{"id":12209,"date":"2012-04-24T00:00:00","date_gmt":"2012-04-24T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T03:52:17","modified_gmt":"2017-09-14T03:52:17","slug":"escova-e-alicinha-integra","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/escova-e-alicinha-integra\/","title":{"rendered":"Escova e Alicinha (\u00edntegra)"},"content":{"rendered":"<p>Escova anda desconfiado desde que viu o cartaz anunciando o novo filme de Johnny Deep \u2013 Di\u00e1rio de um jornalista b\u00eabado.<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 comigo isso?<\/p>\n<p>N\u00e3o assisti ao filme, mas fui logo tranq\u00fcilizando o amigo.<\/p>\n<p>&#8212; Nada a ver, Escova. Isso \u00e9 coisa de gringo.<\/p>\n<p>Mesmo assim, Escova n\u00e3o se satisfez.<\/p>\n<p>&#8212; Sei n\u00e3o, disse. \u2013 Todo mundo conta as pingas que eu bebo. Ningu\u00e9m quer saber dos tombos que levo.<\/p>\n<p>Achei aquela fala enigm\u00e1tica. E o amigo um tanto triste.<\/p>\n<p>&#8212; O que aconteceu, cara? Algum problema?<\/p>\n<p>&#8212; Todos.<\/p>\n<p>\u201cTodos\u201d os problemas de Escova, para quem o conhece bem, se resumem a apenas um: mulher.<\/p>\n<p>Desencanei.<\/p>\n<p>Mas, segundos depois, a curiosidade falou mais alto.<\/p>\n<p>&#8212; Qual a boa? Conta a\u00ed?<\/p>\n<p>&#8212; A boa \u00e9 a Alicinha, disse o amigo. <\/p>\n<p>&#8212; A Alicinha!!!<\/p>\n<p>Fiz uma express\u00e3o de espanto mesmo sem saber quem era a mo\u00e7a. <\/p>\n<p>Sei, pela viv\u00eancia nos bares e botecos da vida, que o nosso Dom Juan das Quebradas do Sacom\u00e3 n\u00e3o resistiria a deixa e me contaria o que estava acontecendo.<\/p>\n<p>Dito e feito.<\/p>\n<p>&#8212; Pois \u00e9. Levei meses cantando a jovem senhora. Investi olhares, bom dia e boa tarde cheios de inten\u00e7\u00f5es, conversas meigas&#8230; Quase virei corintiano o dia que a vi com aquela camisa gren\u00e1 que tem a estampa de S\u00e3o Jorge&#8230; Tudo para chegar aos finalmentes e&#8230;<\/p>\n<p>Cabe aqui um oportuno esclarecimento ao distinto leitor. <\/p>\n<p>Alicinha era uma jovem senhora que morava no mesmo pr\u00e9dio que Escova. <\/p>\n<p>Casada e m\u00e3e de uma pimpolha de dois anos, pouco mais, pouco menos. A bem da verdade, o amigo nem se ligava na mo\u00e7a at\u00e9 que veio a fase p\u00f3s gravidez. Ela tomou formas mais fartas, mais apetitosas aos olhares do velho lobo das reda\u00e7\u00f5es. <\/p>\n<p>Escova me garantiu que as mechas aloiradas no cabelo e certa bandidagem no olhar foram quesitos suficientes para que os sinos da conquista repicassem naquele fim de tarde que ambos tomaram o elevador; juntos s\u00f3 os dois.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, foi incontrol\u00e1vel segurar os instintos \u2018domjuanescos\u2019 de Escova. Ele desenvolveu toda uma estrat\u00e9gia para provocar encontros di\u00e1rios e \u201cinvolunt\u00e1rios\u201d \u2013 no elevador, no estacionamento, na \u00e1rea de lazer, onde fosse poss\u00edvel. Sempre tinha uma palavra amiga, um coment\u00e1rio esperto sobre a vida, uma cita\u00e7\u00e3o po\u00e9tica que decorava especialmente para tais ocasi\u00f5es.<\/p>\n<p>At\u00e9 que, sem que se dessem conta, j\u00e1 estavam pr\u00f3ximos.<\/p>\n<p>Pr\u00f3ximos o necess\u00e1rio para que Escova fizesse o inevit\u00e1vel convite&#8230;<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a relutou na primeira investida.<\/p>\n<p>Vacilou na segunda.<\/p>\n<p>&#8212; Adoro conversar com voc\u00ea, mas n\u00e3o sei se seria de bom tom.<\/p>\n<p>E se entregou na terceira.<\/p>\n<p>&#8212; Est\u00e1 bem. Dia desses a gente se encontra&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Amanh\u00e3, a gente almo\u00e7a juntos, ok? Sei onde voc\u00ea trabalha.<\/p>\n<p>Uma das caracter\u00edsticas do predador Escova era exatamente essa: armar-se de todas as informa\u00e7\u00f5es poss\u00edveis e imagin\u00e1veis sobre a ca\u00e7a. Para n\u00e3o ter erro na hora do bote.<\/p>\n<p>De posse da ficha de Alicinha, Escova sabia exatamente como era a rotina da mo\u00e7a. Esposa fiel, m\u00e3e dedicada e executiva de algum sucesso na \u00e1rea dos cosm\u00e9ticos. Tinha h\u00e1bitos rotineiros. Marcava todas as reuni\u00f5es para a parte da manh\u00e3, almo\u00e7ava por volta do meio-dia em um restaurante ali pertinho, corria para casa, olhava a crian\u00e7a por volta das 16 horas estava de novo na empresa de onde sa\u00eda impreterivelmente \u00e0s 19 horas. Chegava \u00e0s 19h30 em casa em tempo de preparar o jantar, receber o marido e curtir o resto da noite em fam\u00edlia. <\/p>\n<p>Escova juntou o l\u00e9 com o cr\u00e9 \u2013 e apostou no hor\u00e1rio do almo\u00e7o e p\u00f3s almo\u00e7o. Experiente no assunto, fez os c\u00e1lculos. <\/p>\n<p>Qualquer desculpa, por mais esfarrapada que fosse, convenceria a empregada que n\u00e3o poderia voltar para casa naquele hor\u00e1rio \u2013 e assim, um pelo outro, ambos teriam em torno de quatro horas para serem felizes.<\/p>\n<p>Alicinha riu da investida do gabiru.<\/p>\n<p>J\u00e1 havia intu\u00eddo que estava sendo cantada \u2013 e descaradamente. Mas, topou o jogo jogado. At\u00e9 porque faz bem para o ego de qualquer mulher.<\/p>\n<p>Nunca imaginou que as coisas passariam desses limites.<\/p>\n<p>Mas, agora estava diante de um impasse.<\/p>\n<p>Lembrou os tempos idos, de solteira, quando arrebentava os cora\u00e7\u00f5es masculinos com essas brincadeiras de quero-n\u00e3o-quero. <\/p>\n<p>&#8212; O quanto me diverti com aqueles panacas?<\/p>\n<p>Um a mais, um a menos, n\u00e3o vai mudar nada.<\/p>\n<p>Escova era um cara mais vivido. <\/p>\n<p>Fazia o estilo do rom\u00e2ntico \u00e0 moda antiga. <\/p>\n<p>Um tanto cafa, outro tanto safo.<\/p>\n<p>Seria divertido dar um vaiv\u00e9m nele tamb\u00e9m&#8230;<\/p>\n<p>Nem percebeu.<\/p>\n<p>Fez carinha da santinha do pau oco e, entre t\u00edmida e sedutora, disse:<\/p>\n<p>&#8212; Eu topo!<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Diz a can\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u201cA gente nunca sabe bem o que \u00e9 que quer uma mulher\u201d.<\/p>\n<p>H\u00e1 homens tolos que ainda duvidam da corre\u00e7\u00e3o dos versos de Caetano Veloso em \u201cPecado Original\u201d.<\/p>\n<p>As mulheres, no entanto&#8230;<\/p>\n<p>Bem, as mulheres, minimamente normais, t\u00eam plena convic\u00e7\u00e3o de que, em determinados momentos, n\u00e3o sabem o que fazem, o porqu\u00ea fazem e quais as conseq\u00fc\u00eancias do que fazem.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, este \u00e9 o grande barato de ser mulher.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 do dito-cujo encontro com Escova, ela acordou assim.<\/p>\n<p>Despediu-se do marido no caf\u00e9 da manh\u00e3 com um sorriso, um longo beijo e a certeza de que aquela \u2018brincadeira\u2019 de almo\u00e7o j\u00e1 havia ido longe demais.<\/p>\n<p>Inventaria uma desculpa \u2013 e n\u00e3o iria.<\/p>\n<p>Minutos depois, ao deixar a filha com a tia da v\u00e3 que a levaria para a escola, deixou recomenda\u00e7\u00f5es claras para traz\u00ea-la no hor\u00e1rio e certificar-se se a bab\u00e1 a levaria para dentro. Estava \u201centupida\u201d de trabalho \u2013 e talvez n\u00e3o viesse para casa antes do anoitecer.<\/p>\n<p>Estranhou a mentira que acabara de inventar, mas aplaudiu, interiormente, a naturalidade com que \u2018fechou\u2019 o assunto.<\/p>\n<p>No trabalho, por mais de uma vez, surpreendeu-se conferindo o visor do celular para saber se havia alguma mensagem.<\/p>\n<p>Do Escova, claro.<\/p>\n<p>Nesse joguinho de vou-n\u00e3o-vou, sequer notou a manh\u00e3 passar.<\/p>\n<p>Quando deu por si, j\u00e1 estava dividindo uma mesa de canto no restaurante, com aquele pilantra que mal conhecia, mas bem sabia das suas inten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O lugar era sem charme. Seguro, no entanto.<\/p>\n<p>Por certo n\u00e3o haveria nenhum conhecido de ambos nas redondezas.<\/p>\n<p>Incr\u00edvel reconhecer. Sentia-se segura, levemente inconsequente, e com a convic\u00e7\u00e3o de que tudo n\u00e3o passaria de almo\u00e7o, sem maiores consequ\u00eancias. <\/p>\n<p>&#8212; Um dedinho mais de vinho, por favor. Mas s\u00f3 um pouquinho.<\/p>\n<p>Nunca saberemos se foi o tal \u201cdedinho de vinho\u201d ou outro fator qualquer. O fato \u00e9 que Alicinha foi gostando do jogo jogado. Quanto mais Escova, o predador, aproximava sua cadeira da dela e esticava o bra\u00e7o para ro\u00e7ar seu ombro como se fosse \u00edntimo, mais a mo\u00e7a ia perdendo a no\u00e7\u00e3o do perigo.<\/p>\n<p>Tanto que resolveu ati\u00e7ar os humores e desejos do velho Dom Juan das Quebradas dos mundar\u00e9us.<\/p>\n<p>Sutil como um elefante em uma loja de lou\u00e7a, ela provocou:<\/p>\n<p>&#8212; Pensei que fossemos a um lugar mais tranquilo, um cantinho onde pud\u00e9ssemos ficar mais \u00e0 vontade.<\/p>\n<p>Queria v\u00ea-lo sem jeito.<\/p>\n<p>Escova era experiente no assunto:<\/p>\n<p>&#8212; Por isso, n\u00e3o. A duas quadras daqui existe um flat \u00f3timo. Deixei para tomarmos l\u00e1 o licor. Eu nunca deixou de satisfazer as vontades de uma mulher, ainda mais linda como voc\u00ea&#8230;<\/p>\n<p>Ele continuou o xaveco. Ela nada mais escutava, envolta na afli\u00e7\u00e3o de embarcara numa canoa furada, e lhe pareceu ali \u2013 n\u00e3o tinha volta.<\/p>\n<p>E agora?<\/p>\n<p>Olha o tamanho da enrascada que entrara&#8230;<\/p>\n<p>Diz a can\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u201cA gente nunca sabe bem o que \u00e9 que quer uma mulher\u201d.<\/p>\n<p>H\u00e1 homens tolos que ainda duvidam da corre\u00e7\u00e3o dos versos de Caetano Veloso em \u201cPecado Original\u201d.<\/p>\n<p>As mulheres, no entanto&#8230;<\/p>\n<p>Bem, as mulheres, minimamente normais, t\u00eam plena convic\u00e7\u00e3o de que, em determinados momentos, n\u00e3o sabem o que fazem, o porqu\u00ea fazem e quais as conseq\u00fc\u00eancias do que fazem.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, este \u00e9 o grande barato de ser mulher.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 do dito-cujo encontro com Escova, ela acordou assim.<\/p>\n<p>Despediu-se do marido no caf\u00e9 da manh\u00e3 com um sorriso, um longo beijo e a certeza de que aquela \u2018brincadeira\u2019 de almo\u00e7o j\u00e1 havia ido longe demais.<\/p>\n<p>Inventaria uma desculpa \u2013 e n\u00e3o iria.<\/p>\n<p>Minutos depois, ao deixar a filha com a tia da v\u00e3 que a levaria para a escola, deixou recomenda\u00e7\u00f5es claras para traz\u00ea-la no hor\u00e1rio e certificar-se se a bab\u00e1 a levaria para dentro. Estava \u201centupida\u201d de trabalho \u2013 e talvez n\u00e3o viesse para casa antes do anoitecer.<\/p>\n<p>Estranhou a mentira que acabara de inventar, mas aplaudiu, interiormente, a naturalidade com que \u2018fechou\u2019 o assunto.<\/p>\n<p>No trabalho, por mais de uma vez, surpreendeu-se conferindo o visor do celular para saber se havia alguma mensagem.<\/p>\n<p>Do Escova, claro.<\/p>\n<p>Nesse joguinho de vou-n\u00e3o-vou, sequer notou a manh\u00e3 passar.<\/p>\n<p>Quando deu por si, j\u00e1 estava dividindo uma mesa de canto no restaurante, com aquele pilantra que mal conhecia, mas bem sabia das suas inten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O lugar era sem charme. Seguro, no entanto.<\/p>\n<p>Por certo n\u00e3o haveria nenhum conhecido de ambos nas redondezas.<\/p>\n<p>Incr\u00edvel reconhecer. Sentia-se segura, levemente inconsequente, e com a convic\u00e7\u00e3o de que tudo n\u00e3o passaria de almo\u00e7o, sem maiores consequ\u00eancias. <\/p>\n<p>&#8212; Um dedinho mais de vinho, por favor. Mas s\u00f3 um pouquinho.<\/p>\n<p>Nunca saberemos se foi o tal \u201cdedinho de vinho\u201d ou outro fator qualquer. O fato \u00e9 que Alicinha foi gostando do jogo jogado. Quanto mais Escova, o predador, aproximava sua cadeira da dela e esticava o bra\u00e7o para ro\u00e7ar seu ombro como se fosse \u00edntimo, mais a mo\u00e7a ia perdendo a no\u00e7\u00e3o do perigo.<\/p>\n<p>Tanto que resolveu ati\u00e7ar os humores e desejos do velho Dom Juan das Quebradas dos mundar\u00e9us.<\/p>\n<p>Sutil como um elefante em uma loja de lou\u00e7a, ela provocou:<\/p>\n<p>&#8212; Pensei que fossemos a um lugar mais tranquilo, um cantinho onde pud\u00e9ssemos ficar mais \u00e0 vontade.<\/p>\n<p>Queria v\u00ea-lo sem jeito.<\/p>\n<p>Escova era experiente no assunto:<\/p>\n<p>&#8212; Por isso, n\u00e3o. A duas quadras daqui existe um flat \u00f3timo. Deixei para tomarmos l\u00e1 o licor. Eu nunca deixou de satisfazer as vontades de uma mulher, ainda mais linda como voc\u00ea&#8230;<\/p>\n<p>Ele continuou o xaveco. Ela nada mais escutava, envolta na afli\u00e7\u00e3o de embarcara numa canoa furada, e lhe pareceu ali \u2013 n\u00e3o tinha volta.<\/p>\n<p>E agora?<\/p>\n<p>Olha o tamanho da enrascada que entrara&#8230;<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>\u00c0 essa altura do campeonato, o velho Escova j\u00e1 dava como favas contadas o inevit\u00e1vel abate.<\/p>\n<p>Quest\u00e3o de minutos; meia-hora, se tanto.<\/p>\n<p>Logo estariam dividindo o licor e o edredon no flat ali ao lado.<\/p>\n<p>Por tudo o que j\u00e1 vivera na \u00e1rea da trampolinagem, o nosso Dom Juan estava at\u00e9 um bocadinho surpreso.<\/p>\n<p>Fora mais f\u00e1cil do que imaginara&#8230;<\/p>\n<p>Pois \u00e9, meus caros, como dizem pela a\u00ed, quem v\u00ea cara etc etc etc.<\/p>\n<p>Alicinha, digamos, come\u00e7ava a recuperar a no\u00e7\u00e3o das coisas e de onde estava.<\/p>\n<p>Sorria mesmo assim para as bobagens melosas que Escova dizia.<\/p>\n<p>Precisava ganhar tempo para escapar da armadilha que se enredara \u2013 e da qual se arrependera e queria ver-se livre o mais r\u00e1pido poss\u00edvel.<\/p>\n<p>&#8212; Como vim parar aqui, perguntava-se sem pretens\u00e3o de responder, s\u00f3 de escapar.<\/p>\n<p>Estava nesse lusco-fusco, sem a\u00e7\u00e3o alguma, sem solu\u00e7\u00e3o aparente, quando ouviu um choro de crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Um bu\u00e1bu\u00e1bu\u00e1 mais do que conhecido.<\/p>\n<p>De imediato, se lembrou da filha querida.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o. <\/p>\n<p>N\u00e3o era t\u00e3o tr\u00e1gico assim. <\/p>\n<p>A menina devia estar em casa com a bab\u00e1 \u2013 e talvez se desse conta da aus\u00eancia da m\u00e3e. Mas, n\u00e3o tinha certeza.<\/p>\n<p>Atr\u00e1s da mesa dele, um jovem casal relutava em soltar a crian\u00e7a, presa ao cadeir\u00e3o. E cansada de estar ali, degustando p\u00e3ezinhos, batatinhas e afins, enquanto os pais ca\u00edam de boca em soberba sobremesa de sorvete.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o pode. N\u00e3o pode, dizia m\u00e3e \u00e0 crian\u00e7a. \u2013 Voc\u00ea resfria f\u00e1cil, f\u00e1cil.<\/p>\n<p>Mas, essa constata\u00e7\u00e3o n\u00e3o tranq\u00fcilizou Alicinha.<\/p>\n<p>Que agora se achava a m\u00e3e mais desnaturada do mundo. <\/p>\n<p>Onde j\u00e1 se viu? Trocar a carinha angelical de Mirna (a filha, de ano e tanto) por esse estrop\u00edcio? Onde estava com a cabe\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Alicinha agora brigava em duas frentes: <\/p>\n<p>1 \u2013 conter os libidinosos avan\u00e7os de Escova e&#8230;<\/p>\n<p>2 \u2013 segurar o choro de arrependimento.<\/p>\n<p>Que esparrela!<\/p>\n<p>Escova se achando.<\/p>\n<p>O arrependimento.<\/p>\n<p>E a crian\u00e7a que, livre do cadeir\u00e3o se p\u00f4s a correr entre as mesas do restaurante, a comemorar a s\u00fabita liberdade em sonoro idioma pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>&#8212; Ded\u00e9\u00e9\u00e9\u00e9\u00e9\u00e9. Ded\u00e9\u00e9\u00e9\u00e9\u00e9\u00e9&#8230;<\/p>\n<p>Escova percebeu que algo acontecia. Mas, n\u00e3o intuiu o tamanho da encrenca.<\/p>\n<p>Os m\u00fasculos de Alicinha se enrijeceram. Perdera a fome, e a coragem.<\/p>\n<p>E a menina \u2013 t\u00e3o parecida com a sua Mirna \u2013 a lhe cobrar uma atitude:<\/p>\n<p>&#8212; Ded\u00e9\u00e9\u00e9\u00e9\u00e9\u00e9. Ded\u00e9\u00e9\u00e9\u00e9\u00e9\u00e9&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ded\u00e9\u00e9\u00e9\u00e9\u00e9\u00e9. Ded\u00e9\u00e9\u00e9\u00e9\u00e9\u00e9&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ded\u00e9\u00e9\u00e9\u00e9\u00e9\u00e9. Ded\u00e9\u00e9\u00e9\u00e9\u00e9\u00e9&#8230;<\/p>\n<p>As pessoas \u00e0s mesas riam da farra da garota.<\/p>\n<p>Os pais continuavam a lida de derrubar a ta\u00e7a de sorvete, indiferentes \u00e0s perip\u00e9cias da pimpolha.<\/p>\n<p>Escova, de repente, silenciara. Pressentira que a bola n\u00e3o estava mais com ele.<\/p>\n<p>S\u00f3 Alicinha entendia o drama que estava vivendo.<\/p>\n<p>Um drama que n\u00e3o resistiria a mais um segundo sequer.<\/p>\n<p>Entre um e outro \u201cded\u00e9\u00e9\u00e9\u00e9\u00e9\u00e9, ded\u00e9\u00e9\u00e9\u00e9\u00e9\u00e9\u201d tomou coragem e disse o que tinha de dizer:<\/p>\n<p>&#8212; Desculpe, Escova, mas o licor fica para a pr\u00f3xima [se houver pr\u00f3xima, pensou.] <\/p>\n<p>Estou morrendo de saudades da minha filha.<\/p>\n<p>Levantou-se, e foi embora.<\/p>\n<p>Acenou para a garotinha:<\/p>\n<p>&#8212; Tchau \u2013 e obrigado pela dica.<\/p>\n<p>Como resposta, obteve um sonoro&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ded\u00e9\u00e9\u00e9\u00e9\u00e9\u00e9. Ded\u00e9\u00e9\u00e9\u00e9\u00e9\u00e9&#8230;<\/p>\n<p>Desconsolado, n\u00e3o coube alternativa ao nosso her\u00f3i, se n\u00e3o aquela de sempre: entornar o que restou da garrafa de vinho, pagar a conta e afogar o vazio que lhe ia \u00e0 alma no boteco de sempre. Com os amigos de sempre. Que ouviam solid\u00e1rios as lam\u00farias de sempre [ainda que debochadamente entendiam a sua dor]. Al\u00e9m do que, sempre havia uma alma generosa para lhe pagar a saideira.<\/p>\n<p>S\u00f3 n\u00e3o se conformou com o cartaz afixado na parede do boteco, sabe-se l\u00e1 porque raz\u00e3o. Anunciava o novo filme de Johnny Deep \u2013 Di\u00e1rio De Um Jornalista B\u00eabado.<\/p>\n<p>&#8212; Quem \u00e9 esse cara?, perguntou com voz pastosa.<\/p>\n<p>&#8212; Essa \u00e9 a minha hist\u00f3ria, indignou-se antes de debru\u00e7ar-se sobre o tampo da mesa e apagar num sono pesado e sem quaisquer sonhos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escova anda desconfiado desde que viu o cartaz anunciando o novo filme de Johnny Deep \u2013 Di\u00e1rio de um jornalista b\u00eabado.<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 comigo isso?<\/p>\n<p>N\u00e3o assisti ao filme,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-12209","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-parangoles"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12209","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12209"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12209\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13937,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12209\/revisions\/13937"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12209"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12209"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12209"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}