{"id":12288,"date":"2012-08-06T00:00:00","date_gmt":"2012-08-06T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T03:50:46","modified_gmt":"2017-09-14T03:50:46","slug":"silvestre-o-cinquentao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/silvestre-o-cinquentao\/","title":{"rendered":"Silvestre, o cinquent\u00e3o *"},"content":{"rendered":"<p>&#8212; Tome juizo, Silvestre, mais dia, menos dia, o Doutor descobre essa sua vida desregrada e lhe coloca no olho da rua. Voc\u00ea sabe o quanto o homem \u00e9 religioso e o quanto preza a fam\u00edlia, os bons costumes; todas essas conven\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Dia sim e outro tamb\u00e9m, tirante uma ou outra palavra, era este o teor do conselho que Silvestre ouvia assim que chegava ao batente, um renomado escrit\u00f3rio de advocacia, onde garantia o leite dos filhos (tr\u00eas, com a af\u00e1vel Marinalva), o terno novo a cada dois meses e a grana para a gandaia generalizada em que se metia regularmente ap\u00f3s o expediente.<br \/>\nN\u00e3o sei se gandaia \u00e9 o termo correto. O quase cinquent\u00e3o Silvestre n\u00e3o era de bares e de porres desbragados. Como ele pr\u00f3prio dizia \u2013 para g\u00e1udio e posteriores coment\u00e1rios malediscentes da rapaziada do escrit\u00f3rio &#8211;, era viciado em mulher. N\u00e3o conseguia viver sem elas \u2013 assim mesmo, no plural; em especial, n\u00e3o passava sem D\u00eazinha. <\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>O nome exato da mo\u00e7oila nunca se soube. Silvestre era doido por ela. Capaz das maiores aventuras para ficar ao seu lado. Passava dias sem dar as caras em casa, s\u00f3 no desfrute. Inventava mil e uma desculpas. De finaliza\u00e7\u00e3o de processos em ser\u00f5es que nunca existiram a viagens internacionais. Certa ocasi\u00e3o, o casal passou uma semana em Paris para comemorar o primeiro ano de uni\u00e3o inst\u00e1vel.<\/p>\n<p>Foi um perereco amarrar todas as pontas do novelo: arranjar dinheiro para a viagem e deixar outro tanto em casa, pegar uns dias de folga no servi\u00e7o, convencer a mulher que iria viajar a neg\u00f3cio e garantir ao Doutor que iria para um mosteiro em retiro espiritual, \u201cindispens\u00e1vel para quem est\u00e1 prestes a completar meio s\u00e9culo de exist\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>&#8212; Olha, um dia o Doutor descobre essas mazelas \u2013 e lhe p\u00f5e pra fora. Nessa fase da vida, onde voc\u00ea vai encontrar sal\u00e1rio igual?<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Os avisos se repetiam. \u00c9 certo que os colegas admiravam \u2013 e at\u00e9 invejavam \u2013a coragem de Silvestre viver na loucura em que vivia.<\/p>\n<p>Gostavam de ouvir suas hist\u00f3rias e, na boa, era o que dava o tom das conversas cotidianas. Se n\u00e3o fossem t\u00e3o bund\u00f5es, at\u00e9 toparia uma ou outra experi\u00eancia do g\u00eanero. Mas, \u00e9 certo tamb\u00e9m que preferiam a zona de conforto da casa ao trabalho, do trabalho para casa, com um futebolzinho e algumas cervejas de entremeio.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m soube exatamente o motivo. <\/p>\n<p>(D\u00eazinha deve ter aprontado alguma, desconfiou-se.)<\/p>\n<p>Determinada tarde, por\u00e9m, Silvestre foi lac\u00f4nico no informe.<\/p>\n<p>&#8212; Parei.<\/p>\n<p>A turma quis saber exatamente sobre o qu\u00ea Silvestre dizia.<\/p>\n<p>&#8212; Ok! Voc\u00eas venceram. A partir de hoje, n\u00e3o quero mais me meter em confus\u00e3o. Tenho quase cinquenta anos \u2013 e algumas coisas n\u00e3o fazem mais sentido. Serei um homem do trabalho e da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>E repetiu:<\/p>\n<p>&#8212; Parei.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Alguns acreditaram. Outros, n\u00e3o fizeram a m\u00ednima f\u00e9.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que, a partir desse dia, Silvestre n\u00e3o perdeu mais o hor\u00e1rio. N\u00e3o se ouviu mais as delirantes narrativas das aventuras em que se metia, nem nada. O homem era de um recato, digno de um monge enclausurado.<br \/>\nEra monossil\u00e1bico nas conversas:<\/p>\n<p>&#8211; Sim<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Talvez. <\/p>\n<p>Eram suas respostas costumeiras. <\/p>\n<p>Vez ou outra se queixava das contas do m\u00eas. Do eletrodom\u00e9stico que foi para o conserto, da sogram que viera para uma temporada, do rendimento dos meninos na escola&#8230; Coisas do lar.<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Aos poucos, os colegas foram distanciando-se do chato. Houve quem pedisse encarecidamente que n\u00e3o o deixasse a s\u00f3s com o \u2018empata\u2019 do Silvestre.<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 sempre a mesma ladainha. O cara est\u00e1 varrendo o ch\u00e3o com os c\u00edlios&#8230;<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>Pior aconteceu em um in\u00edcio de ano.<\/p>\n<p>O escrit\u00f3rio perdeu uma s\u00e9rie de bons clientes.<\/p>\n<p>Foi preciso um rearranjo de fun\u00e7\u00f5es no organograma da empresa.<\/p>\n<p>Os grupos de trabalho se organizaram e, pasmem!, o pessoal esquecer de inclu\u00ed-lo na for\u00e7a-tarefa.<\/p>\n<p>VIII.<\/p>\n<p>O Doutor n\u00e3o teve d\u00favidas.<\/p>\n<p>Silvestre foi o primeiro nome da lista do passaralho.<\/p>\n<p>Para tanto, usou um preceito b\u00edblico, que todos ali entenderam \u2013 e, n\u00e3o<br \/>\nsem raz\u00e3o, se sentiram algo culpados:<\/p>\n<p>\u201cQuem deras fosses frio ou quente! Assim porque \u00e9s morno, nem frio, nem quente; estou pronto a vomitar-te da minha boca\u201d.<\/p>\n<p>Pobre Silvestre, o cinquent\u00e3o arrependido.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8212; Tome juizo, Silvestre, mais dia, menos dia, o Doutor descobre essa sua vida desregrada e lhe coloca no olho da rua. 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