{"id":12365,"date":"2012-11-19T00:00:00","date_gmt":"2012-11-19T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:22:39","modified_gmt":"2017-09-15T19:22:39","slug":"terra-sem-lei","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/terra-sem-lei\/","title":{"rendered":"Terra sem lei&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>O rep\u00f3rter desceu at\u00f4nito do helic\u00f3ptero. N\u00e3o foi o medo de voar que o deixara assim. Afinal, n\u00e3o era t\u00e3o raro acompanhar o rep\u00f3rter-fotogr\u00e1fico pelos ares para fotos a\u00e9reas numa das pautas que desenvolviam, sempre que poss\u00edvel, sobre o meio-ambiente. Gostava do assunto: preserva\u00e7\u00e3o da fauna, da flora, da vida. Gostava mais de fugir da rotina das reda\u00e7\u00f5es e, principalmente, de fugir das tristezas e trag\u00e9dias que, queiram ou n\u00e3o, os jornais obrigatoriamente precisam noticiar cotidianamente. Naquele dia ensolarado, um presente dos c\u00e9us, voaria pelos arredores de S\u00e3o Bernardo para uma reportagem especial sobre a Mata Atl\u00e2ntica. <\/p>\n<p>&quot;Seria mam\u00e3o com a\u00e7\u00facar&quot;, como gostava de dizer o fot\u00f3grafo que o acompanharia na aventura. Hora e meia depois de sobrevoo tranquilo, o amigo era s\u00f3 entusiasmo com os belos registros a\u00e9reos que conseguira fazer da devasta\u00e7\u00e3o que toda \u00e1rea vem vivendo nas \u00faltimas d\u00e9cadas. <\/p>\n<p>O rep\u00f3rter voltou para a Reda\u00e7\u00e3o em sil\u00eancio. O rosto crispado, os olhos revelavam preocupa\u00e7\u00e3o &#8211; e medo. Isto mesmo, medo do que acabara de ver.<\/p>\n<p>&quot;E o que voc\u00ea viu l\u00e1 de cima&quot;, perguntou o parceiro, \u00e1vido por arranjar um c\u00famplice para sua alegria. <\/p>\n<p>&quot;O que vi?&quot; &#8211; respondeu, sem alterar a express\u00e3o de desalento. &quot;Vi alguns vietn\u00e3s de miser\u00e1veis que cercam nossas cidades, prontos a explodir&quot;. <\/p>\n<p>N\u00e3o houve qualquer outro coment\u00e1rio durante todo o restante do trajeto. Tempo em que o rep\u00f3rter p\u00f4de repassar anos remotos, quando costumava a freq\u00fcentar aquele lugar, \u00e0s margens da represa Billings, com o pai e alguns amigos, para andar de barco, pescar, divertir-se com uma bola num canto qualquer que pudesse se transformar num glorioso est\u00e1dio de futebol. Tinha a imagem daquele lugar como a de um para\u00edso \u00e1rvores, riachos, animais, peixes, flores e a imensid\u00e3o da represa &#8211; tudo, ali, convivendo harmoniosamente. <\/p>\n<p>E o que vira agora l\u00e1 de cima? A regi\u00e3o havia se transformado num monstruoso aglomerado de submoradias, onde sequer as \u00e1reas de mananciais foram respeitadas pelo contingente dos desvalidos. Entendeu o porqu\u00ea de tanta viol\u00eancia e a degrada\u00e7\u00e3o do tecido social. Entendeu mais: o amado e pac\u00edfico Pa\u00eds &#8211; a come\u00e7ar pelos grandes centros urbanos, mas n\u00e3o s\u00f3 eles &#8211; estava mesmo a enfrentar uma guerra civil absurda, sem qualquer ideologia, em que o \u2018inimigo\u2019 n\u00e3o tem rosto e pode nos atacar em qualquer esquina. Por um trocado, um celular, um par de t\u00eanis. Pior: somos v\u00edtimas e algozes, ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>*Trecho de reportagem que escrevi em maio de 2002 sobre a quest\u00e3o da viol\u00eancia urbana na Grande S\u00e3o Paulo. Dez anos depois, o Pa\u00eds vive novas perspectivas de desenvolvimento econ\u00f4mico, com a inclus\u00e3o de milh\u00f5es de brasileiros no rota do consumo e do desenvolvimento econ\u00f4mico. S\u00f3 que nenhuma dessas proje\u00e7\u00f5es consegue conter o avan\u00e7o da criminalidade e do que os especialistas chamam de justi\u00e7a social. Mata-se por um trocado, por um celular, por um par de t\u00eanis.Mata-se por matar ou apenas para mostrar que a maior cidade da Am\u00e9rica Latina \u00e9 terra sem lei&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O rep\u00f3rter desceu at\u00f4nito do helic\u00f3ptero. N\u00e3o foi o medo de voar que o deixara assim. 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