{"id":12169,"date":"2012-03-18T00:00:00","date_gmt":"2012-03-18T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T03:52:35","modified_gmt":"2017-09-14T03:52:35","slug":"romance-no-ps","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/romance-no-ps\/","title":{"rendered":"Romance no PS&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>Ah, essa incr\u00edvel capacidade de abstra\u00e7\u00e3o que o brasileiro cultiva mesmo na mais adversa situa\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Encontraram-se ao acaso. Na sala de observa\u00e7\u00e3o de um superlotado Pronto Socorro, desses que a vida se nos apresenta em dia e hora incertos.<\/p>\n<p>Noemi, trinta e poucos anos, algo sonhadora, e febril.<\/p>\n<p>Diniz, j\u00e1 entrado nos \u201centas\u201d, escriv\u00e3o da vara de Fam\u00edlia, e algo sonolento, pois a press\u00e3o baixara de repente.<\/p>\n<p>Ela estava no soro. Sentava-se numa poltrona apropriada para tal finalidade.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o temos leitos dispon\u00edveis, avisou a atarantada enfermeira.<\/p>\n<p>Ele acomodou-se ao lado, em outro m\u00f3vel, com o apontador de batimento card\u00edaco no indicador da m\u00e3o direita. Bip, bip, bip&#8230;<\/p>\n<p>Noemi, sonhadora que s\u00f3, devaneava. Imaginou-se logo em uma praia. Recostada na cadeira, pensou que s\u00f3 lhe faltavam mesmo o sol e o ru\u00eddo do mar. At\u00e9 porque o movimento do PS naquela altura era id\u00eantico ao das mais badaladas \u00e1reas do litoral paulistano. Enorme, intenso.<\/p>\n<p>De resto, o olhar atrevido que senhor ao lado lhe lan\u00e7ou praticamente a desnudou.<\/p>\n<p>&#8212; Diniz, ao seu dispor.<\/p>\n<p>Aquiesceu discretamente o cumprimento, ajeitando o soutien sob a blusa, como fazem as mulheres quando est\u00e3o na praia \u2013 e querem demonstrar um recato que, por vezes, o sum\u00e1rio biquini n\u00e3o permite.<\/p>\n<p>\u201cCharmoz\u00e3o\u201d, pensou Noemi, orgulhosa por chamar aten\u00e7\u00e3o de um bonit\u00e3o, mesmo naquelas condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Sem se dar conta, aproveitou a deixa da prolongada aus\u00eancia das enfermeiras para puxar assunto.<\/p>\n<p>&#8212; T\u00e3o cedo n\u00e3o sairemos daqui.<\/p>\n<p>Ao que Diniz respondeu cheio das inten\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p>&#8212; Eu n\u00e3o vou reclamar se ficasse o resto da minha vida ao lado de uma mulher t\u00e3o linda.<\/p>\n<p>Noemi achou a cantada exagerada, fora de prop\u00f3sito. <\/p>\n<p>Mas, adorou&#8230;<br \/>\nII.<br \/>\nLogo conversavam como bons amigos \u2013 at\u00e9 um pouquinho mais.<\/p>\n<p>Noemi contou que estava de dieta \u2013 e log foi interrompida pelo espanto de Diniz:<\/p>\n<p>&#8212; Que bobagem&#8230;<\/p>\n<p>(E tome olhares gulosos!)<\/p>\n<p>Ela continuou falando, como se nada percebesse.<\/p>\n<p>Talvez por isso se sentira um tanto fr\u00e1gil hoje no servi\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211; Talvez n\u00e3o sei&#8230;<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o h\u00e1 de ser nada\u201d, contrap\u00f4s Diniz.<\/p>\n<p>Ele, por sua vez, reclamou de uma inc\u00f4moda \u201cdorzinha no peito\u201d.<\/p>\n<p>Mas, n\u00e3o perdeu a chance de derramar-se:<\/p>\n<p>&#8212; Ando muito depr\u00ea, essa coisa de ser um homem s\u00f3&#8230;<\/p>\n<p>\u201cQue bom!\u201d, exclamou Diniz, percebendo, em seguida, a bandeira que dera.<\/p>\n<p>Estavam ali, nesse clima \u2013 at\u00e9 as cadeiras foram discretamente arrastadas, uma pr\u00f3xima a outra \u2013 quando o inevit\u00e1vel aconteceu. Primeiro, chamaram o nome de Noemi para ser atendida no consult\u00f3rio 5; depois, foi a vez de Diniz, no consult\u00f3rio 1, \u201cno andar de cima\u201d, orientou solenemente o seguran\u00e7a de terno escuro e gravata malajambrada no pesco\u00e7o.<\/p>\n<p>E ainda dizem que a Sa\u00fade P\u00fablica no Brasil \u00e9 lenta&#8230;<\/p>\n<p>Quando sa\u00edram, cada qual com a receita de rem\u00e9dios nas m\u00e3os, ainda tinham esperan\u00e7a de reencontrar-se. Esticaram o pesco\u00e7o, voltaram \u00e0s depend\u00eancias em que estavam \u2013 em v\u00e3o. Logo foram orientados a se retirarem.<\/p>\n<p>&#8212; O PS hoje est\u00e1 com um movimento acima do normal.<\/p>\n<p>Concordaram, e se retiraram anonimamente, assim como chegaram.<\/p>\n<p>N\u00e3o durou muito a tristeza. Logo o sorriso do mais velhos dos cinco filhos de Diniz veio recepcion\u00e1-lo.<\/p>\n<p>&#8212; Firmeza, v\u00e9io? Precisa se cuidar. Quer perder de ver o Curing\u00e3o campe\u00e3o da Libetadores?<\/p>\n<p>Alguns minutos depois, foi a vez de Noemi sair pela mesma porta.<\/p>\n<p>O marido ciumento a esperava:<\/p>\n<p>&#8212; E a\u00ed? O doutor te tratou com respeito? Esses caras gostam de apalpar as pacientes. Com a minha mulher, n\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Ela sorriu resignada.<\/p>\n<p>Mas, n\u00e3o deixou de dar uma olhadinha pelos arredores.<\/p>\n<p>Ah, essa incr\u00edvel voca\u00e7\u00e3o que o brasileiro tem pelo sonho, pelo romance&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ah, essa incr\u00edvel capacidade de abstra\u00e7\u00e3o que o brasileiro cultiva mesmo na mais adversa situa\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Encontraram-se ao acaso. 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