{"id":12039,"date":"2011-10-05T00:00:00","date_gmt":"2011-10-05T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:28:00","modified_gmt":"2017-09-15T19:28:00","slug":"escova-o-terrivel","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/escova-o-terrivel\/","title":{"rendered":"Escova, o terr\u00edvel"},"content":{"rendered":"<p>E, ent\u00e3o, naquela tarde ensolarada, algu\u00e9m na velha reda\u00e7\u00e3o de piso assoalhado e grandes janelas para rua Bom Pastor descobriu que era anivers\u00e1rio do Escova \u2013 um dos mais antigos rep\u00f3rteres da casa.<\/p>\n<p>\u00c9 bem verdade que o tal era mais conhecido pelos enroscos sentimentais que arranjava do que propriamente pelas reportagens que fazia, sem lead e, n\u00e3o raras vezes, sem t\u00edtulo.<\/p>\n<p>&#8212; Sou da velha guarda, defendia-se. \u2013 T\u00edtulo \u00e9 coisa para o editor. Al\u00e9m do que o bom texto sempre se garante, e eu modestamente sei contar uma boa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Justi\u00e7a seja feita. <\/p>\n<p>Escova escrevia bem, sabia desenvolver uma boa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Mais do que isso, sabia tamb\u00e9m viver grandes hist\u00f3rias de amor \u2013 ou coisa que o valha.<\/p>\n<p>Ao menos tr\u00eas vezes ao dia, ele jurava ter encontrado a mulher da sua vida. Ao menos era isso o que ouv\u00edamos o tal dizer, ao telefone, sempre para mulheres diferentes.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e0 toa, o cham\u00e1vamos de Dom Juan das Quebradas do Sacom\u00e3.<\/p>\n<p>Fingia n\u00e3o gostar do apelido. <\/p>\n<p>Mas, rejubilava-se em contar seus romances em prosa e verso. Mais prosa do que verso, conv\u00e9m ressaltar.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, como dizia, era seu anivers\u00e1rio \u2013 e algu\u00e9m na Reda\u00e7\u00e3o imaginou uma festinha surpresa para n\u00e3o deixar passar a data em branco.<\/p>\n<p>Ele era abilolado, mas era nossa amigo, p\u00f4xa.<\/p>\n<p>E assim foi feito.<\/p>\n<p>Escova saiu para uma reportagem \u2013 e aproveitamos para preparar a reda\u00e7\u00e3o para a comemora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Compramos um bolo na padoca, bebida que ningu\u00e9m \u00e9 de ferro, enfeitamos com algumas bixigas as paredes \u2013 essa coisa kitsh que sempre se faz nessas ocasi\u00f5es.<\/p>\n<p>Quando Escova voltou, o garoto que cuidava do estacionamento deu o sinal e as m\u00e1quinas pararam. <\/p>\n<p>Ficamos em sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Assim que ele p\u00f4s o p\u00e9 na reda\u00e7\u00e3o, soltamos a voz\u2026<\/p>\n<p>Parab\u00e9ns a voc\u00ea, nesta data&#8230; etc etc etc<\/p>\n<p>Recuperamos o f\u00f4lego e continuamos:<\/p>\n<p>Para o Escova nada&#8230;<br \/>\nTudo!<br \/>\nEnt\u00e3o como \u00e9 que \u00e9&#8230;<br \/>\n\u00c9 pique! \u00c9 pique! \u00c9 pique!<br \/>\nEscova&#8230;<br \/>\nEscova&#8230;<br \/>\nEscova&#8230;<\/p>\n<p>Tudo dentro da normalidade, n\u00e3o fosse uma vozinha l\u00e1 no fundo a destoar do coro e a gritar:<\/p>\n<p>&#8211; Canalha.<br \/>\n&#8211; Canalha.<br \/>\n&#8211; Canalha.<\/p>\n<p>Era Carlinha, a estagi\u00e1ria que estava h\u00e1 menos de uma semana  no jornal.<\/p>\n<p>Ela insistia&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Canalha.<br \/>\n&#8211; Canalha.<br \/>\n&#8211; Canalha.<\/p>\n<p>Uma das secret\u00e1rias espantou-se e foi at\u00e9 ela para lhe cobrar bons modos:<\/p>\n<p>&#8211; Mas o que \u00e9 que h\u00e1, menina? \u00c9 uma festa de anivers\u00e1rio&#8230; Porque isso?<\/p>\n<p>E a estagi\u00e1ria, entre um gritinho e outro, justificou-se laconicamente:<\/p>\n<p>&#8211; Hum! Eu tenho meus motivos, minha cara.<\/p>\n<p>E mais n\u00e3o disse porque nada mais precisava ser dito.<\/p>\n<p>O Escova era terr\u00edvel,  n\u00e3o perdia tempo mesmo&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>E, ent\u00e3o, naquela tarde ensolarada, algu\u00e9m na velha reda\u00e7\u00e3o de piso assoalhado e grandes janelas para rua Bom Pastor descobriu que era anivers\u00e1rio do Escova \u2013 um dos mais antigos rep\u00f3rteres da casa.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-12039","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12039","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12039"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12039\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15944,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12039\/revisions\/15944"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12039"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12039"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12039"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}