{"id":12138,"date":"2012-02-22T00:00:00","date_gmt":"2012-02-22T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:25:34","modified_gmt":"2017-09-15T19:25:34","slug":"momentos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/momentos\/","title":{"rendered":"Momentos"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o era ela&#8230;<\/p>\n<p>Mas, tinha o porte, os tra\u00e7os, as fei\u00e7\u00f5es \u2013 e at\u00e9 o jeito de fumar que o faziam lembrar a mo\u00e7a que um dia foi a raz\u00e3o dos seus ais e uis. Do seu enredo, da evolu\u00e7\u00e3o e do samba que atravessou, sem pedir licen\u00e7a, nem passagem. <\/p>\n<p>Sentiu (in)certo desconforto na alma \u2013 era o que faltava para uma manh\u00e3 de quarta-feira de cinzas  ficar redonda, perfeita.<\/p>\n<p>\u201cO tanto que amei aquela mulher\u201d, disse para si mesmo, sem se dar conta do que dizia.<\/p>\n<p>Ele e a desconhecida dividiam o espa\u00e7o do ponto de \u00f4nibus com outras pessoas que, a partir daquele exato instante, deixaram de existir. Embora tentasse que tentasse disfar\u00e7ar n\u00e3o conseguiu tirar os olhos daquela figura que ele parecia conhecer de outros carnavais.<\/p>\n<p>Sensa\u00e7\u00e3o esquisita. Percebeu-se fr\u00e1gil, inseguro, melanc\u00f3lico; vazio e obsoleto como um carro aleg\u00f3rico ap\u00f3s o desfile, largado em um canto qualquer da Dispers\u00e3o.<\/p>\n<p>Logo ele que acordara t\u00e3o empolgado nesta manh\u00e3 \u2013 detesta Carnaval e seus larilal\u00e1s. Queria chegar logo ao trabalho, tocar a reuni\u00e3o, fazer e acontecer. Finalmente o ano iria come\u00e7ar.<\/p>\n<p>Agora, queria mais que o tempo congelasse. Como se fosse um batuqueiro da Mangueira em meio \u00e0 \u201cparadona\u201d, pudesse ficar assim im\u00f3vel, enigm\u00e1tico, diante dela e do sonho de retomar a can\u00e7\u00e3o, retomar a bela hist\u00f3ria de um amor&#8230;<\/p>\n<p>Foi justamente neste precioso momento que o \u00f4nibus chegou \u2013 e parou ruidoso, arfante, diante da pequena multid\u00e3o.<\/p>\n<p>Raz\u00e3o e cora\u00e7\u00e3o. Deu cora\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Preferiu ficar e saborear, alguns minutos que fossem, a companhia da desconhecida e das pr\u00f3prias lembran\u00e7as.<\/p>\n<p>\u201cA vida \u00e9 feita de momentos\u201d, filosofou.<\/p>\n<p>Indiferente, n\u00e3o prestou aten\u00e7\u00e3o sequer para o rodamoinho de pessoas ser engolido pelos v\u00e3os das portas autom\u00e1ticas do coletivo.  Que partiu em seguida.<\/p>\n<p>S\u00f3 ent\u00e3o olhou ao redor e viu que ela n\u00e3o estava mais ali.<\/p>\n<p>Partira sem lhe dar satisfa\u00e7\u00e3o, sem que ele se desse conta; exatamente como fez aquela danadinha com se parecia.<\/p>\n<p>Lembrou os versos de Cam\u00f5es:<\/p>\n<p>&#8212; A grande dor das coisas que passaram.<\/p>\n<p>Mais tarde, j\u00e1 na reparti\u00e7\u00e3o \u2013 e ainda curtindo a ressaca de um Carnaval que n\u00e3o brincou \u2013, lhe afligia a d\u00favida cruel: os versos de Cam\u00f5es lhe vieram a mente por causa da paix\u00e3o antiga, da mo\u00e7a que o enfeiti\u00e7ara ou pelos 50 minutos que ficou \u00e0 espera de que outro \u00f4nibus passasse?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o era ela&#8230;<\/p>\n<p>Mas, tinha o porte, os tra\u00e7os, as fei\u00e7\u00f5es \u2013 e at\u00e9 o jeito de fumar que o faziam lembrar a mo\u00e7a que um dia foi a raz\u00e3o dos seus ais e uis.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-12138","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12138","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12138"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12138\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15845,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12138\/revisions\/15845"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12138"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12138"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12138"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}