{"id":12113,"date":"2012-01-28T00:00:00","date_gmt":"2012-01-28T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:25:38","modified_gmt":"2017-09-15T19:25:38","slug":"sobre-sacolinhas-chinelos-e-lembrancas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/sobre-sacolinhas-chinelos-e-lembrancas\/","title":{"rendered":"Sobre sacolinhas, chinelos e lembran\u00e7as&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>J\u00e1 lhes disse aqui da minha estranheza com a levada ass\u00e9ptica das reda\u00e7\u00f5es de hoje.<\/p>\n<p>Escrevi at\u00e9 um livro \u2013 Meus Caros Amigos. Cr\u00f4nicas sobre jornalistas, bo\u00eamios e paix\u00f5es \u2013 sobre o lado B dos jornalistas de antanho.<\/p>\n<p>Enfim&#8230;<\/p>\n<p>Ainda por esses dias lembrei-me de uma hist\u00f3ria daqueles idos at\u00e9 por for\u00e7a do \u201cdisse me disse\u201d que gerou o propalado fim das bolsas de pl\u00e1sticos dos supermercados; hoje, t\u00e3o politicamente conden\u00e1veis quanto os usos e costumes das velhas reda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>S\u00f3 para ficar em um exemplo b\u00e1sico: todos fumavam \u2013 e muito.<\/p>\n<p>Chegar ao recinto na hora do \u2018fechamento\u2019 era necessariamente enfrentar a densa n\u00e9voa que se espalhava sobre mesas e m\u00e1quinas de escrever.<\/p>\n<p>Falava-se alto e discutia-se acaloradamente por qualquer motivo.<\/p>\n<p>Quando baixava uma p\u00e1gina para a oficina, um sonoro berro deixava todos<br \/>\ninformados de a quanta andava a edi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; DESCE A TR\u00caS&#8230;<\/p>\n<p>Ao leigo, aquilo era a sucursal do inferno.<\/p>\n<p>Para quem viva disso e por isso, era o que cham\u00e1vamos de vida.<\/p>\n<p>Todo esse intr\u00f3ito (gostaram do refinamento do vocabul\u00e1rio) \u00e9 para falar de um dos nossos, o Geraldo. Jornalista de m\u00e3o cheia \u2013 e p\u00e9 de chinelo, como costum\u00e1vamos provoc\u00e1-lo naqueles idos e havidos.<\/p>\n<p>Explico logo que a express\u00e3o \u201cp\u00e9 de chinelo\u201d n\u00e3o trazia em si qualquer inten\u00e7\u00e3o pejorativa. Apenas descritiva.<\/p>\n<p>S\u00f3 a empreg\u00e1vamos porque o desacanhado do Geraldo tinha por h\u00e1bito zanzar para l\u00e1 e para c\u00e1 na reda\u00e7\u00e3o, cal\u00e7ando um par de chinelos desses que os v\u00f4zinhos antigos usavam assim que sa\u00edam da cadeira de balan\u00e7o.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m entendia a mania.<\/p>\n<p>Um rep\u00f3rter de texto elegante, de fino trato para com as pessoas, bastava chegar da rua para tirar o bruto da gaveta de baixo e, antes mesmo de nos brindar com um o bom dia, punha se \u00e0 vontade com os p\u00e9s.<\/p>\n<p>Aos poucos, fomos nos acostumando com o andar arrastado do Gera e \u00e0 pertin\u00e1cia de sua justificativa:<\/p>\n<p>&#8212; Uns afrouxam o n\u00f3 da gravata, outros tiram o palet\u00f3, quase todos trabalham de mangas arrega\u00e7adas. Ent\u00e3o, por que eu n\u00e3o posso ficar de chinelos na reda\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Depois, era de emocionar v\u00ea-lo, ao fim do expediente, enrolar o par de chinelos em folhas de jornal e acondiciona-lo em uma sacola de pl\u00e1stico \u2013 artigo raro \u00e0 \u00e9poca \u2013 para cuidadosamente guardar o embrulho na \u00faltima gaveta.<\/p>\n<p>Fechava a dita-cuja gaveta, propalando a frase que se tornou famosa:<\/p>\n<p>&#8212; Miss\u00e3o cumprida.<\/p>\n<p>Pois bem, car\u00edssimos e fi\u00e9is cinco ou seis leitores, vejam a historia que uma ent\u00e3o inofensiva sacolinha me fez lembrar&#8230;<\/p>\n<p>Miss\u00e3o cumprida.<\/p>\n<p>Volto amanh\u00e3.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 lhes disse aqui da minha estranheza com a levada ass\u00e9ptica das reda\u00e7\u00f5es de hoje.<\/p>\n<p>Escrevi at\u00e9 um livro \u2013 Meus Caros Amigos. 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