{"id":12326,"date":"2012-09-25T00:00:00","date_gmt":"2012-09-25T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:22:44","modified_gmt":"2017-09-15T19:22:44","slug":"profissao-e-fe","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/profissao-e-fe\/","title":{"rendered":"Profiss\u00e3o e f\u00e9"},"content":{"rendered":"<p>O jornalista n\u00e3o deve temer chegar ao fundo do po\u00e7o na busca dos fatos, da verdade. \u00c9 preciso encarar de frente todos os sacrif\u00edcios que esta verdade imp\u00f5e. N\u00e3o \u00e9 muito f\u00e1cil. Mas, se n\u00e3o for assim, \u00e9 melhor procurar outra profiss\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>A voz convicta do professor de jornalismo n\u00e3o deixa transparecer qualquer rancor. Fala naturalmente ao exigir mais seriedade. Um grupo de alunos amea\u00e7ou reclamar. Todos est\u00e3o convocados a trocar um prov\u00e1vel fim-de-semana ensolarado pela presen\u00e7a obrigat\u00f3ria na elabora\u00e7\u00e3o de um notici\u00e1rio sobre os problemas de transporte na cidade universit\u00e1ria. N\u00e3o h\u00e1 formalismos, nem<br \/>\npose de \u201cdono-da-verdade\u201d. Apenas deixa bem n\u00edtido que ele n\u00e3o est\u00e1 ali s\u00f3 de passagem.<\/p>\n<p>&#8211; Se n\u00e3o for assim, \u00e9 melhor procurar outra profiss\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Semanas depois, assistindo ao espet\u00e1culo \u201cBrasileiro &#8211; Profiss\u00e3o Esperan\u00e7a\u201d, percebe-se os atores em cena \u2013 Paulo Gracindo e a cantora Clara Nunes &#8211; visivelmente emocionados. H\u00e1 um clima de profunda tristeza e indigna\u00e7\u00e3o. Fim da sess\u00e3o, aplausos. Clara n\u00e3o cont\u00e9m o choro. Gracindo d\u00e1 a not\u00edcia.<\/p>\n<p>25 de outubro de 1975. O jornalista e professor Vladimir Herzog morreu tragicamente nas depend\u00eancias do D\u00d3I-CODI de S\u00e3o Paulo. Sil\u00eancio. Tristeza e indigna\u00e7\u00e3o. E a hist\u00f3ria deste Pa\u00eds come\u00e7ou a mudar.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 preciso encarar de frente todos os sacrif\u00edcios.<\/p>\n<p>S\u00e3o os tempos negros do arb\u00edtrio. O Governo M\u00e9dici fez \u201cescola\u201d. E mesmo o presidente Ernesto Geisel encontra s\u00e9rias dificuldades para conter os \u201cabusos\u201d em S\u00e3o Paulo. Organismos militares e para-militares agem desbravadamente em nome do que entendem \u201cseguran\u00e7a nacional\u201d.<\/p>\n<p>A morte de Vlado \u00e9 a primeira arbitrariedade a escapulir da a\u00e7\u00e3o dos censores oficiais, a primeira not\u00edcia a \u201cpassar\u201d ao brasileiro m\u00e9dio a no\u00e7\u00e3o exata de que o Pa\u00eds est\u00e1 subjugado \u00e0 nefasta ditadura. Apesar da aparente tranquilidade. Apesar da propaganda massificadora. Apesar do tal \u201cmilagre econ\u00f4mico\u201d. Apesar de tudo, h\u00e1 muito o que ser feito.<\/p>\n<p>Os dias que seguem \u00e0 morte do jornalista s\u00e3o de muita movimenta\u00e7\u00e3o. E apreens\u00e3o. Pol\u00edticos do MDB, jornalistas, artistas, estudantes, l\u00edderes sindicais e representantes de entidades civis re\u00fanem-se na Pra\u00e7a da S\u00e9 para um culto lit\u00fargico em mem\u00f3ria de Vlado. O arcebispo de S\u00e3o Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, recebe amea\u00e7as e recomenda\u00e7\u00f5es para os riscos da manifesta\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo \u00e9 \u201ctomada\u201d por comandos que, espalhados em pontos estrat\u00e9gicos, interceptam a quem bem entendem.<\/p>\n<p>Milhares chegam \u00e0 Catedral e participam do ato (e s\u00e3o filmados pelos agentes da repress\u00e3o). <\/p>\n<p>O tempo passa e atravessa a avenida. O fruto cresce&#8230; <\/p>\n<p>Dez anos depois, o Brasil vive a expectativa da Nova Rep\u00fablica. A Na\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o tem tudo o que merece. Os desmandos dos donos do Poder foram devastadores, implac\u00e1veis. Mas, h\u00e1 que se reconhecer, conseguimos avan\u00e7os indiscut\u00edveis. As greves do ABC em 78, a elei\u00e7\u00e3o dos governadores em 82, as Diretas-j\u00e1 em 84, a vit\u00f3ria de Tancredo Neves &#8211; enfim, a Nova Rep\u00fablica. <\/p>\n<p>Estamos longe do ideal, mas, j\u00e1 se andou um \u201cbocado\u201d. O empenho e a disposi\u00e7\u00e3o da nossa gente asseguram vida longa para os ideais de Vlado<br \/>\ne de tantos outros que desapareceram v\u00edtimas da repress\u00e3o, da ignom\u00ednia.<\/p>\n<p>\u00c9 sempre bom ter em mente a import\u00e2ncia do momento hist\u00f3rico que vivemos. Nossa t\u00eanue democracia depende &#8211; e muito &#8211; da participa\u00e7\u00e3o de todos. N\u00e3o pode haver vacilo, nem retrocesso. S\u00f3 assim ser\u00e3o poss\u00edveis novas conquistas. S\u00f3 assim, com a participa\u00e7\u00e3o de todos &#8211; repito -, ser\u00e1 poss\u00edvel transformar em realidade o sonho de um Brasil para todos os brasileiros.<\/p>\n<p>\u2022Texto que escrevi em 25 de outubro de 1.985 para a coluna \u201cCaro Leitor\u201d e que posteriormente foi publicado no meu livro \u201c\u00c0s Margens Pl\u00e1cidas do  Ipiranga\u201d, lan\u00e7ado em 1997.<\/p>\n<p>\u2022Por solicita\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade, o juiz M\u00e1rcio Martins Bonilha Filho, da 2\u00aa Vara de Registros P\u00fablicos do Tribunal de Justi\u00e7a de S\u00e3o Paulo, determinou ontem a retifica\u00e7\u00e3o do atestado de \u00f3bito do jornalista Vladimir Herzog, morto em outubro de 1975, nas depend\u00eancias do DOI-Codi em S\u00e3o Paulo. A vers\u00e3o de que o jornalista suicidou-se ser\u00e1 alterada e, no documento, constar\u00e1 que sua morte \u201cdecorreu de les\u00f5es e maus-tratos sofridos em depend\u00eancia do 2\u00ba Ex\u00e9rcito de S\u00e3o Paulo. A Justi\u00e7a que tarda falha&#8230;<\/p>\n<p>\u2022O blog completa hoje seis anos de vida&#8230; Agrade\u00e7o a aten\u00e7\u00e3o de meus am\u00e1veis cinco ou seis leitores que insistem em me acompanhar neste humilde espa\u00e7o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O jornalista n\u00e3o deve temer chegar ao fundo do po\u00e7o na busca dos fatos, da verdade. \u00c9 preciso encarar de frente todos os sacrif\u00edcios que esta verdade imp\u00f5e. 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