{"id":12240,"date":"2012-06-07T00:00:00","date_gmt":"2012-06-07T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T03:51:34","modified_gmt":"2017-09-14T03:51:34","slug":"aruba-o-paraiso-e-o-chapeu-panama","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/aruba-o-paraiso-e-o-chapeu-panama\/","title":{"rendered":"Aruba, o para\u00edso e o chap\u00e9u panam\u00e1"},"content":{"rendered":"<p>O homenzarr\u00e3o, de cabelos em tom acaju, n\u00e3o se conteve.<\/p>\n<p>Entregou os passaportes da fam\u00edlia para os inspetores do aeroporto Reina Beatrix para carimbar o visto de sa\u00edda e exclamou, todo simp\u00e1tico:<\/p>\n<p>&#8212; Estamos deixando o para\u00edso.<\/p>\n<p>Logo atr\u00e1s, a jovem esposa balan\u00e7ou a cabe\u00e7a em sinal de aprova\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>As duas crian\u00e7as, entre oito e dez anos, nada disseram. Estavam empenhadas em livrar-se das m\u00e3os da m\u00e3e para continuar a correria e a sensa\u00e7\u00e3o de liberdade que experimentaram desde que, sete dias atr\u00e1s, desembarcaram em Aruba.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se essa pequena ilha do Caribe \u00e9 mesmo um para\u00edso (at\u00e9 porque nunca estive no tal, e t\u00e3o cedo pretendo n\u00e3o conhec\u00ea-lo).<\/p>\n<p>Sei que, na semana que l\u00e1 estive, n\u00e3o encontrei motivo para discordar do homem \u00e0 minha frente. Foram dias de puro estio a vagar pelas praias de areia brancas e tranquilas \u00e1guas de tom azul.<\/p>\n<p>Embarcar\u00edamos no mesmo voo de volta ao Brasil, e pareceu-me inevit\u00e1vel saborear certa tristeza ao imaginar-se longe dali, de volta \u00e0 lida.<\/p>\n<p>\u00c9 bem prov\u00e1vel que o dolce far niente de quem est\u00e1 de f\u00e9rias influencie favoravelmente todo o resto. Mas, h\u00e1 que se reconhecer: o tempo em Oranjestad, a capital e redondezas, tem ritmo pr\u00f3prio para passar. \u00c9 cadenciado, venturoso; sugere a paz.<\/p>\n<p>Por ali, \u00e9 tudo organizadinho, com hor\u00e1rios pr\u00f3prios e um jeit\u00e3o de que a vida tem jeito, sim.<\/p>\n<p>Para tudo, h\u00e1 uma solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Querem um exemplo?<\/p>\n<p>A ilha, dizem os moradores, est\u00e1 livre dos tuf\u00f5es, ciclones e qualquer outra intemp\u00e9rie mais dr\u00e1stica. Pelo que pude entender, h\u00e1 uma barreira natural que faz com que os tais fa\u00e7am rota longe dali.<\/p>\n<p>Em se tratando de Caribe, \u00e9 um privil\u00e9gio, convenhamos.<\/p>\n<p>Querem mais?<\/p>\n<p>Raramente chove. Dois dias por ano, se tanto. Sempre entre setembro e novembro.<\/p>\n<p>A temperatura m\u00e9dia fica em torno de trinta, trinta e poucos graus.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>O clima de Aruba \u00e9 \u00e1rido, mas n\u00e3o chega a incomodar.<\/p>\n<p>A vegeta\u00e7\u00e3o \u00e9 pouca \u2013 e as \u00e1rvores t\u00eam os galhos que se inclinam horizontalmente, o que lhes d\u00e1 uma configura\u00e7\u00e3o singular. <\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 rios.<\/p>\n<p>O que obrigou os arubianos a desenvolver \u2013 e implantar \u2013 um moderno sistema de dessaliniza\u00e7\u00e3o da \u00e1gua do mar s\u00f3 compar\u00e1vel ao que existe em Israel.<\/p>\n<p>Em toda a extens\u00e3o da ilha, a \u00e1gua \u00e9 pot\u00e1vel.<\/p>\n<p>Com a desativa\u00e7\u00e3o da refinaria de petr\u00f3leo \u2013 fundada em 1924 \u2013 o turismo passou a ser a grande fonte de renda.<\/p>\n<p>N\u00e3o houve problemas para os nativos, pois eles dominam quatro idiomas \u2013 o holand\u00eas, o ingl\u00eas, o castelhano e papiamento (a l\u00edngua criada pelos arubianos e que re\u00fane um vocabul\u00e1rio diverso, inclusive com ado\u00e7\u00e3o de palavras em portugu\u00eas).<\/p>\n<p>\u00c9 divertido v\u00ea-los esgrimir, com tranq\u00fcilidade, tamanha verve.<\/p>\n<p>Parece que eles possuem uma chavinha que, a depender das circunst\u00e2ncias e da nacionalidade do interlocutor, os coloca aptos \u00e0 conversa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Desde 1986, Aruba conseguiu desvincular-se das Antilhas Neerlandesas, tornando-se um territ\u00f3rio aut\u00f4nomo do Reino Unido dos Pa\u00edses Baixos.<\/p>\n<p>&#8212; Todos aqui se sentem orgulhosos e se consideram holandeses. Comemoram at\u00e9 o anivers\u00e1rio da rainha com feriado nacional e vestimenta cor de laranja.<\/p>\n<p>Enquanto aguardamos o embarque para a Sampa nossa de cada dia, o senhor de cabelos levemente acajuzados continua encantado com tudo o que viu e vivenciou na ilha. <\/p>\n<p>&#8212; Estamos deixando o para\u00edso, lamenta mais uma vez.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Um breve sil\u00eancio&#8230;<\/p>\n<p>E ele retoma o assunto: as maravilhas da ilha de Aruba.<\/p>\n<p>&#8212; Sabe que visitei um campo de golfe? Pois \u00e9, a grama parece um tapete, de t\u00e3o verdinha e bem aparada.<\/p>\n<p>Desligado que sou, nem me incomodo com a suposta impossibilidade de se manter uma impec\u00e1vel \u00e1rea verde em um lugar onde n\u00e3o chove e sequer existe rios. Mas, o meu falante interlocutor resolve explicitar o mist\u00e9rio mesmo antes que eu me d\u00ea conta dele:<\/p>\n<p>&#8212; Eles usam \u00e1gua de reuso para molhar o campo. Verdade! Eles t\u00eam um acordo com a rede de hot\u00e9is que encaminha para um grande reservat\u00f3rio todo o consumo de \u00e1gua da turistada, como n\u00f3s. <\/p>\n<p>Achei a ideia engenhosa. <\/p>\n<p>Ele achou o m\u00e1ximo.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o h\u00e1 desperd\u00edcio. Enquanto lavamos as m\u00e3os, escovamos os dentes, tomamos nosso banho, estamos contribuindo para aguar o campo. N\u00e3o \u00e9 genial?<\/p>\n<p>Tento me conformar com o meu desinteresse. Fiquei sete dias por ali, zanzando do hotel para a praia, da praia para o hotel. Fui a um ou outro restaurante, olhei algumas vitrines, acompanhei o por do sol, e olhe l\u00e1.<br \/>\n\u00c9 certo que ouvi algumas hist\u00f3rias. Mas, nem me preocupei em guard\u00e1-las.<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho nada a dizer ao novo amigo, portanto. <\/p>\n<p>Ele, por sua vez, creio, dispensaria inteiramente os meus coment\u00e1rios. Fala entusiasmado de suas aventuras na bela ilha. <\/p>\n<p>Diz que andou de catamaran, mergulhou de snorkeling, prospectou o fundo do mar a bordo de um submarino para turistas e, ousadia das ousadias, voou em um para-queda puxado por uma lancha, em mar aberto. <\/p>\n<p>&#8212; Uma loucura. Me senti vinte anos mais mo\u00e7o, comenta orgulhoso por tantas e tamanhas peraltices. <\/p>\n<p>Ao seu lado, sorridente e feliz, a jovem esposa aquiesceu \u00e0s palavras do marid\u00e3o, com sorriso c\u00famplice:<\/p>\n<p>&#8212; Os meninos est\u00e3o admirados da coragem do pai, e eu tamb\u00e9m. <\/p>\n<p>O senhorzinho, todo gabola, ajeita o bermud\u00e3o pra cima da linha da cintura. <\/p>\n<p>&#8212; Bem, assim n\u00e3o se usa mais. Deixa o cinto mais frouxo, como se fosse cair, corrige a mo\u00e7a atenta \u00e0 deseleg\u00e2ncia discreta do Pimp\u00e3o. <\/p>\n<p>Conversa vai, conversa vem, olho os garotos, tostados do sol e felizes que s\u00f3. Correm barulhentos entre os bancos do sagu\u00e3o. Respiram os \u00faltimos instantes daquela sensa\u00e7\u00e3o de liberdade. Que, ali\u00e1s, era comum a todos ali. Inclusive em mim, que me permiti uma \u00fanica excentricidade. <\/p>\n<p>Comprei um chap\u00e9u panam\u00e1 que, provavelmente, nunca vou usar&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O homenzarr\u00e3o, de cabelos em tom acaju, n\u00e3o se conteve.<\/p>\n<p>Entregou os passaportes da fam\u00edlia para os inspetores do aeroporto Reina Beatrix para carimbar o visto de sa\u00edda e exclamou,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-12240","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-parangoles"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12240","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12240"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12240\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13935,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12240\/revisions\/13935"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12240"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12240"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12240"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}