{"id":12479,"date":"2013-04-11T00:00:00","date_gmt":"2013-04-11T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:21:51","modified_gmt":"2017-09-15T19:21:51","slug":"um-texto-amigo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/um-texto-amigo\/","title":{"rendered":"Um texto, amigo&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>Quando o pai foi operado do cora\u00e7\u00e3o, ele tinha 70 anos e foi talvez o momento de maior ang\u00fastia, o mais dif\u00edcil da minha vida. Eu estava com 36 anos e vi o Velho tremer na base diante da imin\u00eancia da interna\u00e7\u00e3o e cirurgia. Diante do atendente, o pai estampava um olhar chapado no nada, talvez recortasse os dias idos e vividos, talvez projetasse um ef\u00eamero futuro, talvez fosse apenas medo de tudo que teria que enfrentar \u2013 e enfrentou corajosamente.<\/p>\n<p>O pai gostava tanto de viver.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Voltei para casa arrasado&#8230;<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>A opera\u00e7\u00e3o transcorreu dentro da normalidade. Mas, o m\u00e9dico fez quest\u00e3o de chamar a mim \u2013 o homem da casa \u2013 ao inv\u00e9s da m\u00e3e e das irm\u00e3s para detalhar os procedimentos adotados e a situa\u00e7\u00e3o do doente.<\/p>\n<p>Foi objetivo em suas palavras.<\/p>\n<p>\u201cFizemos um bom trabalho. O cora\u00e7\u00e3o do seu pai, por\u00e9m, estava bem mais comprometido, judiado, do que imagin\u00e1vamos a partir dos exames iniciais. N\u00e3o conseguimos colocar as quatro pontes de safena, como pretend\u00edamos, pois ele n\u00e3o resistiria. Colocamos apenas duas, o que vai lhe permitir uma boa qualidade de vida, se n\u00e3o cometer excessos. Alerto, no entanto, que as pr\u00f3ximas 48 horas s\u00e3o vitais para a recupera\u00e7\u00e3o dele. Vamos ver o que acontece.\u201d<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>N\u00e3o foram exatamente essas as palavras do doutor, mas o teor foi este.<\/p>\n<p>N\u00e3o preciso lhes dizer, mas digo: foram as 48 horas mais longas que j\u00e1 vivi.<\/p>\n<p>Os verdadeiros amigos entenderam meu momento. Tentavam me ajudar de todas as formas.  Suas palavras de coragem e f\u00e9 me emocionavam, mas n\u00e3o chegavam a me confortar.<\/p>\n<p>Eu olhava o telefone como quem olha uma esfinge&#8230;<\/p>\n<p>\u201cDecifra-me ou te devoro.\u201d<\/p>\n<p>Causava-me sobressaltos a possibilidade de uma not\u00edcia ruim no pr\u00f3ximo instante.<\/p>\n<p>Pareceu-me que nunca mais voltaria \u00e0 vida normal.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Felizmente o Velho recuperou-se e ainda viveu por um largo tempo, zanzando entre amigos novos e antigos, a defender o PT e o Lula de tudo e de todos (foi antes do mensal\u00e3o, diga-se) e a saudar os novos tempos, sorrindo daquele jeito que lhe era peculiar, sempre que encontrava os netos e os bisnetos.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 receita ou forma \u2013 nem tempo ideal \u2013 para se buscar a felicidade.<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Por que hoje lhes conto essa hist\u00f3ria?<\/p>\n<p>Um tanto pela saudade do pai. Outro tanto porque a vida, meus caros, anda mesmo muito estranha, estranha e competitiva. Vai que algu\u00e9m a\u00ed possa estar precisando de um ombro\/texto amigo. Mesmo que se apenas para saber que estamos juntos, pois viver \u00e9 mais do que esperar pelo amanh\u00e3. Ser feliz \u00e9 uma urg\u00eancia urgent\u00edssima..<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando o pai foi operado do cora\u00e7\u00e3o, ele tinha 70 anos e foi talvez o momento de maior ang\u00fastia, o mais dif\u00edcil da minha vida. 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