{"id":12426,"date":"2013-02-14T00:00:00","date_gmt":"2013-02-14T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:21:58","modified_gmt":"2017-09-15T19:21:58","slug":"o-aldeao-e-o-papa","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-aldeao-e-o-papa\/","title":{"rendered":"O alde\u00e3o e o papa"},"content":{"rendered":"<p>O pr\u00edncipe Nekliudov \u00e9 um jovem da nobreza russa que resolve deixar a universidade e voltar para junto de seu povo. Pretende assumir as fun\u00e7\u00f5es do falecido pai na administra\u00e7\u00e3o de suas terras. <\/p>\n<p>Em carta, sua amada tia tenta dissuadi-lo da proposta. Aconselha a que ele continue os estudos e se prepare para futuras empreitadas \u2013 quem sabe at\u00e9 \u2013 nas altas esferas do governo.<\/p>\n<p>Nekliudov responde \u00e0 amada tia em tom de desabafo. Respeitosamente, tamb\u00e9m em carta, diz que n\u00e3o poder\u00e1 ouvi-la desta feita, pois lhe \u00e9 claro que s\u00f3 construir\u00e1 a pr\u00f3pria felicidade quando fizer feliz a cada um dos colonos que habitam seus dom\u00ednios.<\/p>\n<p>\u201cAbandono a universidade para me consagrar inteiramente aos camponeses, pois reconheci ter nascido para isso.\u201d<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Da teoria \u00e0 pr\u00e1tica, n\u00e3o s\u00e3o mais do que dois cap\u00edtulos.<\/p>\n<p>No conto \u201cA Manh\u00e3 de um Senhor\u201d, de Leon Tolstoi (1828\/1910), logo o berine est\u00e1 a percorrer suas terras, interessado na solu\u00e7\u00e3o dos problemas dos mujiques. Estes, por sua vez, demonstram n\u00e3o estar nem um pouco interessado no projeto de felicidade que Nekliudov programou para eles \u2013 e que consiste fundamentalmente em trabalhar na terra, dia ap\u00f3s dia. Cada um, \u00e0 sua maneira, tem l\u00e1 o seu modo de se entender feliz.<\/p>\n<p>A narrativa termina com o jovem a lidar com suas ang\u00fastias, sem querer dar raz\u00e3o \u00e0 amada tia. Est\u00e1 descrente, por\u00e9m, das pessoas e do projeto de felicidade coletiva que idealizou. At\u00e9 ingenuamente,<\/p>\n<p>Por um momento, ele se imagina um alde\u00e3o, livre de responsabilidades outras, sen\u00e3o a de tocar a pr\u00f3pria vida. <\/p>\n<p>Sentiu uma indescrit\u00edvel felicidade&#8230;<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Fecho o livro, e mudo o tempo e o cen\u00e1rio.<\/p>\n<p>Antes, por\u00e9m, de prosseguir, eu, pecador, me confesso e reconhe\u00e7o.<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho nada al\u00e9m do que li no notici\u00e1rio para lhes falar da ren\u00fancia papal.<\/p>\n<p>Mas, a imagem claudicante de Bento XVI (que a TV transmitiu logo ap\u00f3s o an\u00fancio da corajosa decis\u00e3o) me fez lembrar a hist\u00f3ria de Tolstoi, escrita em 1906.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o de uma Igreja coesa que enfrente os desafios do Terceiro Mil\u00eanio parece estar distante do que o Papa entende como ideal.<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o se v\u00ea como o art\u00edfice das transforma\u00e7\u00f5es pelas quais a Igreja ter\u00e1 que obrigatoriamente passar, disse isso na manh\u00e3 desta quinta na reuni\u00e3o com os cardeais. <\/p>\n<p>Voltar a ser Joseph Ratzinger \u00e9 uma atitude t\u00e3o surpreendente quanto corajosa.<\/p>\n<p>Ele \u00e9 reconhecidamente um intelectual conservador do pensamento cat\u00f3lico que assumiu o Papado em 2005, consciente do \u00e1rido caminho que deveria ter pela frente<\/p>\n<p>Agora, desconfio, s\u00f3 quer o alde\u00e3o que nasceu em uma pequena cidade da Baviera e, \u00e0 sua maneira e anonimamente, estar mais perto de Deus, a felicidade suprema.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Tocante a frase com que retribuiu os aplausos e as manifesta\u00e7\u00f5es de carinho de centenas de padres e bispos auxiliares que, pela manh\u00e3, o recepcionaram:<\/p>\n<p>&quot;Mesmo me retirando, estarei sempre perto de todos voc\u00eas na ora\u00e7\u00e3o, e voc\u00eas estar\u00e3o perto de mim, apesar de eu estar escondido do mundo.&quot;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O pr\u00edncipe Nekliudov \u00e9 um jovem da nobreza russa que resolve deixar a universidade e voltar para junto de seu povo. 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