{"id":12358,"date":"2012-11-08T00:00:00","date_gmt":"2012-11-08T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:22:40","modified_gmt":"2017-09-15T19:22:40","slug":"a-memoria-do-amigo-ruggiero","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-memoria-do-amigo-ruggiero\/","title":{"rendered":"\u00c0 mem\u00f3ria do amigo Ruggiero"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9ramos jovens e inconsequentes, na opini\u00e3o do Marques, o veterano jornalista que dividia com a gente aqueles dias encantados, na velha reda\u00e7\u00e3o de piso assoalhado e grandes janel\u00f5es para a rua Bom Pastor.<\/p>\n<p>\u00c9 muito prov\u00e1vel que fossemos mesmo.<\/p>\n<p>T\u00ednhamos pouco mais de 20 anos e toda a pretens\u00e3o do mundo.<\/p>\n<p>O \u00fanico que escapava a esse perfil, creio, era o Ruggiero.<\/p>\n<p>N\u00e3o lembro se era casado, se tinha filhos. Lembro que tinha outro emprego &#8211; funcion\u00e1rio p\u00fablico, da Justi\u00e7a Eleitoral \u2013, um ar professoral e aparecia na reda\u00e7\u00e3o uma vez por semana para entregar a coluna de teatro.<\/p>\n<p>Ele se auto-intitulava \u201ccr\u00edtico de teatro\u201d e tinha o objetivo de ser renomado dramaturgo. Ali\u00e1s, j\u00e1 havia escolhido o t\u00edtulo para a sua primeira montagem: Can\u00e7\u00e3o \u00e0 Terra Amanhecida.<\/p>\n<p>Po\u00e9tico, muito apropriado para o contexto sombrio e esperan\u00e7oso daqueles idos dos anos 70.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Como disse acima, \u00e9ramos jovens e incosequentes.<\/p>\n<p>Por isso, n\u00e3o faltavam coment\u00e1rios e piadas entre n\u00f3s sobre o colaborador e suas platitudes.<\/p>\n<p>\u00c9 bem verdade que a pe\u00e7a nunca saiu.<\/p>\n<p>Ruggiero, indiferente a tudo e a todos, falou que a tem\u00e1tica era \u00f3tima para um volumoso romance \u00e9pico que logo, logo estaria publicado. A\u00ed, sim, pensaria em transformar o texto em uma vers\u00e3o teatral. Afinal, eram muitas as verdades a serem ditas.<\/p>\n<p>O romance tamb\u00e9m n\u00e3o vingou. E, por fim, Can\u00e7\u00e3o \u00e0 Terra Amanhecida virou uma longa poesia que, serei sincero, n\u00e3o nos demos ao trabalho de ler. Mas, foi impressa em um pequeno livreto, de tiragem reduzida e edi\u00e7\u00e3o humilde.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Para divulgar a proeza, Ruggiero n\u00e3o teve d\u00favidas.<\/p>\n<p>Realizou uma auto-entrevista, falando da fun\u00e7\u00e3o social da arte e tecendo elogios aos novos e corajosos rumos da literatura nativa. <\/p>\n<p>Ficamos abestados quando o AC, o editor, sinalizou positivamente para aquele arrazoado de letrinhas e encaminhou ao diagramador para que fosse publicado com destaque.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Repito. \u00c9ramos jovens e inconseq\u00fcentes, mas imagin\u00e1vamos ter alguma no\u00e7\u00e3o de jornalismo.<\/p>\n<p>Fomos l\u00e1 \u201cpeitar\u201d o AC sobre a decis\u00e3o.<\/p>\n<p>Como de h\u00e1bito, deu de ombros para os nossos reclamos.<\/p>\n<p>Foi definitivo na argumenta\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8212; Aqui, mando eu. Deixem de ci\u00fames. N\u00e3o h\u00e1 nada de errado com o Ruggiero, ele \u00e9 apenas um sonhador. Aprendam com ele a lutar pelos pr\u00f3prios sonhos, se \u00e9 que voc\u00eas t\u00eam algum.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Semanas depois, Ruggiero come\u00e7ou a rarear em suas visitas \u00e0 Reda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Soubemos, ent\u00e3o, que estava com uma doen\u00e7a incur\u00e1vel.<\/p>\n<p>S\u00f3 a\u00ed entendemos o que o levou a fazer o que fez.<\/p>\n<p>A not\u00edcia de sua morte chegou em uma tarde nebulosa e indecisa como a de hoje. <\/p>\n<p>As m\u00e1quinas de escrever pararam por alguns minutos. Ficamos em sil\u00eancio a remoer nossos remorsos e tristezas . <\/p>\n<p>\u00c9ramos jovens, inconsequentes e, naquele momento, reverenci\u00e1vamos a mem\u00f3ria de quem nos ensinou que a vida s\u00f3 vale a pena se lutarmos por nossos sonhos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9ramos jovens e inconsequentes, na opini\u00e3o do Marques, o veterano jornalista que dividia com a gente aqueles dias encantados, na velha reda\u00e7\u00e3o de piso assoalhado e grandes janel\u00f5es para a rua Bom Pastor.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-12358","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12358","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12358"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12358\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15643,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12358\/revisions\/15643"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12358"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12358"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12358"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}