{"id":11582,"date":"2010-03-28T00:00:00","date_gmt":"2010-03-28T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2025-03-09T06:15:35","modified_gmt":"2025-03-09T06:15:35","slug":"tenis-vermelho","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/tenis-vermelho\/","title":{"rendered":"T\u00eanis vermelho"},"content":{"rendered":"<p>Certa tarde, a Constanza Pascolatto, ela mesma, elegant\u00edssima, apareceu na Reda\u00e7\u00e3o do jornal em que eu trabalhava.<\/p>\n<p>Em outra ocasi\u00e3o, passei em frente de uma livraria, onde a Glorinha Kalil participava de uma sess\u00e3o de aut\u00f3grafos de um dos tantos livros de moda que escreveu e escreve.<\/p>\n<p>Durante um bom tempo fui leitor ass\u00edduo de Danuza Le\u00e3o em suas cr\u00f4nicas na <em>Folha de S.Paulo<\/em>. Inclusive uma em que ela, do alto de sua fidalguia, diz que para bem geral de todos e harmonia do universo as mulheres nunca deveriam usar botas brancas.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Pois \u00e9&#8230;<\/p>\n<p>Com tantas e t\u00e3o boas refer\u00eancias, mesmo assim, l\u00e1 um dia, cismei de comprar um t\u00eanis vermelho.<\/p>\n<p>Faz uns tr\u00eas ou quatro anos.<\/p>\n<p>Estava na moda ou era uma tend\u00eancia, n\u00e3o sei bem.<\/p>\n<p>Sei que, para onde eu ia, encontrava algu\u00e9m devida e encarnadamente cal\u00e7ado.<\/p>\n<p>Neto de alfaiate por parte de pai e de chapeleiro por parte de m\u00e3e \u2013 ambos oriundis &#8211;, \u00f3bvio que tamb\u00e9m gosto de estar nos trinques com meus trapinhos, pisantes e afins.<\/p>\n<p>Portanto, n\u00e3o resisti ao primeiro sapat\u00eanis que vi na referida cor.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Ati\u00e7ou-me o ju\u00edzo que a loja estava em liquida\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O cart\u00e3o de cr\u00e9dito estava f\u00e1cil \u2013 e eu precisava decorar a nova senha.<\/p>\n<p>Pronto, deu-se o ocorrido, a compra. Cinco vezes, sem juros.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Depois da s\u00fabita e ilus\u00f3ria felicidade, veio o inevit\u00e1vel: tomar coragem para sair pela a\u00ed, com o dito-cujo anunciando minha chegada.<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o era \u2013 e ainda \u00e9 \u2013 extravagante.<\/p>\n<p>N\u00e3o tem balagand\u00e3s, nem fivelas, nem al\u00e7as, nem nada.<\/p>\n<p>\u00c9 quase discreto, quase s\u00f3brio.<\/p>\n<p>O que pega \u00e9 a cor: vermelha.<\/p>\n<p>Todo vermelho. At\u00e9 o cadar\u00e7o.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Tentei us\u00e1-lo tr\u00eas ou quatro vezes. Na festa vespertina que homenageou um amigo, numa ida ao shopping perto de casa, numa passagem de ano em que todos j\u00e1 estavam pra l\u00e1 de Marrakech.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m comentou nada. Nem uma piadinha. Nem um coment\u00e1rio sequer.<\/p>\n<p>Mesmo assim eu fiquei o tempo todo desconfort\u00e1vel na fita.<\/p>\n<p>A impress\u00e3o que eu tinha \u00e9 que estava tudo certo.<\/p>\n<p>De errado mesmo, s\u00f3 a cor do meu cal\u00e7ado: vermelha&#8230;<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Para sanar o impasse, e salvar o investimento que fiz na compra do tal patrim\u00f4nio, passei de bom grado o t\u00eanis ao meu filho que, \u00e0 \u00e9poca, tinha vinte e poucos anos \u2013 e cal\u00e7a o mesmo n\u00famero que eu.<\/p>\n<p>O garoto adorou o presente.<\/p>\n<p>Nada mais natural. A trava era minha mesmo. Coisas da idade.<\/p>\n<p>Hoje a rapaziada \u00e9 mais cabe\u00e7a. Cada qual com seu estilo. Por mais mochol\u00f3 que seja.<\/p>\n<p>Viver \u2013 e deixar viver.<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>Confesso que n\u00e3o me lembro de v\u00ea-lo usando o tal.<\/p>\n<p>Ontem, ali\u00e1s, ele fez um bota-fora nas coisas dele \u2013 e quem revejo, ilustre e altaneiro, dentro da mesma caixa de papel\u00e3o que um dia lhe entreguei?<\/p>\n<p>L\u00e1 estava a pe\u00e7a algo empoeirada, mas intacta.<\/p>\n<p>&#8212; O t\u00eanis \u00e9 lega. De errado mesmo, s\u00f3 a cor, n\u00e9, pai? T\u00eanis vermelho n\u00e3o d\u00e1.<\/p>\n<p>VIII.<\/p>\n<p>N\u00e3o preciso lhes falar que peguei o t\u00eanis de volta.<\/p>\n<p>E, para acabar com todo e qualquer, usei ontem mesmo para ir ao futebol.<\/p>\n<p>Cheguei todo faceiro ao Parque Ant\u00e1rtica. Camiseta, bermud\u00e3o e t\u00eanis \u2013 vermelho.<\/p>\n<p>IX.<\/p>\n<p>Como sempre fa\u00e7o, entrei pelo port\u00e3o da Imprensa.<\/p>\n<p>Cumprimentei o primeiro porteiro, o policial que me dispensou da \u2018revista\u2019, o segundo porteiro at\u00e9 que o terceiro porteiro, cioso do seu dever, desconsiderou minha credencial da Associa\u00e7\u00e3o dos Cronistas Esportivos do Estado de S\u00e3o Paulo, vulgo ACEESP.<\/p>\n<p>E foi taxativo.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o vou poder deixar o senhor entrar, me desculpe.<\/p>\n<p>Fiquei at\u00f4nito \u2013 e ele continuou.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o \u00e9 permitido o uso de bermudas na cabine da ACEESP.<\/p>\n<p>X.<\/p>\n<p>Achei estranho. Sem prop\u00f3sito para os dias de hoje tal restri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Dei meia volta \u2013 e at\u00e9 pensei em comprar uma cal\u00e7a de abrigo no shopping ao lado do est\u00e1dio.<\/p>\n<p>Desisti. Tive a sincera impress\u00e3o de que a proibi\u00e7\u00e3o \u00e0 bermuda foi s\u00f3 uma desculpa.<\/p>\n<p>Vi quando o senhorzinho olhou desconfiado para os meus p\u00e9s. E reparou que meu cal\u00e7ado chama mais aten\u00e7\u00e3o do que a careca do t\u00e9cnico Ant\u00f4nio Carlos.<\/p>\n<p>Foi nesse instante que ele decidiu.<\/p>\n<p>Disfar\u00e7ou com a hist\u00f3ria da bermuda, mas a decis\u00e3o foi esta:<\/p>\n<p>&#8212; Cara de t\u00eanis vermelho, aqui, n\u00e3o passa.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Certa tarde, a Constanza Pascolatto, ela mesma, elegant\u00edssima, apareceu na Reda\u00e7\u00e3o do jornal em que eu trabalhava.<\/p>\n<p>Em outra ocasi\u00e3o, passei em frente de uma livraria, onde a Glorinha Kalil participava de uma sess\u00e3o de aut\u00f3grafos de um dos tantos livros de moda que escreveu e escreve.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-11582","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11582","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11582"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11582\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":33795,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11582\/revisions\/33795"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11582"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11582"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11582"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}