{"id":12565,"date":"2013-07-31T00:00:00","date_gmt":"2013-07-31T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T03:47:42","modified_gmt":"2017-09-14T03:47:42","slug":"jornalistas-escritores","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/jornalistas-escritores\/","title":{"rendered":"Jornalistas escritores"},"content":{"rendered":"<p>O jornalista vive de contar a hist\u00f3ria dos outros. Mas, ao cabo de tudo, a soma dessas hist\u00f3rias, de um modo ou de outro, vai resultar na trajet\u00f3ria de vida do pr\u00f3prio profissional de Imprensa. As tramas que ele narrou &#8211; e a forma como narrou \u2013 far\u00e3o parte da sua biografia, de como pensa e age, quais suas cren\u00e7as, seus valores morais, \u00e9ticos e sociais; posicionamentos, acrescento, imprescind\u00edveis \u00e0 fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o por acaso se diz que o jornalista \u00e9 o historiador do cotidiano.<\/p>\n<p>Um tanto formal, mas gosto da defini\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Valho-me dela para justificar a exist\u00eancia dos meus quatro livros publicados (\u201c\u00c0s Margens Pl\u00e1cidas do Ipiranga\u201d, \u201cMeus Caros Amigos \u2013 Cr\u00f4nicas Sobre Jornalismo, Bo\u00eamios e Paix\u00f5es\u201d, \u201cKatsumi Hirota \u2013 Legado Para as Gera\u00e7\u00f5es\u201d e o recente ebook \u201cDas Coisas Simples, Sensatas e Sinceras\u201d), do pr\u00f3ximo que devo lan\u00e7ar ainda neste semestre (\u201cVolteios \u2013 Cr\u00f4nicas, Lembran\u00e7as e Devaneios\u201d) e mesmo da minha disserta\u00e7\u00e3o de mestrado (\u201cMuseu do Ipiranga \u2013 A Nova Imagem de Uma Institui\u00e7\u00e3o Centen\u00e1ria\u201d).<\/p>\n<p>Dia desses, num encontro com uma jovem plateia para divulg\u00e1-los, algu\u00e9m me perguntou se pretendo viver unicamente dos ganhos que os livros poderiam me proporcionar. Se, assim, eles me garantiriam sustento e prosperidade.<\/p>\n<p>Uma pergunta natural, feita com a espontaneidade, creio, de um futuro jornalista ou, qui\u00e7\u00e1, um futuro escritor.<\/p>\n<p>\u00c9 por que, convenhamos, todo jornalista traz embutido um escritor dentro de si \u2013 e versa e vice.<\/p>\n<p>N\u00e3o estou dizendo tem o dom e o talento para&#8230;<\/p>\n<p>Digo apenas que, de um jeito ou de outro, todo rio desemboca no mar, se \u00e9 que me entendem. <\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Fiquei surpreso com a pergunta, por mais boboca que, a priori, pode parecer o meu espanto. <\/p>\n<p>Sou jornalista por of\u00edcio, apesar de viver longe das reda\u00e7\u00f5es. De uns tempos pra c\u00e1, dei de juntar meus rabiscos em livros. N\u00e3o me considero escritor escritor. Me sinto um jornalista, embora  me permita voos, digamos, criativos (inventivos at\u00e9) que anos atr\u00e1s n\u00e3o ousaria.<\/p>\n<p>Coisa do blog (prestes a completar sete anos). Coisas do momento de vida que atravesso. Da experi\u00eancia vivida em quase 40 anos de jornalismo, dos livros que li, das pessoas que entrevistei, das can\u00e7\u00f5es que ouvi, dos filmes e pe\u00e7as de teatro que assisti, dos fatos que observei e outros tantos que vivi. <\/p>\n<p>Enfim, coisas da vida&#8230;<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Gosto de escrever e, de volta \u00e0 pergunta do mo\u00e7o, l\u00e1 em meus mais remotos devaneios, j\u00e1 me vi em lugar distante, paradis\u00edaco, a viver do meu teclar. Mas, tenho consci\u00eancia que h\u00e1 uma chance remota de que isso aconte\u00e7a. Raros escritores \u2013 e de \u00e1reas distintas \u2013 se d\u00e3o ao privil\u00e9gio desta tarefa \u00fanica.<\/p>\n<p>Para afian\u00e7ar minha resposta, e disse isso a eles, tenho como par\u00e2metro a trajet\u00f3ria de Carlos Drummond de Andrade \u2013 um dos grandes nomes da literatura brasileira \u2013 que, durante toda sua vida, trabalhou como funcion\u00e1rio p\u00fablico, em cargo meramente administrativo na Biblioteca do Rio de Janeiro. <\/p>\n<p>Se ele que est\u00e1, ao lado de Manuel Bandeira e Jo\u00e3o Cabral de Mello Neto, entre os maiores poetas contempor\u00e2neos, imagine o que esperar deste pobre escriba que vive a se enroscar nas palavras?<\/p>\n<p>V. <\/p>\n<p>Foi a vez de eles ficarem surpresos&#8230;<\/p>\n<p>Aproveitei a perplexidade geral e irrestrita da rapaziada para dizer que Drummond n\u00e3o \u00e9 caso \u00fanico. Outros tantos e tamanhos &#8211; como Rubem Braga, Carlos Heitor Cony, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, M\u00e1rio Quintana etc \u2013 tinham nos livros um instrumento de realiza\u00e7\u00e3o autoral, e pessoal.<\/p>\n<p>Escreviam por voca\u00e7\u00e3o e at\u00e9 como testemunho de vida.<\/p>\n<p>Diria que nasceram para tal. <\/p>\n<p>No entanto, tocavam suas vidas com os trocos que recebiam como jornalistas, editores, tradutores e\/ou fun\u00e7\u00f5es correlatas. Muitos enveredaram para a academia; outros fizeram carreira nas organiza\u00e7\u00f5es governamentais; alguns trabalharam em \u00e1reas protocolares de embaixadas e consulados, e por a\u00ed foram&#8230; Sem esquecer de deixarem um baita legado para a posteridade.<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Neste embalo, achei oportuno citar \u2013 a eles e agora a voc\u00eas, leitores &#8211; a experi\u00eancia de Sabino e Braga que chegaram a abrir uma editora (a Editora do Autor) para tocar projetos pr\u00f3prios e de amigos, com independ\u00eancia e suposto controle de todo o processo editorial. Da\u00ed, acreditavam piamente, viria o consequente resultado financeiro. <\/p>\n<p>Depois de alguns anos, entregaram os pontos, exauridos e com a certeza de que n\u00e3o eram propriamente do ramo administrativo.<\/p>\n<p>N\u00e3o era f\u00e1cil viver unicamente dos livros naqueles idos dos anos 50 e 60.<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>\u00c9 bem verdade que muita coisa mudou de l\u00e1 para c\u00e1.<\/p>\n<p>Houve a explos\u00e3o no mundo editorial, com amplia\u00e7\u00e3o de g\u00eaneros, estilos e caracter\u00edsticas dos produtos. Mas, ao que posso perceber, por observa\u00e7\u00e3o, a luta permanece a mesma \u2013 e, diria at\u00e9, algo ingl\u00f3ria.<\/p>\n<p>VIII.<\/p>\n<p>Mal terminei a frase e o rapaz da pergunta inicial desfez minhas suspeitas.<br \/>\nDisse que ele e muitos ali gostavam de escrever \u2013 e que, por isso, pensavam em cursar jornalismo e, mais adiante, tamb\u00e9m se tornarem escritor. <\/p>\n<p>&#8211; Um caminho natural, n\u00e3o?<\/p>\n<p>Concordei. Mas, considerei importante pin\u00e7ar, l\u00e1 do fundo da mem\u00f3ria, uma c\u00e9lebre frase do saudoso Armando Nogueira, considerado o melhor texto da imprensa esportiva do Pa\u00eds:<\/p>\n<p>\u201cJornalista n\u00e3o gosta de escrever. Gosta de ter escrito.\u201d<\/p>\n<p>E acrescentei: <\/p>\n<p>No rala-e-rola de uma Reda\u00e7\u00e3o ou do fechamento de um livro, a press\u00e3o \u00e9 de tal monta que a gente s\u00f3 volta \u00e0 vida quando v\u00ea o jornal impresso e o livro nas estantes das lojas.<\/p>\n<p>A sensa\u00e7\u00e3o a\u00ed \u2013 e se tudo estiver nos conformes \u2013 \u00e9 de al\u00edvio e prazer. Imensur\u00e1veis.<\/p>\n<p>IX. <\/p>\n<p>Para lhes garantir a relatividade das coisas e dos procedimentos na \u00e1rea, dei de lembrar aos distintos um epis\u00f3dio da vida de Carlos Heitor Cony, jornalista e escritor renomado. <\/p>\n<p>Ele ficou quase 20 anos sem escrever qualquer obra liter\u00e1ria de sua autoria. <\/p>\n<p>Nesse per\u00edodo, n\u00e3o deixou de escrever. Trabalhou em jornais e revistas, em vers\u00f5es de cl\u00e1ssicos para jovens e outras aventuras mais. Mas, ainda jovem ainda  &#8211; n\u00e3o tinha 50 anos \u2013 decidiu dar  um basta na sua premiada carreira de escritor, ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o de Pilatos, em 1974.<\/p>\n<p>Quando reapareceu com Quase Mem\u00f3ria, em 1993, lhe perguntaram o motivo que o levou a ficar tanto tempo sem escrever. <\/p>\n<p>Ele foi lac\u00f4nico na resposta (mais ou menos nessa linha):  <\/p>\n<p>&#8212; Tinha coisa melhor para fazer.  Era mais importante viver do que escrever.<\/p>\n<p>X.<\/p>\n<p>Enfim, o encontro terminou com aplausos moderados. <\/p>\n<p>S\u00f3 ent\u00e3o me dei conta de que talvez n\u00e3o fosse bem isso o que eles gostariam de ouvir.<\/p>\n<p>Eu e minhas hist\u00f3rias&#8230;<\/p>\n<p>Falo demais.<\/p>\n<p>Desconfio que o jovem e sua turma desistiram da voca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao menos, as vendas dos meus livros naquela noite foram \u00f3&#8230; baix\u00edssimas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O jornalista vive de contar a hist\u00f3ria dos outros. 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