{"id":12285,"date":"2012-08-04T00:00:00","date_gmt":"2012-08-04T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:23:51","modified_gmt":"2017-09-15T19:23:51","slug":"o-cubano","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-cubano\/","title":{"rendered":"O Cubano"},"content":{"rendered":"<p>Tinha um bon\u00e9 de Cuba.<\/p>\n<p>N\u00e3o me perguntem como conseguiu a preciosidade. Se foi no camel\u00f4 da esquina ou algu\u00e9m lhe trouxe como presente de viagem.<\/p>\n<p>Sei que Sime\u00e3o adorava o adere\u00e7o.<\/p>\n<p>Fosse onde fosse, l\u00e1 ia ele com o indefect\u00edvel bon\u00e9.<\/p>\n<p>Era preto, de aba vermelha, com uma bandeira do Pa\u00eds bordada na parte da frente e escrito Cuba em um dos lados.<\/p>\n<p>Sime\u00e3o o adorava.<\/p>\n<p>Tanto que, a partir dele, tomou gosto pelas coisas da Ilha. Leu o livro de Fernando Moraes e as obras de Hemingway, cortou sua assinatura de O Estado de S. Paulo, passou a ouvir rumba e \u201cGuatanamera\u201d, tornou-se um ex\u00edmio bailarino de salsa e, acreditem, um fan\u00e1tico defensor do regime socialista.<\/p>\n<p>Como resultado de todas essas mudan\u00e7as: ganhou o apelido de Cubano e algumas dores de cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>H\u00e3o de convir com este modesto escriba que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil para \u201cum cubano da gema\u201d, como Sime\u00e3o, viver em um pa\u00eds capitalista como o nosso em plena euforia da emergente classe C. Valha-nos Deus!<\/p>\n<p>Ops&#8230;<\/p>\n<p>Para ele, religi\u00e3o tamb\u00e9m estava fora de cogita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 instrumento de controle e manipula\u00e7\u00e3o das massas\u201d, dizia em seus arroubos castritas.<\/p>\n<p>Sime\u00e3o tamb\u00e9m n\u00e3o tinha com quem discutir beisebol e boxe. Todos ao redor s\u00f3 falavam de futebol. E todos se incomodavam quando ele se punha a fumar charutos&#8230;<\/p>\n<p>Enfim, restava-lhe o Google e os mojitos (que ele pr\u00f3prio preparava) para abrandar a saudade da terra que sequer conhecia, mas amava despudoradamente.<\/p>\n<p>Comovidos com tamanho sentimento, os amigos resolveram cotizar-se para propiciar uma viagem \u201cde uma semana que fosse\u201d para que Sime\u00e3o finalmente conhecesse o lugar de seus sonhos.<\/p>\n<p>A princ\u00edpio, ele relutou em aceitar o presente. <\/p>\n<p>Algu\u00e9m insistiu, com ironia:<\/p>\n<p>&#8212; Deixe de bobagem, queremos nos livrar de voc\u00ea.<\/p>\n<p>Outro preferiu ser mais realista:<\/p>\n<p>&#8212; V\u00e1 ver, de perto, como \u00e9 o tal para\u00edso socialista, v\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>Um terceiro contemporizou:<\/p>\n<p>&#8212; Um amigo \u00e9 para o outro. Voc\u00ea ama tanto essa ilha que \u00e9 um dever da nossa amizade lhe ajudar na realiza\u00e7\u00e3o deste sonho.<\/p>\n<p>Sime\u00e3o resolveu aceitar. Tirou f\u00e9rias do emprego humilde de escritur\u00e1rio da reparti\u00e7\u00e3o p\u00fablica \u2013 e partiu.<\/p>\n<p>Nunca mais, naquele boteco chinfrim em que nos reun\u00edamos, na esquina da rua Bom Pastor com a rua Grenfeeld, onde o Sacom\u00e3 torce o rabo e o \u00f4nibus F\u00e1brica-Pinheiros bufafa e rangia ao fazer a curva tivemos not\u00edcia de Sime\u00e3o, o Cubano de araque.<\/p>\n<p>Tempos depois, algu\u00e9m chegou com o cart\u00e3o postal e a not\u00edcia.<\/p>\n<p>(N\u00e3o havia facebook \u00e0 \u00e9poca.)<\/p>\n<p>No ala de embarque do aeroporto de Guarulhos, o Cubano conhecera Nancy, um pit\u00e9u de americanazinha; cabelos loiros, olhos claros e uma deliciosa comiss\u00e3o de frente. De imediato, virou a chavinha dos sonhos poss\u00edveis e realiz\u00e1veis.<\/p>\n<p>N\u00e3o me perguntem em que idioma conversaram e se entenderam. Hoje, ele mora em Miami,  atende pelo nome de Silva, e \u00e9 guia de compras para brasileiros desesperados que v\u00e3o gastar os tubos na cidade.<\/p>\n<p>Est\u00e1 feliz pra caramba, cada vez mais apaixonado por Nancy.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do que, trocou o bon\u00e9 por um vistoso chap\u00e9u panam\u00e1.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tinha um bon\u00e9 de Cuba.<\/p>\n<p>N\u00e3o me perguntem como conseguiu a preciosidade. 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