{"id":11695,"date":"2010-08-08T00:00:00","date_gmt":"2010-08-08T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:35:35","modified_gmt":"2017-09-15T19:35:35","slug":"um-cara-de-sorte","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/um-cara-de-sorte\/","title":{"rendered":"Um cara de sorte"},"content":{"rendered":"<p>Tinha poucas certezas na vida.<\/p>\n<p>Uma delas, talvez a \u00fanica, era acreditar que todos temos um destino \u2013 que manda e desmanda, faz e acontece, abre e fecha, imp\u00f5e encontro e desencontros.<\/p>\n<p>Dizia, com jeito sereno:<\/p>\n<p>&#8212; H\u00e1 quem chame isso tudo de sorte. Outros, de azar.<\/p>\n<p>Mas, gostava de lembrar:<\/p>\n<p>&#8212; A maioria nem se d\u00e1 conta da vida que leva.<\/p>\n<p>No fundo, no fundo, segundo sua intrincada tese, foi o destino que sempre nos levou para onde bem entendesse.<\/p>\n<p>Os que se dizem racionais, acrescentava ele, preferem acreditar que o destino n\u00e3o existe por si s\u00f3:<\/p>\n<p>&#8212; Assim, se fizerem tudo nos conformes estar\u00e3o livres das trapa\u00e7as da sorte, das armadilhas do acaso, do fogo do inferno.<\/p>\n<p>O pai era um cara simples.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei de ontem veio toda essa filosofia. <\/p>\n<p>N\u00e3o estudou al\u00e9m do prim\u00e1rio \u2013 e sempre tocou a vida do jeito que p\u00f4de e deu. Trabalhou como uma esp\u00e9cie de crupi\u00ea na Casa Lopes e, depois que Get\u00falio Vargas proibiu a jogatina no Pa\u00eds, foi ser oper\u00e1rio em uma f\u00e1brica de pano ( hoje, mais conhecida como ind\u00fastria t\u00eaxtil) no Cambuci.<\/p>\n<p>Aposentou-se perto dos 60 porque a f\u00e1brica entrou em concordata e os m\u00e9dicos do INSS diagnosticaram uma precoce angina no cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os amigos do Bar Ast\u00f3ria tentaram lhe consolar quando souberam do parecer m\u00e9dico:<\/p>\n<p>&#8212; Caspita, Aldo, sempre soubemos quer voc\u00ea tinha um grande cora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o precisava exagerar, belo!<br \/>\n Tome uma ta\u00e7a de um bom vinho que isso passa.<\/p>\n<p>N\u00e3o passou. Mas, o Ald\u00e3o, como eu o chamava, embora tivesse apenas 1.68 de altura, viveu at\u00e9 os 82 anos. Tamb\u00e9m n\u00e3o era l\u00e1 um grande beber\u00e3o. Sabia, sim, e como raros, viver sempre rodeado de amigos.<\/p>\n<p>J\u00e1 por volta dos 80, mesmo morando em outra cidade, era figurinha f\u00e1cil de encontrar na padaria, em frente \u00e0 banca de jornal, na porta da barbearia ou defendendo o Lula entre os motoristas do ponto de t\u00e1xi em frente ao apartamento em que morava.<\/p>\n<p>Ainda hoje, mais de dez anos depois que o pai se foi, ainda encontro pessoas que dizem sentir a  falta que o Velho faz por ali. Lembram a centena em que apostava diariamente no jogo do bicho (alguns ainda seguem os tais n\u00fameros que nunca decorei), o carinho e a aten\u00e7\u00e3o que dedicava \u00e0s crian\u00e7as (que o chamavam de V\u00f4 Aldo) e a habitual simpatia para com as mulheres (que deixava minha m\u00e3e fula da vida).<\/p>\n<p>&#8212; Seu pai soube viver. L\u00e1 do jeito dele foi um cara de sorte&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 o que dizem \u2013 n\u00e3o sei se um dia ouviram dele a tal teoria, mas eu concordo plenamente.<\/p>\n<p>Querem saber?<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m me considero um sortudo por t\u00ea-lo como pai.<\/p>\n<p>(\u00c9 uma das raras certezas que tenho na vida!)<\/p>\n<p>** Pr\u00e9-lan\u00e7amento do livro<br \/>\nMEUS CAROS AMIGOS &#8211;<br \/>\nCr\u00f4nicas sobre jornalistas,<br \/>\nbo\u00eamios e paix\u00f5es (foto)<\/p>\n<p>http:\/\/www.lojadadireta.com.br\/produtos_descricao.asp?lang=pt_BR&#038;codigo_produto=529<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tinha poucas certezas na vida.<\/p>\n<p>Uma delas, talvez a \u00fanica, era acreditar que todos temos um destino \u2013 que manda e desmanda, faz e acontece, abre e fecha, imp\u00f5e encontro e desencontros.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-11695","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11695","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11695"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11695\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16280,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11695\/revisions\/16280"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11695"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11695"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11695"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}