{"id":12108,"date":"2011-12-23T00:00:00","date_gmt":"2011-12-23T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:25:39","modified_gmt":"2017-09-15T19:25:39","slug":"tio-neno-e-o-presepio","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/tio-neno-e-o-presepio\/","title":{"rendered":"Tio Neno e o pres\u00e9pio"},"content":{"rendered":"<p>Uma de minhas mais antigas \u2013 e doces &#8211; lembran\u00e7as \u00e9 o pres\u00e9pio que o meu Tio Neno armava na casa de meus av\u00f3s maternos.<\/p>\n<p>O lago era um ajuntamento de pequenos espelhos desses que as senhoras da \u00e9poca carregavam na bolsa para acertar a maquiagem. O ch\u00e3o de terra do caminho sinuoso, que se perdia na cordilheira, era feito de serragem que ele recolhia da marcenaria que existia nos arredores da rua Lavap\u00e9s. As montanhas, que definiam a linha do horizonte, tinham suas entranhas forradas de bolotas de jornais velhos.<\/p>\n<p>Folhas de papel de seda verde escuro forravam todo o tampo do sisudo m\u00f3vel da sala. Davam a impress\u00e3o de um amplo gramado por onde se espalhavam pequenas est\u00e1tuas de magos, pastores e animais diversos \u2013 camelos, ovelhas, o burrico, a vaca, patos e galinhas.<\/p>\n<p>Havia at\u00e9 um sapo que, embevecido, olhava o pescador a al\u00e7ar um peixe. <\/p>\n<p>Toda essa turma &#8211; a exce\u00e7\u00e3o do batr\u00e1quio, creio &#8211; se dirigia \u00e0 pequena estrebaria, de gravetos e palha, encimada por uma estrela brilhante (a custo de cola e muita purpurina prateada).<\/p>\n<p>Ali, era o lugar santificado em que, pouco depois da meia-noite do dia 25 de dezembro, logo ap\u00f3s voltar da Missa do Galo, o Tio Neno colocava a imagem do Menino Deus na manjedoura, ladeada por Jos\u00e9 e Maria.<\/p>\n<p>Era este o ritual na casa da v\u00f3 Ignes e do v\u00f4 Carlito, com toda cerim\u00f4nia e silenciosas ora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>O Natal era assim, antes de tudo uma festa religiosa.<\/p>\n<p>Havia, sim, os presentes, a comilan\u00e7a e, l\u00e1 pelas tantas, a cantoria generalizada de can\u00e7\u00f5es napolitanas, embalada pelas ta\u00e7as de vinho tinto &#8211; afinal, eram todos oriundis.<\/p>\n<p>Mas, repito e insisto, o Natal era antes de tudo uma festa religiosa. De congra\u00e7amento. Quando amigos e parentes esqueciam as rugas para unirem as vozes e os sentidos numa rever\u00eancia ao Menino Deus que acabara de nascer.<br \/>\nEra um momento \u00fanico, raro. De magia e encantamento.<\/p>\n<p>Um momento pleno. De paz e de f\u00e9.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Meus olhos de menino sonhador estalavam de admira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu achava o Tio Neno um artista, desses que sa\u00edam na capa da Revista do R\u00e1dio. <\/p>\n<p>Ficava feliz quando ele vinha me buscar em casa para v\u00ea-lo montar o pres\u00e9pio.<br \/>\nIsso acontecia em meados de novembro.<\/p>\n<p>Eu ficava fascinado ao v\u00ea-lo tirando uma a uma, pe\u00e7a por pe\u00e7a, de uma enorme caixa para dar vida e mist\u00e9rio \u00e0quele canto de uma sala de estar comum, de m\u00f3veis s\u00f3brios e escuros.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Quando garoto at\u00e9 que tentei ter o meu pr\u00f3prio pres\u00e9pio.<\/p>\n<p>Nunca ficou l\u00e1 essas coisas. N\u00e3o tenho o talento do meu saudoso tio para recriar, com pompas e circunst\u00e2ncias, o cen\u00e1rio em que Jesus nasceu. <\/p>\n<p>Com o tempo e outras tantas e in\u00fateis demandas, perdi o jeito (que nunca tive) e o gosto.<\/p>\n<p>Imaginei-me, tolamente, um homem s\u00e9rio, com agenda cheia e compromissos importantes.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Ledo e ivo engano.<\/p>\n<p>S\u00f3 deixei escapar o menino sonhador para me aprumar no homem c\u00e9tico que \u2013 com a idade e os cabelos brancos \u2013 entendeu: precisa reaprender a admirar-se com o que est\u00e1 por vir.<\/p>\n<p>Tenha forma e o rosto que tiver.<\/p>\n<p>Porque a vida \u00e9 mesmo um ros\u00e1rio de breves esperan\u00e7as.<\/p>\n<p>Que o Menino Deus, renascido, nos ensine a desfia-lo no ano que se aproxima.<\/p>\n<p>Feliz Natal a todos e todas.<\/p>\n<p>* EM TEMPO:<\/p>\n<p>O blogueiro sai de f\u00e9rias. Volta dia desses, em janeiro&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma de minhas mais antigas \u2013 e doces &#8211; lembran\u00e7as \u00e9 o pres\u00e9pio que o meu Tio Neno armava na casa de meus av\u00f3s maternos.<\/p>\n<p>O lago era um ajuntamento de pequenos espelhos desses que as senhoras da \u00e9poca carregavam na bolsa para acertar a maquiagem.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-12108","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12108","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12108"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12108\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15875,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12108\/revisions\/15875"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12108"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12108"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12108"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}