{"id":12489,"date":"2013-04-28T00:00:00","date_gmt":"2013-04-28T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:21:51","modified_gmt":"2017-09-15T19:21:51","slug":"palhacada","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/palhacada\/","title":{"rendered":"Palha\u00e7ada"},"content":{"rendered":"<p>Enquanto o Pedr\u00e3o se esmerava em aparar as sobras da minha singela barba, todos no sal\u00e3o ouv\u00edamos as estrepolias que acontecia ali, ao redor, naquele mesmo quarteir\u00e3o de um pacato bairro de S\u00e3o Bernardo do Campo.<\/p>\n<p>Era a inaugura\u00e7\u00e3o de uma loja de colch\u00f5es e o feliz propriet\u00e1rio, para chamar a aten\u00e7\u00e3o e cativar a nova clientela, teve a feliz ideia de chamar um grupo de felizardos palha\u00e7os. Vieram para animar a festya e os poss\u00edveis neg\u00f3cios.<\/p>\n<p>O pessoal do sal\u00e3o n\u00e3o entendeu bem assim. <\/p>\n<p>Alguns clientes chegaram inclusive a consolar os profissionais da tesoura pelo \u2018belo\u2019 dia que os esperava. N\u00e3o havia qualquer d\u00favida. At\u00e9 o fim do expediente, no cair da tarde, eles teriam que conviver com \u2018ilari\u00eas\u2019 e \u2018patati patata\u2019 que tocava o sistema de som no \u00faltimo volume.  Vez ou outra, um dos tantos Reis do Riso empunhava o microfone para convidar os passantes a conhecerem as \u201cirresist\u00edveis ofertas\u201d do novo estabelecimento. N\u00e3o perdiam a oportunidade para fazer \u2018piadinhas\u2019 com quem passava.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o vai ser f\u00e1cil\u201d, reconheceu Pedr\u00e3o, j\u00e1 nos finalmentes no trato da minha penugem.  \u201cMas, tomara que Deus ajude, e o neg\u00f3cio prospere. Por aqui, as lojas est\u00e3o fechando\u201d.<\/p>\n<p>&#8212; Todo mundo precisa trabalhar. A vida anda muito competitiva, meus caros.<\/p>\n<p>Estava resignado em nome da sociedade. Do bem comum&#8230;<\/p>\n<p>Que beleza, esse Pedr\u00e3o! Generoso que s\u00f3&#8230;<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Sa\u00ed do sal\u00e3o \u201cnovo de novo\u201d, como eles dizem ali, eufemisticamente, para anunciar que o servi\u00e7o terminou e o cliente que trate de levantar da cadeira e se dirigir ao caixa para pagar.<\/p>\n<p>Pensava no senso de fraternidade do Pedr\u00e3o. N\u00e3o se incomodava com o barulho, com a balb\u00fardia. Queria o bem de algu\u00e9m que sequer sabia o nome.<\/p>\n<p>Todos deveriam ser assim, pensei.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Mal dei alguns passos a mais e me descobri no meio da roda de palha\u00e7os. Que dan\u00e7avam, rebolavam, cantavam, ofereciam balas e doces e, percebi em seguida, mexiam com todos (ou quase todos) que ousavam passar por aquele peda\u00e7o de cal\u00e7ada.<\/p>\n<p>A loja do incauto senhor continuava vazia, mas isto era indiferente para a turba. Foram (ou seriam) pagos para fazer palha\u00e7adas, ent\u00e3o \u00e9 o que faziam. N\u00e3o importava o resultado final.<\/p>\n<p>\u00c0quela altura, eles mais espantavam do que atra\u00edam a clientela.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>\u201cPapai Noel, voc\u00ea por aqui? Que surpresa!\u201d<\/p>\n<p>Percebi que o pseudo gracejo ao microfone era comigo, justo comigo. E com minha reles barba grisalha, recentemente aparada pelo generoso e bem educado Pedr\u00e3o.<\/p>\n<p>Relevei.<\/p>\n<p>Mas, o pseudo fazedor de gra\u00e7a n\u00e3o se deu por satisfeito. Veio se interpor aos meus passos. Microfone em punho. Estava se achando.<\/p>\n<p>\u201cPapai Noel! Olhem quem est\u00e1 aqui amigos! Papai Noel.\u201d<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Fiquei puto.<\/p>\n<p>Nunca vi a figura na vida.  N\u00e3o lhe dei qualquer liberdade. N\u00e3o sou da sua turma \u2013 e n\u00e3o estava para festas. (Ainda ontem escrevi sobre a falta de respeito que grassa, avilta e idiotiza a sociedade como um todo e as pessoas individualmente).<\/p>\n<p>Ademais, ele n\u00e3o estava em um picadeiro. A rua \u00e9 lugar p\u00fablico, onde mais do que qualquer outro lugar vale o dito: respeite para ser respeitado.<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>1&#8230; 2&#8230; 3&#8230;<\/p>\n<p>Preferi contar at\u00e9 dez.<\/p>\n<p>N\u00e3o deu.<\/p>\n<p>O rapaz n\u00e3o se mancava:<\/p>\n<p>\u201cPapai Noel! Por onde voc\u00ea andou? Quanto tempo n\u00e3o lhe vejo&#8230;\u201d<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>Tem hora que s\u00f3 um sonoro palavr\u00e3o resolve \u2013 ou complica de vez. <\/p>\n<p>Estava pronto a solt\u00e1-lo. Mas pensei na generosidade do Pedr\u00e3o, que sou um senhor maior de 60, jornalista, professor e cousa e lousa e maripo(u)as.<\/p>\n<p>Preferi contemporizar.<\/p>\n<p>\u201cPois \u00e9\u201d, respondi em tom cordial.\u201dPois \u00e9&#8230; Faz tempo mesmo que n\u00e3o vou \u00e0 sua casa, visitar a  sua senhora m\u00e3ezinha. Mas, pode avis\u00e1-la que qualquer hora eu apare\u00e7o.\u201d<\/p>\n<p>E o palha\u00e7o justificou sua voca\u00e7\u00e3o \u2013 e me respondeu, no ato:<\/p>\n<p>&#8211; Papaaaaai!!!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enquanto o Pedr\u00e3o se esmerava em aparar as sobras da minha singela barba, todos no sal\u00e3o ouv\u00edamos as estrepolias que acontecia ali, ao redor, naquele mesmo quarteir\u00e3o de um pacato bairro de S\u00e3o Bernardo do Campo.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-12489","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12489","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12489"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12489\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15522,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12489\/revisions\/15522"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12489"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12489"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12489"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}