{"id":11889,"date":"2011-04-06T00:00:00","date_gmt":"2011-04-06T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:32:39","modified_gmt":"2017-09-15T19:32:39","slug":"gol-de-pele","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/gol-de-pele\/","title":{"rendered":"Gol de Pel\u00e9"},"content":{"rendered":"<p>Ser crian\u00e7a em fins dos anos 50 n\u00e3o era nada f\u00e1cil.<\/p>\n<p>O dia inteiro na rua.<\/p>\n<p>Jogar futebol descal\u00e7o na rua ou no barranc\u00e3o. Andar de carrinho de rolim\u00e3s ladeira abaixo. Empinar pipar sempre com os olhos no c\u00e9u, escapando das fia\u00e7\u00f5es<br \/>\ne do la\u00e7a de outros quadrados. Subir muros. Rodar pe\u00e3o. Bolinha de gude.<br \/>\nCampeonato de bot\u00e3o. Bicicletar mundo afora&#8230;<\/p>\n<p>Enfim, uma rotina pesada que invariavelmente resultava em escoria\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Mesmo em casa, ele n\u00e3o se aquietava.<\/p>\n<p>O garoto queria ser goleiro.<\/p>\n<p>Por isso, para ele, n\u00e3o havia espa\u00e7o e hora para preparar-se para o futuro promissor que o aguardava.<\/p>\n<p>&#8212; Defende Gilmar.<\/p>\n<p>&#8212; Espalma Castilho.<\/p>\n<p>&#8212; Encaixa Poy.<\/p>\n<p>&#8212; Que defesa do pequeno gigante Valdir.<\/p>\n<p>Imagina\u00e7\u00e3o a mil. O garoto atirava a bola de borracha contra a parede e se atirava para defend\u00ea-la usando, adotando o nome dos grandes goleiros da \u00e9poca: Gilmar (do Santos e da sele\u00e7\u00e3o brasileira), Castilho (do Fluminense e da sele\u00e7\u00e3o brasileira), Poy (do S\u00e3o Paulo) e o guardi\u00e3o do seu amado Palmeiras, Valdir Joaquim de Moraes.<\/p>\n<p>Na sala era onde mais gostava de brincar.<\/p>\n<p>O sof\u00e1 maior transformava-se o gramado adequado para amparar voos e defesas milagrosas.<\/p>\n<p>S\u00f3 que, \u00f3bvio, na sala havia todas preciosidades da fam\u00edlia. Inclusive uma jarra de porcelana, trazida de Murano, na It\u00e1lia, pelos av\u00f3s da m\u00e3e.<\/p>\n<p>\u00c9 bem verdade que, em fun\u00e7\u00e3o do passar do tempo, a apar\u00eancia da pe\u00e7a n\u00e3o era das melhores. Mas, o valor afetivo e familiar pesava e muito.<\/p>\n<p>Mais de uma vez, a m\u00e3e amea\u00e7ou coloca-lo de castigo se n\u00e3o parasse com aquela estripulia.<\/p>\n<p>Ali n\u00e3o era lugar de futebol.<\/p>\n<p>&#8212; Olha o vidro da cristaleira.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o suja as paredes.<\/p>\n<p>&#8212; Cuidado com o vazo da minha av\u00f3.<\/p>\n<p>Os avisos da m\u00e3e entravam por um ouvido e saiam pelo outro.<\/p>\n<p>At\u00e9 que um dia o inevit\u00e1vel aconteceu.<\/p>\n<p>Ele exagerou na m\u00e3o ao jogar a bola na parede, atirou-se para fazer o que os locutores antigos chamavam de\u201dponte\u201d. Mas, tudo em v\u00e3o. <\/p>\n<p>A bola passou no meio de seus bra\u00e7os. Estourou o vidro da cristaleira e, implac\u00e1vel, foi \u00e1vida derrubar o jarro que se espatifou no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>S\u00f3 de ouvir o barulho, a m\u00e3e largou os afazeres da cozinha e foi ver o tamanho do estrago, j\u00e1 de chinelo em punho.<\/p>\n<p>Ao ver o garoto no ch\u00e3o, desconsertado diante de tamanho estrago, conteve a raiva. Conferiu se havia acontecido algo com ele. Viu que estava tudo bem e, antes que pudesse dizer qualquer coisa, ouviu o garoto, ainda em del\u00edrio, lamentar-se:<\/p>\n<p>&#8212; Esse Pel\u00e9 chuta forte mesmo&#8230;<\/p>\n<p>Desistiu da surra. Mas, por precau\u00e7\u00e3o, tomou a bola dele e escondeu em cima do velho guarda-comida.<\/p>\n<p>A m\u00e3e nunca entendeu de futebol.<\/p>\n<p>Mas, at\u00e9 ela, que era mulher, j\u00e1 ouvira dizer que esse tal de Pel\u00e9 era o Rei do Futebol.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ser crian\u00e7a em fins dos anos 50 n\u00e3o era nada f\u00e1cil.<\/p>\n<p>O dia inteiro na rua.<\/p>\n<p>Jogar futebol descal\u00e7o na rua ou no barranc\u00e3o. Andar de carrinho de rolim\u00e3s ladeira abaixo.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-11889","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11889","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11889"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11889\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16092,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11889\/revisions\/16092"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11889"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11889"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11889"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}