{"id":12449,"date":"2013-03-09T00:00:00","date_gmt":"2013-03-09T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:21:55","modified_gmt":"2017-09-15T19:21:55","slug":"nando-fernando-ou-ferdinando-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/nando-fernando-ou-ferdinando-2\/","title":{"rendered":"Nando, Fernando ou Ferdinando"},"content":{"rendered":"<p>&#8212; Nando, Nando.<\/p>\n<p>Fazia sua habitual corrida pelas alamedas do Parque do Ibirapuera quando ouviu a voz de uma mulher a lhe chamar.<\/p>\n<p>&#8212; Nando, Nando, Nando&#8230;<\/p>\n<p>Insistia, ansiosa.<\/p>\n<p>Acontece que ele n\u00e3o se chamava Nando, nem Fernando, menos ainda Ferdinando. Num acesso de tradicionalista convicto, o pai resolvera lhe presentear com o nome do av\u00f4 e, acreditem ou n\u00e3o, desde que se conhecia por gente, atendia pelo nome de Greg\u00f3rio ou simplesmente Greg\u00f3, para turma das \u2018peladas\u2019 na quadra de society, toda quinta \u00e0 noite, quando n\u00e3o jogasse o Tim\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Nando, Nando&#8230; Nand\u00f4\u00f4\u00f4\u00f4\u00f4&#8230;<\/p>\n<p>Algu\u00e9m insistia e, mesmo \u00e0s suas costa, n\u00e3o teve mais d\u00favidas: os chamamentos vinham em sua dire\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Parou, virou-se e deu de cara com a deusa mais linda de tantas quantas j\u00e1 se embrenharam por aquelas matas e trilhas.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>N\u00e3o houve tempo para perguntar se era mesmo com ele.<\/p>\n<p>Visivelmente constrangida, algo sem gra\u00e7a \u2013 mas, nem por isso menos linda \u2013 a mo\u00e7a (\u201cSofia, muito prazer\u201d) desculpou-se:<\/p>\n<p>&#8212; Me perdoe. Eu o confundi com um amigo.<\/p>\n<p>Greg\u00f3 adorou n\u00e3o ter cortado o cabelo como planejara naquela semana e ter uma nuca, digamos, t\u00e3o comum.<\/p>\n<p>Riram da confus\u00e3o e, sem que se dessem conta, passaram a fazer o trajeto lado a lado.<\/p>\n<p>Quem os via, assim \u00e0 dist\u00e3ncia, rindo a conversar e trotar, imaginaria que formavam um belo casal.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>E n\u00e3o \u00e9 que, desde ent\u00e3o, formaram mesmo.<\/p>\n<p>Tudo muito natural, e espont\u00e2neo.<\/p>\n<p>Voltaram-se a se encontrar no Parque e fora dele. Trocaram n\u00fameros de telefones, endere\u00e7os eletr\u00f4nicos. Ela postou uma foto de ambos, felizes, a dividir a mesma \u00e1gua de coco. At\u00e9 que o inevit\u00e1vel aconteceu. Logo houve mudan\u00e7as no status do Face de cada um. Primeiro para \u201ccompromisso s\u00e9rio\u201d; depois, quando passaram a dividir o mesmo ap\u00ea, incorporaram o \u201ccasado\u201d, sem qualquer remorso.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>O tempo, aquele que n\u00e3o para no porto, n\u00e3o apita na curva, n\u00e3o espera ningu\u00e9m (salve poeta Reginaldo Bessa, onde anda?), passou implac\u00e1vel.<\/p>\n<p>Tr\u00eas anos depois, Greg\u00f3 voltou a correr sozinho no mesmo Ibirapuera. Sofia aceitou ser \u2018expatriada\u2019 para Alemanha, pela multinacional em que trabalhava. <\/p>\n<p>Relutou a princ\u00edpio, mas depois se entusiasmou com a ideia de viver essa nova experi\u00eancia.<\/p>\n<p>Numa tarde em que andavam pelo Parque, sem a mesma naturalidade e discutindo a rela\u00e7\u00e3o, um artista de rua deu a letra de a quantas a coisa ia entre os dois.<br \/>\nA letra do velho samba-can\u00e7\u00e3o, assim como o tempo, era contundente:<\/p>\n<p>\u201cQue o nosso caso est\u00e1 na hora de acabar\u201d.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>A m\u00e3e de Greg\u00f3, uma senhora nos trinques da antiga aristocracia paulistana, nunca aceitou o romance entre o filho e \u201caquela doidivana\u201d. <\/p>\n<p>&#8212; Onde j\u00e1 se viu em t\u00e3o pouco tempo, irem morar juntos \u2013 e sem uma cerimonia oficial de csamento?<\/p>\n<p>(Pois \u00e9, sinais dos tempos, as m\u00e3es dos rapazes que hoje se implicam com isso.)<\/p>\n<p>Mesmo vendo a tristeza do filho, n\u00e3o perdoava. Desde o primeiro momento, percebeu que n\u00e3o seria para sempre. <\/p>\n<p>&#8212; Come\u00e7ou errado, d\u00e1 errado no final. \u00c9 a lei da vida&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Como come\u00e7ou errado, m\u00e3e? &#8211; perguntava algo irado Greg\u00f3rio (que na casa da fam\u00edlia, n\u00e3o aceita ser chamado por apelido).<\/p>\n<p>E a coroa, com ares de aparente sabedoria, tinha resposta imediata, com outra pergunta:<\/p>\n<p>&#8212; Por acaso, voc\u00ea se chama Nando? Fernando? Ou Ferdinando? Ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8212; Nando, Nando.<\/p>\n<p>Fazia sua habitual corrida pelas alamedas do Parque do Ibirapuera quando ouviu a voz de uma mulher a lhe chamar.<\/p>\n<p>&#8212; Nando, Nando, Nando&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-12449","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12449","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12449"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12449\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15558,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12449\/revisions\/15558"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12449"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12449"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12449"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}