{"id":12427,"date":"2013-02-15T00:00:00","date_gmt":"2013-02-15T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:21:58","modified_gmt":"2017-09-15T19:21:58","slug":"relatos-de-um-viajante-parvo-10","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/relatos-de-um-viajante-parvo-10\/","title":{"rendered":"Relatos de um viajante parvo (10)"},"content":{"rendered":"<p>Ao perceber o sotaque lusitano, n\u00e3o tive d\u00favidas. Dispensei apresenta\u00e7\u00f5es \u2013 e lhe perguntei na lata:<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 bom viver em Nice?<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos no cal\u00e7ad\u00e3o que d\u00e1 um encanto natural \u00e0 Promenade des Anglais. H\u00e1 cada cem metros, pouco mais, pouco menos, h\u00e1 uma carreira de dez, doze cadeiras de ferro, fincadas no ch\u00e3o, que nos permite sentar e confortavelmente mirar a placidez do mar Mediterr\u00e2neo.<\/p>\n<p>Eu estava ali h\u00e1 alguns minutos, acomodado em uma das tais, a remoer as ang\u00fastias e inquieta\u00e7\u00f5es de um viajante parvo. <\/p>\n<p>Acabara de ler sobre a cidade.<\/p>\n<p>(\u201c&#8230; que possui uma bela arquitetura e, mesmo com muitas obras, preserva um certo charme; que delicioso caminhar pelo Passeio dos Ingleses (Promenade des Anglais ) que beira a Ba\u00eda dos Anjos e seus 5 km de praias; que tem um carnaval maneiro que dura 18 dias, al\u00e9m de grande variedade de atividades; que \u00e9 chamada de Nissa la Bella e sempre reuniu artistas e turistas de todas as partes da Europa etc etc etc&#8230;)<\/p>\n<p>II. <\/p>\n<p>Naquele exato instante, me embatucava a ideia que, ali\u00e1s, sempre me embatuca quando estou em uma cidade que, \u00e0 primeira impress\u00e3o, me parece ideal para viver \u2013 e ser feliz, a partir dos sessenta.<\/p>\n<p>Sou um paulistano nato, de h\u00e1bitos e costumes arraigados por viver em uma metr\u00f3pole. Claro que, com o passar dos anos, a coisa toda perde l\u00e1 o seu vi\u00e7o, as suas cores. E a gente, modestamente, come\u00e7a a pensar \u201cfugir\u201d para algum canto do mundo, onde n\u00e3o precisamos dar conta das expectativas alheias, menos ainda das nossas pr\u00f3prias expectativas de ser e acontecer.<\/p>\n<p>Pois, estava eu a olhar o Mediterr\u00e2neo e a divagar sobre tudo e sobre nada, quando um senhor se acomoda a duas ou tr\u00eas cadeiras da minha, cantarolando uma can\u00e7\u00e3o do Roberto. <\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea meu amigo de f\u00e9, meu irm\u00e3o, camarada&#8230;\u201d<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Chamou a minha aten\u00e7\u00e3o de primeira, at\u00e9 porque n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o comum ouvir nossa l\u00edngua p\u00e1tria nesse cant\u00e3o do litoral da Proven\u00e7a.<\/p>\n<p>Como disse acima, meio sem pensar, tomei coragem e desembuchei a pergunta acima:<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 bom viver em Nice?<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>O homem, de uns 40 e tantos anos, olhou-me com curiosidade, primeiro; e depois se mostrou af\u00e1vel:<\/p>\n<p>&#8212; Brasileiro?, me perguntou.<\/p>\n<p>Fiz que sim com a cabe\u00e7a, e esbocei um sorriso de quem est\u00e1 \u00e1vido pela resposta.<\/p>\n<p>E portuga continuou na maior simpatia:<\/p>\n<p>&#8212; Lula, Lula&#8230; Dilma. Futebol, copa do mundo. Carnaval&#8230; \u201cDel\u00edcia, del\u00edcia, assim voc\u00ea me mata\u201d&#8230; Adoro Tom Jobim.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Fiquei perplexo diante de tamanha manifesta\u00e7\u00e3o de \u2018brasilidade\u2019 em frente ao Mediterr\u00e2neo que continuava pl\u00e1cido e misterioso, assim como minha vontade sempre adiada de imitar o papa, e guardada as devidas e incalcul\u00e1veis propor\u00e7\u00f5es, me \u2018esconder\u2019 em algum canto do mundo.<\/p>\n<p>Desisti da pergunta, pois desacreditei da pergunta que viria como resposta.<\/p>\n<p>&#8212; Estou pensando em mudar-me para o Brasil. O que achas?<\/p>\n<p>A\u00ed, foi a minha vez, de elegantemente, de assoviar uma velha can\u00e7\u00e3o do Roberto&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao perceber o sotaque lusitano, n\u00e3o tive d\u00favidas. 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