{"id":11640,"date":"2010-06-03T00:00:00","date_gmt":"2010-06-03T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:36:25","modified_gmt":"2017-09-15T19:36:25","slug":"mozart-por-testemunha","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/mozart-por-testemunha\/","title":{"rendered":"Mozart por testemunha"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 um senhor pra l\u00e1 dos 70, e caminha sozinho pelas ruas de Viena.<\/p>\n<p>Um turista, por certo. Com uma jaqueta larga de grandes bolsos, repletos de mapas e um volumoso guia da cidade. Completam o figurino o chapeuzinho desses moles enfiado na cabe\u00e7a para proteg\u00ea-la do sol e a indefect\u00edvel m\u00e1quina fotogr\u00e1fica pendurada no pesco\u00e7o.<\/p>\n<p>Mais turista que isso, imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Aproxima-se lentamente de onde eu estou, em frente \u00e0 est\u00e1tua de Mozart em um dos tantos parques do Centro Hist\u00f3rico da cidade. Senta-se no banco ao meu lado e s\u00f3, ent\u00e3o, posso perceber que ele tem as fei\u00e7\u00f5es de Rubem Braga, o Sabi\u00e1 da Cr\u00f4nica brasileira.<\/p>\n<p>Fico mais apatetado do que j\u00e1 sou.<\/p>\n<p>Nunca estive sequer a um quarteir\u00e3o de dist\u00e2ncia do saudoso jornalista e escritor.<\/p>\n<p>Mas, o conhe\u00e7o desde a inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Um dos professores (n\u00e3o consigo me lembrar do nome) leu para a classe do quarto ano prim\u00e1rio uma de suas cr\u00f4nicas que falava da v\u00e9spera de S\u00e3o Jo\u00e3o em Recife. Fiquei encantado. O auor conversava com o santo e parecia que a gente magicamente participava do di\u00e1logo. N\u00e3o sei se porque est\u00e1vamos em junho, me senti pr\u00f3ximo do que aquele texto dizia. Era um jeito bom de escrever que em nada se assemelhava \u00e0s narrativas formais que \u00e9ramos obrigados a ler e analisar na Antologia Portuguesa, livro que nos servia de base para as aulas de Portugu\u00eas e, acreditem, Orat\u00f3ria.<\/p>\n<p>Retomei a leitura de Rubem Braga anos depois, no cursinho pr\u00e9-vestibular, e para a sempre.<\/p>\n<p>Tenho todos os seus livros \u2013 e os releio sempre que posso.<\/p>\n<p>Alguns trazem fotos e autos-retratos que revelam como Rubem Braga era em diversas fases da vida.<\/p>\n<p>Essas imagens v\u00eam agora \u00e0 minha mente \u2013 e eu mal consigo tirar os olhos do desconhecido que, indiferente aos meus devaneios, continua a consultar o guia que tem \u00e0s m\u00e3os.<\/p>\n<p>Bem que poderia ser o Grande Braga, penso.<\/p>\n<p>Se fosse, como me apresentaria e o que lhe diria?<\/p>\n<p>Talvez pudesse lhe deixar com certo peso na consci\u00eancia:<\/p>\n<p>&#8212; Aquele professor e o senhor t\u00eam parte de culpa pelas bobagens que escrevo.<\/p>\n<p>Que petul\u00e2ncia, a minha. Sou mesmo um sem no\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De repente, como um amigo de longa data, o simp\u00e1tico senhor me pergunta num ingl\u00eas afrancesado (que s\u00f3 entendi porque n\u00e3o domino nenhum dos dois idiomas) se preciso de ajuda. E me oferece o guia para consult\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Agrade\u00e7o como posso e, como posso, tento lhe dizer que mais tarde pretendo ir a Sch\u00f6nbrunn com um grupo de amigos que, aqui, vivem.<\/p>\n<p>Ele d\u00e1 de ombros e se despede em tom am\u00e1vel:<\/p>\n<p>&#8212; Au revoir, monsieur.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o deixo por menos, capricho na pronuncia e mando ver:<\/p>\n<p>&#8212; Au revoir, Sr. Braga. Sou seu admirador.<\/p>\n<p>** FOTO NO BLOG: Viena (arquivo pessoal)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 um senhor pra l\u00e1 dos 70, e caminha sozinho pelas ruas de Viena.<\/p>\n<p>Um turista, por certo. 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