{"id":12411,"date":"2013-01-25T00:00:00","date_gmt":"2013-01-25T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T03:49:37","modified_gmt":"2017-09-14T03:49:37","slug":"na-abadia-de-sao-victor","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/na-abadia-de-sao-victor\/","title":{"rendered":"Na Abadia de S\u00e3o Victor&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>O sil\u00eancio da Abadia de S\u00e3o Victor, um dos pontos de peregrina\u00e7\u00e3o (e turismo) de Marselha, era quebrado, de minuto em minuto, pelos gemidos e reclamos de um senhor que se ajoelhara em um dos bancos em frente ao altar-mor.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo em que grunhia palavras intelig\u00edveis, em um idioma desconhecido e, suponho, imagin\u00e1rio, estapeava o ar freneticamente, como se estivesse afastando algu\u00e9m que o molestava duramente.<\/p>\n<p>Era vis\u00edvel a afli\u00e7\u00e3o do homem de porte longil\u00edneo, de rosto sofrido, com a barba a lhe ro\u00e7ar o peito.<\/p>\n<p>Na penumbra do santu\u00e1rio, n\u00e3o dava para ter certeza quem era ele. Um turista, como a maior parte das pessoas que ali estava? Um peregrino? Um mendigo? Um desvalido, desses que andam por a\u00ed sem ter aonde chegar?<\/p>\n<p>Fosse o que fosse, a cena perturbava a calma do lugar.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Os visitantes, turistas ou n\u00e3o, olhavam para ele com um naco de temor e outro tanto de c\u00f4moda indiferen\u00e7a.<\/p>\n<p>A Abadia de S\u00e3o Victor, situada em uma colina com vista para o sereno mar Mediterr\u00e2neo, tem como ponto alto das visita\u00e7\u00f5es a cripta onde, presume-se, repousam os esp\u00f3lios dos santos m\u00e1rtires \u2013 Victor, L\u00e1zaro e Maria Madalena. N\u00e3o h\u00e1 comprova\u00e7\u00e3o cient\u00edfica da autenticidade de tais rel\u00edquias. Foi a peregrina\u00e7\u00e3o dos fi\u00e9is, ao longo dos s\u00e9culos, que d\u00e1 sustenta\u00e7\u00e3o \u00e0 mem\u00f3ria e ao culto dos santos.<\/p>\n<p>A Igreja, como institui\u00e7\u00e3o, n\u00e3o confirma, nem autentica. Mas, n\u00e3o teve (e n\u00e3o tem) como impedir mais esta manifesta\u00e7\u00e3o de f\u00e9.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se quem estava ali, naqueles momentos, conhecia essa hist\u00f3ria. Sei que a tal solidariedade e ajuda fraterna passavam andavam distantes. Passava ao largo de qualquer valor crist\u00e3o e\/ou humanit\u00e1rio que a Igreja promove e recomenda.<\/p>\n<p>N\u00e3o me eximo de culpa. <\/p>\n<p>Quando vou a uma igreja, seja aqui ou em viagens, busco instantes de paz e conforto, espa\u00e7os que s\u00e3o cada vez mais raros em nossa fatigada vida cotidiana.<\/p>\n<p>A afli\u00e7\u00e3o do homem me incomodava. Confesso, por\u00e9m, que em nenhum momento pensei em me inteirar melhor do que estava acontecendo. N\u00e3o passou pela minha cabe\u00e7a e, pelo que pude perceber, de ningu\u00e9m ali presente.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m virgula.<\/p>\n<p>Um casal de motociclistas \u2013 digo motociclistas, pois ambos traziam um capacete enfiado em um dos bra\u00e7os, como se fosse uma desproporcional pulseira \u2013 interrompeu o p\u00e9riplo pelo santu\u00e1rio ao perceber a cena. <\/p>\n<p>O homem dirigiu-se, ent\u00e3o, em passos firmes ao lugar onde estava o sofredor. A mulher permaneceu a certa dist\u00e2ncia, com pequeno ros\u00e1rio entre os dedos de uma das m\u00e3os.<\/p>\n<p>Ao se aproximar, ele estendeu o bra\u00e7o direito e tocou levemente o alto da cabe\u00e7a do outro que, segundos depois, se aquietou, como por encanto.<\/p>\n<p>Ficaram assim por minutos.<\/p>\n<p>Como se um aben\u00e7oasse o outro.<\/p>\n<p>Como se unissem em um \u00fanico leve sussurrar suas mais sinceras ora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Houve ali um pacto, creio.<\/p>\n<p>Uma manifesta\u00e7\u00e3o de f\u00e9 e de amor ao pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>Uma brev\u00edssima vis\u00e3o do Mist\u00e9rio.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Sem qualquer outra palavra, o motociclista se afastou. <\/p>\n<p>Tinha o semblante sereno de quem cumpre uma miss\u00e3o.  <\/p>\n<p>E  assim, como se nada houvesse acontecido, continuou seu roteiro ao lado da companheira.<\/p>\n<p>O templo voltou a ficar em sil\u00eancio. <\/p>\n<p>S\u00f3 era poss\u00edvel ouvir os passos dos visitantes e, vez ou outra, o espocar do flash de alguma m\u00e1quina fotogr\u00e1fica.<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Eu estava prestes a deixar a Abadia quando vi o homem \u2013 antes transtornado \u2013 levantar-se calmamente.  Vestir o casaco de bom talho, aprumou a mochila nas costas, persignou-se diante do altar e saiu pleno de paz.<\/p>\n<p>Podia ser qualquer um de n\u00f3s, pensei.<\/p>\n<p>E eu, que nem rezar direito sei, murmurei trecho do Serm\u00e3o da Montanha (Matheus, V, 1-12):<\/p>\n<p>\u201cBem aventurados os que choram, porque eles ser\u00e3o consolados&#8230;<\/p>\n<p>\u201cBem aventurados os pacificadores, porque eles ser\u00e3o chamados Filhos de Deus&#8230;<\/p>\n<p>\u201cBem aventurados os limpos de cora\u00e7\u00e3o, porque eles ver\u00e3o a Deus&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O sil\u00eancio da Abadia de S\u00e3o Victor, um dos pontos de peregrina\u00e7\u00e3o (e turismo) de Marselha, era quebrado, de minuto em minuto, pelos gemidos e reclamos de um senhor que se ajoelhara em um dos bancos em frente ao altar-mor.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-12411","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-parangoles"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12411","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12411"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12411\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13931,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12411\/revisions\/13931"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12411"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12411"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12411"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}