{"id":11717,"date":"2010-08-31T00:00:00","date_gmt":"2010-08-31T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2018-03-29T20:52:04","modified_gmt":"2018-03-29T20:52:04","slug":"jornal-do-brasil-memorias-de-um-secretario-pautas-e-fontes","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/jornal-do-brasil-memorias-de-um-secretario-pautas-e-fontes\/","title":{"rendered":"Jornal do Brasil &#8211; Mem\u00f3rias de um Secret\u00e1rio, Pautas e Fontes"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>por Alfredo Herkenhoff<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Este livro nasceu, fundamentalmente, como uma explos\u00e3o emocional na esteira do an\u00fancio feito pelo JB, estipulando o 1\u00ba de setembro de 2010 como data do encerramento do ciclo das edi\u00e7\u00f5es impressas, passando o di\u00e1rio centen\u00e1rio a ter somente vers\u00e3o digital na internet. Iniciado nos anos 90, escrito em boa parte entre 2004 e 2005 e finalmente arrematado em 2010, Pautas e Fontes cont\u00e9m dezenas de depoimentos de profissionais com passagens, na maioria, pelo Jornal do Brasil.<\/p>\n<p>Sem abrir m\u00e3o de sua estrutura original de caleidosc\u00f3pio, o livro procura revelar, de forma meio funambulesca, os valores, os preconceitos, a arrog\u00e2ncia e o humor de todos n\u00f3s. Pretende ser uma contribui\u00e7\u00e3o para quem quiser conhecer aspectos pouco divulgados do cotidiano da produ\u00e7\u00e3o de reportagem.<\/p>\n<p>Deu no JB em 14 de julho de 2010: \u201cO Jornal do Brasil, coerente com sua tradi\u00e7\u00e3o de pioneirismo e modernidade, se coloca mais uma vez \u00e0 frente do seu tempo. A partir de 1\u00ba de setembro de 2010, passa a ser o primeiro jornal 100% digital\u201d.<\/p>\n<p>Este an\u00fancio informa que, com a mudan\u00e7a, o pre\u00e7o da assinatura cair\u00e1 de R$ 49,90 para R$ 9,90 por m\u00eas. O jornal fala em modernidade, como se vers\u00e3o digital fosse coisa nova. O JB foi o primeiro a entrar na internet no pa\u00eds. O comunicado tenta dar uma ideia de moderniza\u00e7\u00e3o, quando aparenta apenas anunciar a paralisa\u00e7\u00e3o das edi\u00e7\u00f5es impressas. Estima-se que a mudan\u00e7a vai provocar corte de pessoal entre os \u00faltimos colegas do JB, que morre na banca e assim entristece os valorosos 180 \u00faltimos funcion\u00e1rios, dos quais 60 na reda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O gestor Nelson Tanure disse apenas que o jornal fez uma consulta aos leitores pela internet em junho de 2010 e eles apoiaram a mudan\u00e7a. Mas soou estranho uma casa que j\u00e1 teve quase 80 mil assinantes, um p\u00fablico altamente qualificado de leitores, anunciar que \u201co JB vai sair do papel e entrar para a modernidade&#8221;.<br \/>\nPedro Grossi Jr., presidente do JB, anunciou o seu desligamento da casa por considerar que o an\u00fancio do fim da edi\u00e7\u00e3o impressa era inaceit\u00e1vel. Ele estava no cargo desde mar\u00e7o de 2010, tendo antes trabalhado no setor de marketing do jornal. Pedro Grossi n\u00e3o escondeu de ningu\u00e9m que ficou magoado com Nelson Tanure, com quem h\u00e1 anos vinha trabalhando.<\/p>\n<p>Converso com colegas jornalistas e vou observando nossas emo\u00e7\u00f5es. Acostumados que est\u00e1vamos, e estamos, com tantas mazelas pol\u00edtico-sociais, queremos sempre apontar culpados, nem que para isso difamemos ou desonremos algu\u00e9m. Especialmente quando o tema suscita tantas paix\u00f5es como \u00e9 jornalismo e como \u00e9 o JB.<\/p>\n<p>Causas e culpas envolvendo a decad\u00eancia do Jornal do Brasil demandam investiga\u00e7\u00e3o profunda e an\u00e1lises m\u00faltiplas. N\u00e3o consigo, pessoalmente, condenar ningu\u00e9m aqui e agora. N\u00e3o me sinto confort\u00e1vel para pretender ser a palmat\u00f3ria do mundo. N\u00e3o tenho como definir se foi a ditadura, a concorr\u00eancia ou os desmandos administrativos que levaram o JB \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o. Talvez, o conjunto desses fatores.<\/p>\n<p>E o que est\u00e1 em jogo n\u00e3o \u00e9 a honra dos verdadeiros chefes do jornal nos \u00faltimos 50 anos: Dr. Manoel Francisco do Nascimento Brito ou seu filho, Jos\u00e9 Antonio, o Josa nos Anos 90, ou do gestor da marca, Dr. Nelson Tanure, no S\u00e9culo XXI. Poderia parecer grito no escuro qualquer tentativa de, nessa hora t\u00e3o dif\u00edcil, acusar e ridicularizar os tr\u00eas comandantes de um navio \u00e0 deriva h\u00e1 d\u00e9cadas e enfrentando concorr\u00eancia avassaladora de O Globo a partir do nascimento e crescimento da TV Globo em 1965. O processo de decad\u00eancia tamb\u00e9m \u00e9 fruto de cultura do desperd\u00edcio de recursos e de sua m\u00e1 aplica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Jornal do Brasil padece de uma longa crise financeira, uma bola de neve de passivos fiscais e trabalhistas, pouca diferen\u00e7a fazendo definir se a d\u00edvida totaliza 100 milh\u00f5es disso, ou 100 milh\u00f5es daquilo, 1 bilh\u00e3o de reais ou 1 bilh\u00e3o de d\u00f3lares. Impag\u00e1vel sem uma costura pol\u00edtica que atraia capitais de forma segura.<\/p>\n<p>Com a migra\u00e7\u00e3o para a \u201cmodernidade\u201d, predomina o temor das \u00faltimas demiss\u00f5es. Para muitos vai ocorrer isso sim, mas, por outro lado, temos exemplos de jornais e revistas que j\u00e1 nasceram exclusivamente no suporte digital e fazem grande sucesso no exterior. Nos Estados Unidos, por exemplo, o Huffington Post (HP) \u00e9 um case digno de estudos, a caminho de receber 10 milh\u00f5es de hits por dia. Na It\u00e1lia, o site Dagospia est\u00e1 bombado h\u00e1 anos, e sempre crescendo. Visitar endere\u00e7os como esses se tornou h\u00e1bito cotidiano mesmo entre velhos leitores do The New York Times e Corriere della Sera.<\/p>\n<p>Os filhos de Dr. Brito reagiram ao an\u00fancio de Tanure com poucas palavras. Disseram nada saber dos planos do gestor. O fim da edi\u00e7\u00e3o impressa do JB foi noticiado imediatamente pelos principais jornais do Brasil e do Mundo.<\/p>\n<p>A decad\u00eancia do JB come\u00e7ou a se tornar mais vis\u00edvel nos anos 80, na esteira da crescente concorr\u00eancia de O Globo ancorado na publicidade maci\u00e7a da televis\u00e3o desde a d\u00e9cada anterior. Mas antes de se tornar vis\u00edvel, a senten\u00e7a de morte j\u00e1 havia sido proferida. Josa disse numa ocasi\u00e3o que o JB, para ter o mesmo n\u00famero de minutos de publicidade do Globo na TV Globo, precisaria gastar 40 milh\u00f5es de d\u00f3lares apenas em um ano.<\/p>\n<p>Na virada dos anos 80 para os anos 90 afloraram as grandes crises financeiras no JB, os primeiros atrasos no pagamento de sal\u00e1rios. Os bancos, que antes premiavam erros administrativos do JB mediante sucessivos empr\u00e9stimos, fecharam a porta para a fam\u00edlia Brito.<\/p>\n<p>A circula\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a cair vertiginosamente.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi surpresa quando, em 1995, o Banco Nacional quebrou, e ningu\u00e9m noticiou que o JB, s\u00f3 a esta institui\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia Magalh\u00e3es Pinto, devia cerca de 50 milh\u00f5es de d\u00f3lares. Pelo menos \u00e9 o que o alto escal\u00e3o na reda\u00e7\u00e3o, nas internas, dizia na \u00e9poca. Pouco depois, quebraria o Banco Econ\u00f4mico, e de novo l\u00e1 estava o JB na lista dos maiores devedores, algo em torno de 10 milh\u00f5es de d\u00f3lares, sempre segundo editores com quem privei naquela correria de atualizar e melhorar a edi\u00e7\u00e3o em cima do fechamento ou j\u00e1 durante a rodada, posto que ainda havia luta renhida com o concorrente O Globo. Era um tempo em que o real praticamente tinha paridade com o d\u00f3lar, da\u00ed porque tanto se falava em moeda brasileira quanto americana.<\/p>\n<p>O brocardo jur\u00eddico \u201conde n\u00e3o h\u00e1 at\u00e9 o rei perde o direito\u201d se aplicou bem ao jornal. O JB perdeu o cr\u00e9dito, n\u00e3o mais conseguiu facilidade para rolar a bola de neve. Aqui um par\u00eantese: houve um tempo em que os v\u00ednculos entre grandes jornais e bancos eram t\u00e3o estreitos que o Nacional, por exemplo, chegou a criar, informalmente, uma ger\u00eancia especial para cuidar dessas rela\u00e7\u00f5es com a elite da imprensa. Um nome de destaque do jornal podia entrar em qualquer ag\u00eancia do Banco Nacional e ir diretamente ao caixa para dizer: preciso levar 5 mil. O rapazola estranharia e iria ao gerente. Este daria um telefonema. Minutos depois, o empr\u00e9stimo efetuado, e o jornalista ou diretor sorridente ouviria: assina aqui esse papelzinho para parecer que n\u00e3o \u00e9 uma doa\u00e7\u00e3o. Resta saber se a tal d\u00edvida de 50 milh\u00f5es inclu\u00eda esses papagaios que velhos atrasadores, amigos dos poderosos, pegavam para comemorar mais uma edi\u00e7\u00e3o de sucesso. Deu no que deu. E hoje, se algu\u00e9m se dispusesse a calcular juros superpostos, e escorchantes, n\u00e3o poderia descobrir que o JB deve bilh\u00e3o de d\u00f3lares de reais? O n\u00famero, n\u00e3o importa qual moeda, \u00e9 t\u00e3o grande que se tornou rid\u00edculo, um valor irris\u00f3rio. A d\u00edvida foi consolidada, morta pelo tempo. No longo prazo estaremos todos mortos, incluindo os centavos dos trilh\u00f5es. A d\u00edvida do JB virou um mist\u00e9rio a engordar os sucessivos rombos da impossibilidade da vi\u00fava. Cifras como \u00f3vulos est\u00e9reis.<\/p>\n<p>Entre tantas manobras financeiras, nada sobrou mesmo para pagamento priorit\u00e1rio das indeniza\u00e7\u00f5es a funcion\u00e1rios, como manda a lei, e n\u00e3o a cumpre t\u00e3o bem a Justi\u00e7a do Trabalho em se tratando de jornal.<\/p>\n<p>Tanure entrou de fato na empresa em 2001, mas ao contr\u00e1rio das expectativas, investiu pouco e mal. Em 2003, o jornal ensaiou um crescimento nas vendas. Mas Tanure j\u00e1 tinha tomado gosto pelo troca-troca de comando na reda\u00e7\u00e3o. Veio o pessimismo. Alterando par\u00e2metros a torto e direito, o jornal virou tabloide. Os anos foram passando e nada. Algumas tentativas como a de oferecer o jornal a R$ 1 deram algum \u00edmpeto. Mas neste 2010 o JB mostrou a debilidade em n\u00fameros cru\u00e9is: venda de apenas cerca de 15 mil exemplares por dia.<\/p>\n<p>Pedro Grossi disse de p\u00fablico que gostaria que o jornal continuasse na vers\u00e3o impressa, n\u00e3o sendo segredo nenhum de que o ex-presidente negociou alternativas nos bastidores, apesar de tanto descr\u00e9dito, tantas d\u00edvidas, tantas dificuldades.<\/p>\n<p>Revista Forbes, Editora Peixes, JBTV na CNT, Gazeta Mercantil! Definitivamente, a julgar pelos \u2018\u2018primeiros\u201d 10 anos, Tanure n\u00e3o casa bem com comunica\u00e7\u00e3o. Provavelmente sentiu que seu 31 de agosto seria triste, homem deprimido por n\u00e3o ter conseguido manter o JB nas bancas ao amanhecer de 1\u00ba de setembro. Para al\u00e9m dos erros que Tanure cometeu, n\u00e3o acredito que qualquer outro empres\u00e1rio pudesse ter salvado o jornal com tamanha d\u00edvida e com uma legisla\u00e7\u00e3o engessada, respons\u00e1vel em boa parte pelo atraso da economia brasileira na globaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tecnicamente, a fam\u00edlia Brito arrendou a marca JB por 60 anos \u00e0 Companhia Brasileira de Multim\u00eddia (CBM), controlada pela Docasnet, de Tanure. A CBM tamb\u00e9m arrendou a marca Gazeta Mercantil em 2003\/2004, mas este jornal de economia saiu das bancas em 2009. Ou seja, Tanure n\u00e3o compra jornais, apenas compra o direito de usar as marcas pelo per\u00edodo que julgar necess\u00e1rio, de 60 anos a seis meses. Apenas aluga as marcas. E a bem da verdade, Tanure n\u00e3o matou o JB. Garantiu-lhe uma fr\u00e1gil sobrevida de 10 anos. Apesar de todos os erros, este m\u00e9rito ningu\u00e9m tira do controvertido empres\u00e1rio baiano.<\/p>\n<p>Talvez ningu\u00e9m concorde com minha opini\u00e3o, mas mesmo no meio deste caos, notei que havia pessoas torcendo, no fundo, para um dia poder saudar Nelson Tanure como o entrepreneur que, al\u00e9m das apar\u00eancias, contra todos os d\u00e9bitos e enfrentando tudo, descr\u00e9dito e especialmente a pr\u00f3pria inexperi\u00eancia, sa\u00edsse vitorioso dessa aventura de salvar o Jornal do Brasil, primeiro da fam\u00edlia Nascimento Brito, depois dele pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>At\u00e9 eu me vi nesse pequeno grupo, torcendo, mas a cada instante com menos esperan\u00e7a. E assim chegamos a setembro de 2010 com a sensa\u00e7\u00e3o de que o JB chegou ao fim da linha porque o an\u00fancio de que passar\u00e1 a ter s\u00f3 edi\u00e7\u00f5es digitais \u00e9 semelhante ao feito por ocasi\u00e3o do encerramento da vers\u00e3o impressa da Gazeta Mercantil, que Tanure fechou em junho de 2009. E desde ent\u00e3o nada de Gazeta 100% digital.<\/p>\n<p>Por outro lado, contra a opini\u00e3o geral, o JB poderia sim ter a agonia deste 2010 prolongada para assinantes acreditando na fase da vers\u00e3o digital. Mas se no tempo que n\u00e3o se cobrava pelo acesso ao site do JB n\u00e3o havia tanta visita\u00e7\u00e3o por que acreditar agora que o portal vai ter sucesso ao pre\u00e7o de R$ 9,90 por m\u00eas? O problema n\u00e3o ser\u00e1 o pre\u00e7o, mas a qualidade do servi\u00e7o.<\/p>\n<p>E mesmo com menos esperan\u00e7a, e apesar da contribui\u00e7\u00e3o milion\u00e1ria de todos os erros de Tanure e dos que o precederam, ainda vejo vivo o Jornal da Condessa, preso \u00e0 vida por um fio digital.<\/p>\n<p>Para uma sobrevida adicional, o JB precisaria de um apoio emergencial, como o que Tanure lhe deu em 2001, mas agora investimento a ser tocado a partir da experi\u00eancia dos jornais digitais que mais fazem sucesso no mundo. Os portais brasileiros de maior p\u00fablico s\u00e3o poucos e bem conhecidos, s\u00e3o concorrentes entre si e representantes de grandes empresas num caldeir\u00e3o de mexericos e not\u00edcias curtas e chapadas que emergem do sistema de clonagem total via control C, control V.<\/p>\n<p>J\u00e1 empreendimentos vitoriosos, como o citado Huffington Post, sim, estes merecem um estudo para pensar perspectivas de o JB tirar li\u00e7\u00f5es e multiplicar leitores como se fossem peixes milagrosos, internautas \u00e1vidos da melhor qualidade a ser oferecida. O Huffington \u00e9 um portal de visita di\u00e1ria obrigat\u00f3ria de milh\u00f5es de pessoas porque s\u00e3o janelas \u00e1geis, claro, sim, ve\u00edculo pleno de control C e control V, mas este recurso usado com o sentido de edi\u00e7\u00e3o voltado para o interesse do internauta, o leitor vendo o melhor que se edita em tempo real, 24 horas por dia, com o melhor conte\u00fado jornal\u00edstico, dos EUA e do mundo, para p\u00fablicos espec\u00edficos, ou com o melhor conte\u00fado estrangeiro vertido para a l\u00edngua hegem\u00f4nica. Internautas que o visitam recebem avisos de conte\u00fado espec\u00edfico. Se eu gosto de esporte, posso receber mensagens de twitters do Huffington neste campo. E assim por diante, se gosto de mexerico de Hollywood verei nesse HP o melhor de Angelina Jolie etc. Se gosto de fotos e youtubes, verei as melhores novidades do dia via HP 100% digital. E assim esse jornal exclusivamente da web vai numa pegada incr\u00edvel. Recebe apoio de empresas grandes e pequenas, de gente comum ao presidente Barack Obama. O Huffington vai criando uma massa de seguidores fieis a devorar o conte\u00fado apenas das editorias de maior interesse de cada grupo desses leitores-internautas.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que o JB, neste momento t\u00e3o dif\u00edcil, tem bala para surpreender mais uma vez? Se o JB Digital bombasse, ainda assim os recursos dos anunciantes seriam arrestados por ordem judicial para fazer frente ao passivo trabalhista da fase impressa pr\u00e9-Tanure. Ent\u00e3o, n\u00e3o. N\u00e3o se v\u00ea luz no fim do t\u00fanel. O JB impresso est\u00e1 desaparecendo por causa da conflu\u00eancia de fatores negativos como se pode observar, neste Mem\u00f3rias de um Secret\u00e1rio, nas an\u00e1lises de figuras emblem\u00e1ticas como Alberto Dines, Wilson Figueiredo e Nilo Dante.<\/p>\n<p>O desaparecimento total das bancas s\u00f3 se tornar\u00e1 uma f\u00eanix digital se os Tr\u00eas Poderes em Bras\u00edlia tomarem a decis\u00e3o pol\u00edtica de assumir a parcela maior do \u00f4nus. O JB est\u00e1 sendo riscado do mapa das bancas porque isso parece tamb\u00e9m desejo dos ocupantes dos pal\u00e1cios que Oscar Niemeyer projetou no Distrito Federal, com burocratas no topo do poder desprezando o troco que a Hist\u00f3ria lhes reserva por ignorarem que bom jornalismo e boa educa\u00e7\u00e3o s\u00e3o as faces de uma mesma moeda chamada desenvolvimento social.<\/p>\n<p>Esses \u00faltimos par\u00e1grafos s\u00e3o quase um lugar-comum, voz corrente, opini\u00e3o da maioria na ladainha de lamentos da chamada Fam\u00edlia JB. Mas \u00e9 emocionante receber a colabora\u00e7\u00e3o do velho diagramador especial Nelio Horta \u2014 um baluarte do jornal desde o tempo da condessa \u2014 exalando esperan\u00e7a, otimismo no caos, dizendo-nos, em seu depoimento para este livro, que o JB Digital j\u00e1 \u00e9 uma realidade. Emo\u00e7\u00e3o semelhante me causou o otimismo de Wilson Figueiredo no texto que enviou a este nosso livro.<\/p>\n<p>O objetivo do instant book, al\u00e9m de uma confraterniza\u00e7\u00e3o entre profissionais da imprensa no Rio de Janeiro, \u00e9 mais contribuir para agu\u00e7ar esp\u00edritos cr\u00edticos do que afirmar certezas sobre uma segunda chance para o JB. Sem nenhuma linha cronol\u00f3gica, ou linha do tempo, Pautas e Fontes dialoga com a Hist\u00f3ria mas sem sequer fazer um levantamento de todas as vers\u00f5es ou interpreta\u00e7\u00f5es relativas \u00e0 extin\u00e7\u00e3o de tantos jornais e \u00e0 quase morte do JB.<\/p>\n<p>Mas sim, boa parte do meu tempo ao iniciar este livro contemplou um sonho \u2014 frustrado \u2014 de promover reflex\u00f5es que ajudassem o JB a escapar do processo de decad\u00eancia que ganhou \u00edmpeto nos anos 80.<\/p>\n<p>Como novidade editorial, o livro cont\u00e9m algumas pautas que, por acaso, n\u00e3o foram jogadas no lixo da reda\u00e7\u00e3o, como \u00e9 praxe. Sem maiores crit\u00e9rios de import\u00e2ncia, algumas dessas pautas sobreviventes est\u00e3o agora ilustrando uma faceta rotineira de profiss\u00e3o t\u00e3o ligada ao acaso. Est\u00e3o aqui como foram forjadas no ambiente original no Jornal do Brasil na \u00faltima d\u00e9cada do S\u00e9culo XX. Algumas est\u00e3o condensadas, congregando tempos diferentes do desenrolar do notici\u00e1rio. Algumas est\u00e3o agrupadas com outras de casos semelhantes, formando um \u00e1lbum de figurinhas sobre agita\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica. E por mais corriqueiras e sem import\u00e2ncia que sejam algumas dessas pautas, algumas formuladas por mim quando fui chefe de reportagem, outras por gente que nem sei mais quem foi, tem elas na maioria a \u201cassinatura an\u00f4nima\u201d de Jos\u00e9 Gon\u00e7alves Fontes. A decis\u00e3o de guard\u00e1-las \u00e9 fato raro no jornalismo e na sua literatura.<\/p>\n<p>O livro tem um pouco daquela marca que, nesses tempos eletronicamente tribais, \u00e9 refletida pela express\u00e3o \u201cex-JB\u201d, fam\u00edlia de ex-funcion\u00e1rios que cresceu na medida em que as dificuldades do setor impuseram degrada\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de trabalho. A redu\u00e7\u00e3o de quadros se dando por necessidade de conten\u00e7\u00e3o de custos, com demiss\u00e3o for\u00e7ada e, ao mesmo tempo, por decad\u00eancia financeira que afugenta diversos jornalistas. A fam\u00edlia ex-JB brilha por todo canto, sempre saudosa, torcendo n\u00e3o por um \u201cpassado t\u00e3o risonho, que n\u00e3o volta nunca mais\u201d, como na m\u00fasica de Noel Rosa, mas, pelo menos, para que a velha casa continue a merecer o respeito da sociedade. Este livro come\u00e7ou a ser pensado por profissional do JB. Na conclus\u00e3o da obra, a fam\u00edlia ex-JB estava um pouco maior, ou mesmo completa, na porta do inferno das ruas do desemprego, com toda esperan\u00e7a deixada de lado.<\/p>\n<p>Muitas passagens do livro s\u00e3o did\u00e1ticas, voltadas n\u00e3o para jornalistas amigos, mas para estudantes de Comunica\u00e7\u00e3o aturdidos com a decis\u00e3o da Justi\u00e7a de acabar com a exig\u00eancia de diploma para exercer a profiss\u00e3o. S\u00e3o muitos exemplos e orienta\u00e7\u00f5es sobre relacionamento com rep\u00f3rteres. Esse aspecto talvez tenha serventia para jovens querendo descobrir voca\u00e7\u00f5es e tamb\u00e9m assessores de imprensa. Outras passagens produzi pensando num afago a velhos colegas da profiss\u00e3o, havendo nessas p\u00e1ginas uma oportunidade para relembrar bons momentos, ou um pretexto para matar saudades.<\/p>\n<p>O jornalismo, como institui\u00e7\u00e3o, recebe um foco em seus bastidores. No meu olhar \u00edntimo de autor, o livro \u00e9, basicamente, de mem\u00f3rias afetivas de um secret\u00e1rio na cozinha da reda\u00e7\u00e3o. Casos folcl\u00f3ricos permeiam o ritmo vertiginoso das p\u00e1ginas num processo doloroso que entrega, de bandeja, momentos de fraqueza e pitadas de intrepidez. Tamb\u00e9m h\u00e1 relatos de dezenas de jornalistas sobre a emocionante experi\u00eancia de produzir reportagem.<\/p>\n<p>Ao longo deste livro, que \u00e9 um exerc\u00edcio de liberdade, n\u00e3o h\u00e1 preocupa\u00e7\u00e3o, propriamente, com a precis\u00e3o hist\u00f3rica dos fatos, ou com o seu desfecho ou sua grandeza, mas com experi\u00eancias e reflex\u00f5es no of\u00edcio de informar. Os fatos e os jornais em que algumas situa\u00e7\u00f5es se desenrolaram s\u00e3o elementos, eventualmente, coadjuvantes, n\u00e3o necessitando os fatos de extensas explica\u00e7\u00f5es, nem os jornais de men\u00e7\u00e3o expl\u00edcita o tempo todo. Desse modo, no conjunto, os jornalistas aparecem aqui como integrantes de uma institui\u00e7\u00e3o s\u00f3, independentemente dos jornais em que estejam prestando servi\u00e7o.<\/p>\n<p>Eventual omiss\u00e3o de nomes \u00e9 inevit\u00e1vel entre centenas de men\u00e7\u00f5es. O ambiente \u00e9 a institui\u00e7\u00e3o, s\u00e3o todos os jornais e todos os jornalistas. Uma omiss\u00e3o, se deliberada, pode at\u00e9 ser entendida como antijornalismo, sonega\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o. Aqui, sem objetivo de alcan\u00e7ar o imposs\u00edvel, h\u00e1 uma tentativa de citar o maior n\u00famero poss\u00edvel de coleguinhas da fam\u00edlia JB, mero aceno aos bons tempos, entre saudades e uma esperada confraterniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tomara que a leitura possa propiciar, para al\u00e9m das falhas, que n\u00e3o s\u00e3o poucas, um pouco de prazer e reflex\u00f5es sobre os casos descritos e sobre a pr\u00f3pria profiss\u00e3o. A leitura tamb\u00e9m permite descobrir erros e suscitar d\u00favidas.<\/p>\n<p>Reunindo uma razo\u00e1vel quantidade de informa\u00e7\u00f5es, ainda assim, este livro \u00e9 apenas mais um que contribui para quem se dispuser a fazer levantamento mais completo sobre jornalismo carioca e seus profissionais na segunda metade do S\u00e9culo XX e no in\u00edcio do S\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>Com a decis\u00e3o de escrev\u00ea-lo, a homenagem, j\u00e1 no t\u00edtulo, ao rep\u00f3rter Jos\u00e9 Gon\u00e7alves Fontes, um recordista de Pr\u00eamios Esso para o Jornal do Brasil e que morreu de c\u00e2ncer em 31 de julho de 2000. Tendo no pr\u00f3prio sobrenome a origem de toda boa reportagem, Fontes era dono de excepcional tiroc\u00ednio para detalhar os aspectos poss\u00edveis de uma investiga\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica. Fontes organizava pautas que nem sempre o jornalismo corrido dos dias de hoje costuma explorar integralmente.<br \/>\nEm algumas velhas pautas, Fontes se intitula &#8220;Advogado do Diabo&#8221; para deixar claro que se deve desconfiar da pr\u00f3pria sombra quando se trata de apura\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica. O colega seguia \u00e0 risca aquele ditado russo que talvez at\u00e9 desconhecesse: &#8220;Confie, mas verifique.&#8221;<\/p>\n<p>Seria o livro t\u00e3o ef\u00eamero quanto um jornal, n\u00e3o tratasse justo do aspecto passageiro dos fatos e de sua produ\u00e7\u00e3o como not\u00edcias. Trata-se, portanto, de um exerc\u00edcio sobre lembran\u00e7as, sobre o tempo das not\u00edcias e sobre o pr\u00f3prio tempo, escasso, que n\u00f3s, jornalistas e leitores, temos para nos mostrarmos \u00e1geis e nos interessarmos por elas. Trata-se de uma reflex\u00e3o sobre o cotidiano do jornalismo.<br \/>\nEm toda pauta, o verbo mais constante \u00e9 o \u201cir\u201d. A primeira pessoa e a terceira do singular se confundem algumas vezes na primeira do plural. A conjuga\u00e7\u00e3o firme do &#8220;vamos&#8221; denota o aspecto coletivo da produ\u00e7\u00e3o de not\u00edcias nos grandes jornais. O livro reflete esse anonimato. Apesar de misturar o tempo dos verbos e de haver o uso da primeira pessoa, tende \u00e0 impessoalidade e \u00e0 atemporalidade entre reflex\u00f5es do dia a dia da profiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Apresentado como um caleidosc\u00f3pio, Mem\u00f3rias de um Secret\u00e1rio \u00e9, num certo sentido, uma antinot\u00edcia ou um lado escondido dela, como o mundo subjetivo dos rep\u00f3rteres e a rela\u00e7\u00e3o que mant\u00eam com a profiss\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Fragmentos de hist\u00f3ria, Pautas e Fontes<\/strong> \u00e9 um mosaico, um almanaque. N\u00e3o demanda leitura linear nem integral. O mundo est\u00e1 abortando n\u00e3o um livro, mas um Capivarol extra\u00eddo da conviv\u00eancia entre todos n\u00f3s nesse caldeir\u00e3o social que \u00e9 o Rio de Janeiro dentro de um caldeir\u00e3o maior que \u00e9 o Brasil no mundo.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em><strong>por Alfredo Herkenhoff<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Este livro nasceu, fundamentalmente, como uma explos\u00e3o emocional na esteira do an\u00fancio feito pelo JB, estipulando o 1\u00ba de setembro de 2010 como data do encerramento do ciclo das edi\u00e7\u00f5es impressas,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-11717","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uns-e-outros"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11717","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11717"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11717\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18593,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11717\/revisions\/18593"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11717"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11717"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11717"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}