{"id":12423,"date":"2013-02-06T00:00:00","date_gmt":"2013-02-06T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:21:58","modified_gmt":"2017-09-15T19:21:58","slug":"escova-e-o-lusco-fusco-do-amor","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/escova-e-o-lusco-fusco-do-amor\/","title":{"rendered":"Escova e o lusco-fusco do amor"},"content":{"rendered":"<p>Em um ano que se perdeu na poeira da mem\u00f3ria, a velha Reda\u00e7\u00e3o de piso assoalhado e grandes janelas para a rua Bom Pastor j\u00e1 vivia a expectativa da cobertura de Carnaval que far\u00edamos nos pr\u00f3ximos dias.  <\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00eas s\u00e3o jovens e inconsequentes, dizia o Marc\u00e3o, veterano de tantas \u2018batalhas\u2019 jornal\u00edsticas que, ali, al\u00e9m de nos orientar no trabalho de rep\u00f3rter, era respons\u00e1vel pela coluna mais lida do jornal, \u201cRep\u00f3rter GI\u201d.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, quando \u00e9ramos destacados para coberturas mais amplas e de maior alcance popular, fic\u00e1vamos entusiasmados com a possibilidade de realizar \u2018a melhor reportagem\u2019. Havia uma saud\u00e1vel concorr\u00eancia entre n\u00f3s. O aspecto festivo do Carnaval tamb\u00e9m, e por vezes principalmente, tamb\u00e9m a\u00e7odava nosso \u00e2nimo, digamos, et\u00edlico-jornal\u00edstico.<\/p>\n<p>Marc\u00e3o tinha raz\u00e3o. \u00c9ramos jovens e inconsequentes.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Como comecei a dizer l\u00e1 no primeiro par\u00e1grafo, est\u00e1vamos nesse gostoso barulho quando um de n\u00f3s \u2013 n\u00e3o lembro quem \u2013 notou uma (in)certa indiferen\u00e7a por parte do Cebola (vamos preservar a identidade do amigo sob o apelido para evitar constrangimentos tardios). Era evidente que ele andava cabisbaixo, macamb\u00fazio e triste.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi dif\u00edcil saber o motivo.<\/p>\n<p>Vivia o lusco-fusco de um fim de romance, nunca oficializado, mas denso, trepidante com a bela mulata chamada Leonor ou Dagmar \u2013 o nome da mo\u00e7a era o que menos importava.<\/p>\n<p>Cebola n\u00e3o sabia se ia ou se ficava. Parava de vez com aquela montanha russa que lhe tirava a paz, mas de quebra lhe dava boas emo\u00e7\u00f5es. Se deveria insistir, ou se largava de vez.<\/p>\n<p>Mas, como largar?<\/p>\n<p>III.    <\/p>\n<p>Assim que a Reda\u00e7\u00e3o desvendou o motivo da crise do amigo, estabeleceu-se uma discuss\u00e3o existencial sobre como o Cebola deveria enfrentar a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Escova, o Dom Juan das Quebradas do Sacom\u00e3, tomou um ar professoral e come\u00e7ou a discursar. Falava de c\u00e1tedra: <\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o sei lhes dizer, caros amigos, se existe algo mais \u00e1spero e difuso do que identificar o ponto final de uma grande hist\u00f3ria de amor. Vejam bem, falei grande no sentido de intensidade, do tanto que se viveu, do tudo que se sonhou, as tais v\u00e3s ilus\u00f5es.<\/p>\n<p>Logo percebemos que o Escova, o fil\u00f3sofo das coisas do cora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o pararia t\u00e3o cedo com aquele quasquasquas.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Dito e feito. <\/p>\n<p>&#8212; Amigos, sei o que o amigo Cebola (que permanecia jururu, indiferente a tudo e a todos) est\u00e1 sentindo. N\u00e3o se mede sentimento, seja ele qual for, pela dura\u00e7\u00e3o, pelo tempo que durou. Avalia-se, creio eu, se foi bom ou ruim por tudo que representou, pela dimens\u00e3o das emo\u00e7\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>Algu\u00e9m cantarolou a can\u00e7\u00e3o de Roberto (\u201ce s\u00e3o tantas as emo\u00e7\u00f5es&#8230;\u201d), na v\u00e3 tentativa de calar o Escova, que nem se deu conta da ironia. <\/p>\n<p>&#8212; Ent\u00e3o, meus caros, penso que&#8230;<br \/>\nV.<\/p>\n<p>Foi neste exato momento que outro mestre da rapaziada, o inef\u00e1vel Nasci, que assinava a coluna \u201cAqui Agora\u201d, cansou de tanto trel\u00eal\u00ea \u2013 e foi direto ao assunto para por um ponto final naquela esparrela toda.<\/p>\n<p>&#8212; Pessoal, a gente j\u00e1 sabe o que o Escova pensa. Que o Cebola levou uma bolada nas costas da mo\u00e7oila. Agora vamos trabalhar que se o jornal n\u00e3o sair amanh\u00e3, n\u00e3o tem credencial de Carnaval para ningu\u00e9m. Um vai fazer a ronda nas delegacias, outro no hospital e quem sobrar vai cobrir as enchentes porque sempre chove no Carnaval&#8230;<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>N\u00e3o se ouviu mais sequer um pio.<\/p>\n<p>Todos voltaram a batucar sua m\u00e1quina de escrever.<\/p>\n<p>Inclusive, o Escova e o Cebola que, diga-se, j\u00e1 tinha uma outra mulata em vista&#8230;<\/p>\n<p>E era passista na Imperador do Ipiranga.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em um ano que se perdeu na poeira da mem\u00f3ria, a velha Reda\u00e7\u00e3o de piso assoalhado e grandes janelas para a rua Bom Pastor j\u00e1 vivia a expectativa da cobertura de Carnaval que far\u00edamos nos pr\u00f3ximos dias.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-12423","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12423","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12423"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12423\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15584,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12423\/revisions\/15584"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12423"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12423"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12423"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}