{"id":11644,"date":"2010-06-07T00:00:00","date_gmt":"2010-06-07T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T03:56:48","modified_gmt":"2017-09-14T03:56:48","slug":"iracema-da-america","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/iracema-da-america\/","title":{"rendered":"Iracema, da Am\u00e9rica *"},"content":{"rendered":"<p>\u201cIracema voou<br \/>\nPara a Am\u00e9rica<br \/>\nLeva roupa de l\u00e3<br \/>\nE anda l\u00e9pida&#8230;\u201d<br \/>\n(Chico Buarque)<\/p>\n<p>Sam e Jennifer correm a espantar os pequenos esquilos nos jardins do Central Park.<\/p>\n<p>Iracema ri da peraltice. <\/p>\n<p>Quando chegou a Nova York, as crian\u00e7as ainda eram beb\u00eas rechonchudos, e lindos. <\/p>\n<p>O Sr. e a Sra. Thompson a contrataram como baby-sitter por recomenda\u00e7\u00e3o de uma amiga que fez l\u00e1 mesmo, assim que chegou, quando come\u00e7ou a freq\u00fcentar as aulas da escola para estrangeiros.<\/p>\n<p>O pouco que entendia do idioma s\u00f3 a deixou mais confusa quando foi apresentada ao casal:<\/p>\n<p>\u201cBrasileira, ok? Sam-ba, fu-te-bol, Pe-l\u00e9, cai-pi-ri-nhaaaa.\u201d<\/p>\n<p>At\u00e9 hoje n\u00e3o sabe se o Sr. Thompson aprovou ou lhe fez restri\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O certo \u00e9 que come\u00e7ou naquele dia mesmo.<\/p>\n<p>Eles tinham compromissos profissionais \u2013 e depois, pelo que entendeu, iriam ao teatro com amigos.<\/p>\n<p>Dali em diante, nunca mais desgrudou das crian\u00e7as. A n\u00e3o ser por um breve per\u00edodo, quando cismou de voltar ao Brasil. J\u00e1 era fluente em ingl\u00eas e trouxe na bagagem dois ou tr\u00eas certificados dos cursos de p\u00f3s que fez nas horas de folga. Imaginou que era o suficiente para retomar a vida por aqui longe do ch\u00e3o de f\u00e1brica que enfrentou por tantos anos at\u00e9 que se formou em Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Iracema n\u00e3o gosta sequer de lembrar aquele tempo.<\/p>\n<p>Sentia-se um alien\u00edgena na Universidade, pois ningu\u00e9m entendia o que uma ex-oper\u00e1ria chinfrim fazia por ali.<\/p>\n<p>A mesma sensa\u00e7\u00e3o vivia entre as ex-colegas da linha de produ\u00e7\u00e3o. Achavam-na pretensiosa. <\/p>\n<p>\u201cQuer ser bacana\u201d, diziam<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, foi assim desde que se entendeu por gente.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Tinha a idade dos g\u00eameos Sam e Jennifer quando foi morar com os tios em S\u00e3o Paulo depois que os pais se separaram na Bahia.<\/p>\n<p>Sempre viveu longe deles, s\u00f3 com raras not\u00edcias que lhe chegavam de quando em quando.<\/p>\n<p>Sabia apenas que cada um seguiu o pr\u00f3prio rumo, constitu\u00edram novas fam\u00edlias \u2013 e ela sobrou como um ap\u00eandice da vida de ambos.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, o pai ligava e, mesmo de longe, surtava a querer lhe controlar os passos.<\/p>\n<p>Depois, passava meses sem ligar.<\/p>\n<p>Na casa dos tios, n\u00e3o a tratavam mal.<\/p>\n<p>N\u00e3o que fosse um estorvo. Mas, entendia que representava uma responsabilidade, um peso a mais para a modesta fam\u00edlia em sua labuta di\u00e1ria. <\/p>\n<p>Por isso, percebia o quanto cuidavam para que logo desse um rumo adequado \u00e0 pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p>Desde cedo, portanto, descobriu-se s\u00f3.<\/p>\n<p>E nunca foi diferente. Mesmo quando namorou s\u00e9rio e para casar com Marcelo ou se envolveu com Pedro, aquele advogado falastr\u00e3o, vinte anos mais velho, ou ainda ao se amarrar com Alfredo, vendedor e desquitado que queria, por toda a lei, que fosse morar com ele.<\/p>\n<p>O emprego de recepcionista, o fim do curso na universidade p\u00fablica, os amores destrambelhados. Foi mesmo um per\u00edodo tumultuado, em todos os sentidos. <\/p>\n<p>Estava com Alfredo quando resolveu topar o desafio do interc\u00e2mbio.<\/p>\n<p>Ele insistia para que mudasse de mala e cuia para o sobrado elegante em um bairro discreto da periferia de S\u00e3o Paulo. Teriam uma vida pacata e, na medida do poss\u00edvel, tranquila.<\/p>\n<p>A receita parecia infal\u00edvel. <\/p>\n<p>Habituara-se a viver com pouco, quase nada \u2013 e ele era s\u00f3 aten\u00e7\u00e3o e carinho.<\/p>\n<p>N\u00e3o tinha do que reclamar.<\/p>\n<p>Por fim, iria constituir uma fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Marcelo era s\u00f3 um garoto e, com ele, viveu o primeiro grande amor. Foi bonito, e triste.<\/p>\n<p>Pedro, ao contr\u00e1rio. Um desses canalhas que toda mulher precisa conhecer ao menos uma vez na vida. Divertido, imprevis\u00edvel \u2013 e incontrol\u00e1vel.<\/p>\n<p>S\u00f3 aparecia quando lhe dava na telha, e com objetivos deliciosamente claros.<\/p>\n<p>Alfredo, n\u00e3o. Sempre lhe pareceu o porto seguro.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Mesmo assim, e talvez por ser exatamente assim, insistiu na ideia da viagem \u2013 e, reconheceu depois, acabou por estragar o dia-a-dia dos dois.<\/p>\n<p>Quando partiu sabiam que, embora houvesse planos para ficarem juntos, n\u00e3o teriam futuro.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, tempos depois, quando pensou em voltar, cogitou essa possibilidade.<\/p>\n<p>Mas, n\u00e3o se entusiasmou.<\/p>\n<p>Chegou em meados de dezembro \u2013 e aqui encontrou tudo exata e tediosamente igual ao dia que partiu, tr\u00eas anos antes.<\/p>\n<p>Arrumou umas aulas de ingl\u00eas para defender o m\u00eas. Mas, nem a casa dos tios, nem o rala-e-rola com Alfredo eram mais os mesmos.<\/p>\n<p>Resultado.<\/p>\n<p>N\u00e3o esperou o carnaval para se enfiar dentro de um avi\u00e3o. De volta para Nova York.<\/p>\n<p>Decis\u00e3o dif\u00edcil, mas logo percebeu: aqui n\u00e3o era mais o seu lugar. <\/p>\n<p>Tudo lhe pareceu estranho e inadequado.<\/p>\n<p>Tentou um jantar decente com Pedro para conversarem. Nem chegou a se concretizar.<\/p>\n<p>Ao ouvir sua voz ao telefone, cantarolou os versos de Chico Buarque:<\/p>\n<p>\u201cUns dias, afoita<br \/>\nMe liga a cobrar<br \/>\n&#8211; \u00c9 Iracema da Am\u00e9rica\u201d<\/p>\n<p>Talvez fosse divertido rev\u00ea-lo. <\/p>\n<p>Seria dif\u00edcil resistir \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o. Sabia, de cor, todos os truques do malandro.<\/p>\n<p>E ca\u00eda em todos, com gosto e vol\u00fapia.<\/p>\n<p>Um breve arrepio lhe correu o corpo.<\/p>\n<p>Seria o vento frio de todo fim de tarde ou s\u00f3 o remorso do encontro que n\u00e3o aconteceu?<\/p>\n<p>N\u00e3o esperou a resposta.<\/p>\n<p>Olhou as crian\u00e7as e as chamou para perto de si. <\/p>\n<p>Hora de recolh\u00ea-las e voltar para a casa da fam\u00edlia Thompson.<\/p>\n<p>N\u00e3o se sentia mais uma intrusa. <\/p>\n<p>Ali, naquele exato momento, era s\u00f3 Iracema. <\/p>\n<p>\u201cIracema da Am\u00e9rica\u201d, como Pedro lhe chamou na \u00faltima vez que ouviu sua voz.<\/p>\n<p>Saudade?<\/p>\n<p>Pode ser. Mas n\u00e3o muita&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cIracema voou<br \/>\nPara a Am\u00e9rica<br \/>\nLeva roupa de l\u00e3<br \/>\nE anda l\u00e9pida&#8230;\u201d<br \/>\n(Chico Buarque)<\/p>\n<p>Sam e Jennifer correm a espantar os pequenos esquilos nos jardins do Central Park.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-11644","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-parangoles"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11644","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11644"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11644\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13947,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11644\/revisions\/13947"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11644"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11644"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11644"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}