{"id":12549,"date":"2013-06-28T00:00:00","date_gmt":"2013-06-28T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T03:48:01","modified_gmt":"2017-09-14T03:48:01","slug":"olhos-nos-olhos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/olhos-nos-olhos\/","title":{"rendered":"Olhos nos olhos&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o sei se o amigo leitor se lembra do Nicola \u2013 ou melhor, do Dr. Nicola \u2013 que vez ou outra apareceu por aqui, neste espa\u00e7o, a comentar suas venturas e desventuras como motorista de t\u00e1xi e, pasmem, doutorando em Psicologia com a tese Mulheres Que Amam Demais (nem sei se terminou ou se continuam as pesquisas). <\/p>\n<p>Pois bem, l\u00e1 em uma de nossas conversas em tempos idos e vividos, o amigo Nicola me confessou que tinha solu\u00e7\u00f5es objetivas para situa\u00e7\u00f5es embara\u00e7osas que as duas profiss\u00f5es poderiam lhe acarretar.<\/p>\n<p>No t\u00e1xi, quando lhe pediam antecipadamente o pre\u00e7o da corrida, ele era enf\u00e1tico: o que der no tax\u00edmetro; o dobro disso se era em outro munic\u00edpio. O justo e o combinado.<\/p>\n<p>Nas sess\u00f5es, a quest\u00e3o n\u00e3o era pecuni\u00e1ria. Muitas vezes o consulente se enroscava em meio \u00e0s suas hist\u00f3rias de vida e n\u00e3o conseguia por um ponto final \u00e0 narrativa que achava vital e que, por ser vital, n\u00e3o tinha fim.<\/p>\n<p>Na primeira brecha que se apresentava, o Doutor sugeria ent\u00e3o que o \u201canalisado\u201d se dedicasse \u00e0s reflex\u00f5es a partir da intensidade dos momentos em que as verdades foram ditas (ou silenciadas) olhos nos olhos com eventuais interlocutores, supostos causadores de perdas e danos.<\/p>\n<p>Quase sempre usava esse expediente para terminar consultas em que se discutiam romances desfeitos, amores imposs\u00edveis, paix\u00f5es proibidas e cong\u00eaneres.<\/p>\n<p>Nicola me disse que recomendava inclusive a audi\u00e7\u00e3o de duas can\u00e7\u00f5es: a jobiniana \u201cEste Seu Olhar\u201d e \u201cOlhos nos Olhos\u201d, de Chico Buarque. Ambas tratam do mesmo tema, mas o tom de dramaticidade \u00e9 bem outro.<\/p>\n<p>(Os versos est\u00e3o no Youtube, me poupem&#8230;)<\/p>\n<p>E a\u00ed? \u2013 perguntei, enxerido que sou. &#8212; Resolvia alguma coisa?<\/p>\n<p>&#8212; Se resolvia, resolvia, n\u00e3o sei. Mas, fazia os caras pensar pra caramba. Para quem est\u00e1 querendo dar novo rumo \u00e0 sua vida, se reconstruir, convenhamos, isso \u00e9 um primeiro e definitivo passo.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Gosto do jeito simples e direto que o amigo Nicola tem para esclarecer esses impasses existenciais. Desconfio que, mais do que os livros e a ci\u00eancia que estuda e desenvolve, ele se espelha nas experi\u00eancias de vida que recolhe ora na penumbra do consult\u00f3rio (h\u00e1 quem diga que \u00e9 \u00e0 meia-luz que as pessoas se revelam) ora nas idas-e-vindas com seu t\u00e1xi pelas ruas de Sampa.<\/p>\n<p>N\u00e3o lembro como terminou nossa conversa naquele dia. Sei que, na esteira do papo, me pus a pensar no assunto \u2013 e, pra variar, n\u00e3o cheguei a conclus\u00e3o alguma.<\/p>\n<p>Olhar nos olhos de algu\u00e9m pode ser um gesto nobre, definitivo; mas pode tamb\u00e9m ser uma intimida\u00e7\u00e3o, tipo: sabe com quem voc\u00ea est\u00e1 falando?<\/p>\n<p>Os mais antiguinhos como eu devem bem se recordar de que bastava o severo olhar do pai para nos colocar em nosso devido lugar de filhos obedientes.<\/p>\n<p>Enfim&#8230; Eram outros tempos.<\/p>\n<p>At\u00e9 porque, se me permitem, as grandes verdades, as grandes declara\u00e7\u00f5es, quando a fazemos, reparem bem, estamos olhando para dentro de n\u00f3s mesmos, da nossa alma, dos nossos sentimentos.<\/p>\n<p>J\u00e1 ouvi grandes mentiras que me foram ditas assim, na bucha, como se fossem a mais absoluta das certezas.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m j\u00e1 trombei com meias-verdades e, r\u00e9u confesso, retribui na boa e cara-a-cara.<\/p>\n<p>Particularmente, me encanta \u2013 e n\u00e3o saberia definir a intensidade \u2013 aquele exato momento quando os olhares se cruzam, assim meio que distra\u00edda e inesperadamente, sem nada querer dizer e j\u00e1 tudo dizendo. N\u00e3o com palavras, mas com sonhos, devaneios ousadias.<\/p>\n<p>\u00c9 exatamente a\u00ed, creio, e com a v\u00eania do amigo Nicola e de seus pares, que a vida recome\u00e7a.<\/p>\n<p>O inverso \u2013 lamento informar \u2013 tamb\u00e9m \u00e9 real. Quando os olhares se encontram e n\u00e3o se v\u00ea mais ali, o brilho que um dia houve.<\/p>\n<p>Sabe-se ent\u00e3o que \u00e9 o fim.<\/p>\n<p>O fim que, por mais do\u00eddo que seja, incide obrigatoriamente em um novo come\u00e7o.<\/p>\n<p>\u00c9 da vida e dos amores.<\/p>\n<p>Como diria o grande Roberto, se chorei ou se sofri&#8230; <\/p>\n<p>(Queiramos ou n\u00e3o, gostemos ou n\u00e3o das can\u00e7\u00f5es de Roberto\/Erasmo, cada um de n\u00f3s sabe bem como completar a frase.)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o sei se o amigo leitor se lembra do Nicola \u2013 ou melhor, do Dr. Nicola \u2013 que vez ou outra apareceu por aqui, neste espa\u00e7o, a comentar suas venturas e desventuras como motorista de t\u00e1xi e,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-12549","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-parangoles"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12549","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12549"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12549\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13927,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12549\/revisions\/13927"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12549"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12549"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12549"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}