{"id":12442,"date":"2013-03-02T00:00:00","date_gmt":"2013-03-02T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:21:56","modified_gmt":"2017-09-15T19:21:56","slug":"o-cartaz","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-cartaz\/","title":{"rendered":"O cartaz"},"content":{"rendered":"<p>TRAGO O SEU AMOR<br \/>\nDE VOLTA EM 3 DIAS<br \/>\nTel: *********<\/p>\n<p>Agrade\u00e7o aos C\u00e9us sempre que vejo um an\u00fancio desses, colado aos postes de ilumina\u00e7\u00e3o p\u00fablica seja qual for a cidade brasileira. <\/p>\n<p>Sim, porque j\u00e1 vi esses cartazes em diversos pontos do Pa\u00eds. <\/p>\n<p>N\u00e3o direi do Oiapoque ao Chu\u00ed porque minhas andan\u00e7as n\u00e3o deram para tanto. Mas, que os tais s\u00e3o comuns, mesmo o mais desligado dos meus cinco ou seis am\u00e1veis leitores h\u00e1 de convir comigo.<\/p>\n<p>Basta puxar pela mem\u00f3ria \u2013 e se lembrar\u00e1 de alguma mensagem no g\u00eanero.<\/p>\n<p>Mas, de volta ao come\u00e7o, repito \u2013 e esclare\u00e7o: agrade\u00e7o aos C\u00e9us por n\u00e3o precisar dessa oportuna ajuda do Al\u00e9m.<\/p>\n<p>(Toc, toc, toc&#8230; Vale isolar na madeira, pois nunca se sabe o dia de amanh\u00e3 nesses confins dos sentimentos).<\/p>\n<p>Porque, vamos considerar, o malandro-ot\u00e1rio precisa estar pra l\u00e1 de desesperado para apegar-se a tal mandinga. <\/p>\n<p>Imagino a cena.<\/p>\n<p>Ele paga a sess\u00e3o, sai do consult\u00f3rio da pitonisa, olha o rel\u00f3gio \u2013 e se p\u00f5e a contar os minutos. Olhos atentos ao visor do celular. Confere as horas, o tempo que falta e a possibilidade de despencar um torpedo, uma chamada&#8230;<\/p>\n<p>O cora\u00e7\u00e3o s\u00f3 no baticum. Salta pela boca.<\/p>\n<p>Os amigos o convidam para o futebol do fim de semana, para a roda de chopps, o churrasco, o que for.<\/p>\n<p>Ele desconversa. Diz que precisa por o trabalho em dia, inventa uma desculpa qualquer para ficar de prontid\u00e3o \u00e0 espera da amada que ele acredita \u2013 e s\u00f3 ele acredita \u2013 ainda o ama e quer bem e logo vai reconsiderar tudo o que lhe disse e voltar\u00e1 arrependida&#8230; <\/p>\n<p>Ent\u00e3o ser\u00e3o felizes para sempre.<\/p>\n<p>A senhora do turbante falou que ser\u00e1 assim, e assim ser\u00e1.<\/p>\n<p>Noites aflitas, manh\u00e3s tortuosas, horas que se arrastam.<\/p>\n<p>Um, dois&#8230; <\/p>\n<p>Prestes a vencer o prazo final do terceiro dia. Ele insone, barba por fazer, olhos vermelhos \u2013 enfim, ouve o redentor toque do celular. <\/p>\n<p>\u00c9 ela.<\/p>\n<p>Atende, diz al\u00f4. <\/p>\n<p>\u00c9 o fim do sofrimento. Valeu o mico de ficar expondo sua vida e suas dores para uma desconhecida, com pinta de charlat\u00e3. Arrepende-se de n\u00e3o ter dobrado o pagamento da senhora. Nem gorgeta, ele lhe deu&#8230; <\/p>\n<p>\u2018E, \u00f3, ela resolveu minha vida\u2019, pensava enquanto, do outro lado, a voz da amada se fazia m\u00fasica:<\/p>\n<p>&#8212; Ent\u00e3o, pensei muito em voc\u00ea nosm \u00faltimos dias. Pensei em n\u00f3s. N\u00e3o devia ter sa\u00eddo da casa assim t\u00e3o desesperada, t\u00e3o \u00e0s pressas&#8230;  <\/p>\n<p>Sentiu-se a dois passos do para\u00edso. <\/p>\n<p>N\u00e3o sabia o que dizer. <\/p>\n<p>Tinha que ser firme \u2013 estava t\u00e3o emocionado que ficou com medo de chorar ao telefone.<\/p>\n<p>Por sorte (ou azar), a mo\u00e7a continuou falando:<\/p>\n<p>&#8212; Ent\u00e3o, sa\u00ed t\u00e3o apressada que esqueci meu passaporte na gaveta do criado mudo. Faz um baita favor pra mim. Deixa na portaria, que pego logo mais \u00e0 tardinha. N\u00e3o que eu n\u00e3o queira lhe ver. Nada disso. \u00c9 que embarco amanh\u00e3 para os Estados Unidos \u2013 vou passar uma temporada grande por l\u00e1, sabe? E detesto cenas despedidas. S\u00e3o t\u00e3o tristes&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>TRAGO O SEU AMOR<br \/>\nDE VOLTA EM 3 DIAS<br \/>\nTel: *********<\/p>\n<p>Agrade\u00e7o aos C\u00e9us sempre que vejo um an\u00fancio desses, colado aos postes de ilumina\u00e7\u00e3o p\u00fablica seja qual for a cidade brasileira.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-12442","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12442","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12442"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12442\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15565,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12442\/revisions\/15565"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12442"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12442"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12442"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}