga\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica sobre uma nova rota de tr\u00e1fico. Ou ainda uma viagem inesperada para acompanhar determinada celebridade \u00e0 Ilha de Caras.<\/p>\n<p>Valia tudo para tirar Escova do aperto &#8211; e, mod\u00e9stia \u00e0 parte, \u00e9ramos convincentes em nossas cria\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, exager\u00e1vamos.<\/p>\n<p>Mas, conformada, ela acreditava. Ou fingia acreditar.<\/p>\n<p>N\u00e3o me perguntem como Dona Encrenca nunca desconfiou do fato de que as aludidas reportagens nunca foram publicadas.<\/p>\n<p>N\u00e3o saberei explicar nem hoje nem nunca.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>A bem da verdade, Dona Encrenca nunca simpatizou com a turma do Sujinho e do jornal.<\/p>\n<p>\u00c9 muito prov\u00e1vel que nunca tenha se dado ao trabalho de folhear nosso tradicional pasquim.<\/p>\n<p>Tem mais.<\/p>\n<p>N\u00e3o gostava de ver o marido envolvido com aquele pessoal desqualificado, sujeito a chuvas e trovoadas.<\/p>\n<p>Nas rusgas familiares, soltava os cachorros e, no popular, dizia que \u00e9ramos um bando de desocupados.<\/p>\n<p>&#8212; E jornalista l\u00e1 \u00e9 profiss\u00e3o?, perguntava \u00e0s paredes, que n\u00e3o lhe davam ouvidos, sem sequer lembrar-se que era do baticum das velhas Olivettis que Escova tirava o sustento da fam\u00edlia e dos pr\u00f3prios v\u00edcios.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, indiferentes ao que pensava Dona Encrenca, n\u00f3s mesmos t\u00ednhamos altas discuss\u00f5es sobre o tema. N\u00e3o sobre o jornalismo propriamente dito, mas sobre a trampolinagem expl\u00edcita e as perip\u00e9cias do Don Juan da Vila Capocha. <\/p>\n<p>Alguns fechavam quest\u00e3o: era v\u00edcio. <\/p>\n<p>Outros n\u00e3o tinham d\u00favida: era dom. <\/p>\n<p>O mais s\u00e1bio de todos n\u00f3s, o Nasci, encerrava a discuss\u00e3o, com a opini\u00e3o definitiva:<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 pr\u00f3prio da natureza humana. Quem n\u00e3o foi, ou \u00e9 ou ser\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>Enfim&#8230;<\/p>\n<p>Filosofias baratas \u00e0 parte, deu-se que, mais dia, menos dia, o inevit\u00e1vel aconteceu.<br \/>\nEscova queimou o banco de horas que tinha em haver no jornal e caiu na vida sem maiores explica\u00e7\u00f5es e delongas.<\/p>\n<p>At\u00e9 a\u00ed nenhuma novidade.<\/p>\n<p>O in\u00e9dito da cena \u00e9 que Dona Encrenca, desta feita, pareceu n\u00e3o se abalar com o sumi\u00e7o.<\/p>\n<p>E foi mais longe.<\/p>\n<p>Todas as vezes que circulava pelos arredores do Sacom\u00e3 trazia, no semblante, ares de superioridade. Se por acaso cruzasse com um dos nossos, deixava claro sua felicidade por Escova n\u00e3o pertencer mais \u00e0quele submundo de s\u00f3rdidos e bebuns.<\/p>\n<p>Como dizia o Mestre dos Mestres:<\/p>\n<p>&#8212; Tem gato na tuba.<\/p>\n<p>Todos j\u00e1 desconfi\u00e1vamos o tamanho da felina&#8230;<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Deixemos o gato e a felina em cima do telhado para centrarmos nossa hist\u00f3ria na incontida felicidade que Dona Encrenca aparentava viver.<\/p>\n<p>Era mesmo de se admirar.<\/p>\n<p>O marido longe de casa &#8211; muito provavelmente no desfrute &#8211; e ela ali a rir como se tudo na vida fossem flores e encantos.<\/p>\n<p>Era mesmo de se admirar.<\/p>\n<p>N\u00e3o tardou e parte do mist\u00e9rio se revelou.<\/p>\n<p>N\u00f3s, do Sujinho, n\u00e3o \u00e9ramos o \u00fanico alvo da f\u00faria e da incompreens\u00e3o da Sra. Escova.<\/p>\n<p>Havia uma rival inimagin\u00e1vel para n\u00f3s.<\/p>\n<p>Era Dona Rosinha, octogen\u00e1ria progenitora do dito-cujo Escova.<\/p>\n<p>N\u00e3o preciso dizer,mas digo. Que se tornaram inimigas cordiais desde que se viram pela primeira vez quando, por for\u00e7a das circunst\u00e2ncias e de uma inesperada gravidez, Escova anunciou o casamento e a coisa de morar juntos, os tr\u00eas.<\/p>\n<p>A que se reconhecer. Escova sempre foi um sedutor.<\/p>\n<p>Com os habituais salamaleques, foi temperando as duas e, com isso, escapando do aluguel e de outros compromissos financeiros saldados pelo bem-aventurado benef\u00edcio mensal de Dona Rosinha.<\/p>\n<p>Vinte e muitos anos depois, Dona Encrenca conseguiu a alforria.<\/p>\n<p>Por isso, estava satisfeita daquele jeito.<\/p>\n<p>A sogra concordou em deixar o sobrado da Vila Capocha e ir morar num apartamento de sala e quarto do outro lado da Juntas Provis\u00f3rias. L\u00e1 onde o<br \/>\nIpiranga faz divisa com o Sacom\u00e3.<\/p>\n<p>A princ\u00edpio Escova n\u00e3o concordou. Levantou um monte de empecilhos.<\/p>\n<p>Mas, por fim, aceitou. J\u00e1 era hora mesmo&#8230;<\/p>\n<p>Por\u00e9m, como filho exemplar que era e sempre foi, fez algumas exig\u00eancias.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Antes de ouvi-las, por\u00e9m, Dona Encrenca j\u00e1 havia resolvido topar.<\/p>\n<p>Afinal, tem certas coisas na vida que n\u00e3o tem pre\u00e7o.<\/p>\n<p>Finalmente, ela seria a rainha do lar do sobradinho da rua Vemag.<\/p>\n<p>Que, ali\u00e1s, j\u00e1 estava precisando de uma m\u00e3o de tinta. E ela, s\u00f3 ela, escolheria a cor. Sem pitacos, nem palpites da sogra.<\/p>\n<p>Poderia mudar os m\u00f3veis de lugar.<\/p>\n<p>Servir o almo\u00e7o e o jantar na hora que bem entendesse.<\/p>\n<p>Deixar a TV ligada o dia todo.<\/p>\n<p>E, suprema conquista, ir e vir ao Carrefour quantas vezes quisesse e, toda gabola, pilotar o carrinho de compras pra l\u00e1 e pra c\u00e1, sem ter que dar satisfa\u00e7\u00e3o a ningu\u00e9m, muito menos \u00e0 Dona Rosinha.<\/p>\n<p>Tamanha felicidade valia qualquer exig\u00eancia. Fossem quais fossem&#8230;<\/p>\n<p>Para ser sincero, foram razo\u00e1veis as imposi\u00e7\u00f5es de Escova, o filho exemplar.<\/p>\n<p>Primeiro: ele deveria ir ficar com a m\u00e3e as primeiras semanas. At\u00e9 que Dona Rosinha se habituasse \u00e0 nova rotina.<\/p>\n<p>Fazia sentido.<\/p>\n<p>A segunda era mais delicada. <\/p>\n<p>Mas, como trato \u00e9 trato, tamb\u00e9m foi aceita sem restri\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Escova escolheria, pessoalmente, a pessoa que seria uma esp\u00e9cie de acompanhante de sua m\u00e3e. Seria assim uma esp\u00e9cie de faz-tudo, um misto de enfermeira, cozinheira, uma quase amiga que a socorreria em qualquer emerg\u00eancia.<\/p>\n<p>Inclusive, o ideal mesmo \u00e9 que a tal morasse com Dona Rosinha.<\/p>\n<p>N\u00e3o preciso dizer mais nada&#8230;<\/p>\n<p>Foi por essa brecha que Jane, uma linda morena de quase 20 anos e incont\u00e1veis atributos, p\u00f4de deixar S\u00e3o Miguel Paulista, onde morava com uma tia distante, e vir morar pertinho do namorad\u00e3o, o homem da sua vida. <\/p>\n<p>Preciso dizer quem era o cara.<\/p>\n<p>Ele mesmo: o Escova.<\/p>\n<p>Que demorou quase ano para voltar ao sobradinho da Vila Capocha, com a cara mais deslavada do mundo e a fama de filho exemplar que era e sempre foi.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escova era um dos nossos.<\/p>\n<p>Dia sim e outro tamb\u00e9m, especialmente ao cair da tarde e no subir da noite, reun\u00edamos  ali, naquele Sujinho que existia na esquina das ruas Bom Pastor com Greenfeld,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-11550","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-parangoles"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11550","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11550"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11550\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13949,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11550\/revisions\/13949"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11550"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11550"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11550"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}