{"id":12567,"date":"2013-08-01T00:00:00","date_gmt":"2013-08-01T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:21:04","modified_gmt":"2017-09-15T19:21:04","slug":"serena","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/serena\/","title":{"rendered":"Serena"},"content":{"rendered":"<p>Chamava-se Serena.<\/p>\n<p>Para muitos da velha reda\u00e7\u00e3o de piso assoalhado e grandes janel\u00f5es para a rua Bom Pastor, o nome de Vulc\u00e3o Enrustido lhe ca\u00edsse bem mais apropriadamente.<\/p>\n<p>Era elegante \u00e0 sua maneira, de passos duros e porte altivo (sem ser esnobe). Tinha uma beleza pl\u00e1cida que n\u00e3o desperta amores \u00e0 primeira vista, mas aos poucos vai cativando aqueles que a rodeiam.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Seria exagero dizer que todos, no jornal, cobi\u00e7avam a aten\u00e7\u00e3o de Serena. Seu El\u00edzio, o motorista, por exemplo, lhe era indiferente. O pessoal da Distribui\u00e7\u00e3o, que s\u00f3 trabalhava \u00e0s sextas-feiras, dia em que a edi\u00e7\u00e3o circulava, e n\u00e3o a conhecia, tamb\u00e9m. De resto, do porteiro \u00e0 turma da Administra\u00e7\u00e3o, s\u00f3 havia elogios e quer\u00eancias em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mo\u00e7a.<\/p>\n<p>Entre os rapazes e os senhores da Reda\u00e7\u00e3o, digamos que Serena era uma unanimidade.<\/p>\n<p>III.  <\/p>\n<p>Acontece que a jovem tinha l\u00e1 seus encantos (indiscut\u00edveis) e outros tantos de mist\u00e9rios. <\/p>\n<p>Ela trabalhava no primeiro hor\u00e1rio da Digita\u00e7\u00e3o, um departamento que existiu nos jornais em tempos idos. Era de poucas palavras, t\u00edmidos sorrisos, noiva e, creiam, profundamente religiosa.<\/p>\n<p>De uma doutrina que proibia todo e qualquer contato afetivo antes que se efetivassem as bodas matrimoniais.<\/p>\n<p>Al\u00ed\u00e1s, casamento, para Serena, era \u201cboda matrimonial\u201d.<\/p>\n<p>Formal, e linda.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>T\u00e3o rigorosos eram tais preceitos que as pessoas, na Reda\u00e7\u00e3o e arredores, comentavam da pureza e da castidade da mo\u00e7a, sempre em tom de desafio, e alguma maldade. Diziam que Serena e o felizardo noivo nunca foram al\u00e9m do breve enla\u00e7ar de m\u00e3os. <\/p>\n<p>Havia quem duvidasse, \u00f3bvio.<\/p>\n<p>O que s\u00f3 aumentava o tom mirabolante das aventuras do casal. E da retid\u00e3o com que ambos procediam, fosse qual fosse a situa\u00e7\u00e3o em que se encontrassem.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Como sempre acontece nessas ocasi\u00f5es, as vers\u00f5es superem fantasiosamente os fatos. Nunca ningu\u00e9m ouviu uma confiss\u00e3o, por menor que fosse, de Serena sobre sua intimidade e a de seu parceiro. Mas, para aqueles debil\u00f3ides da Reda\u00e7\u00e3o (entre os quais me incluo), n\u00e3o faltavam roteiros de puro erotismo. <\/p>\n<p>O mais c\u00e9lebre deles \u2013 n\u00e3o lembro exatamente quem o criou, mas juro que eu n\u00e3o fui \u2013 descrevia o casal a s\u00f3s, em uma su\u00edte, em lugar incerto e n\u00e3o sabido. Ambos nus, a se olhar, em sil\u00eancio absoluto, tensionado pelo desejo e pela sedu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao cabo do per\u00edodo, vestiam suas roupas \u2013 e sa\u00edam, diziam, se amando mais e mais.<\/p>\n<p>*Amanh\u00e3 continua&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Chamava-se Serena.<\/p>\n<p>Para muitos da velha reda\u00e7\u00e3o de piso assoalhado e grandes janel\u00f5es para a rua Bom Pastor, o nome de Vulc\u00e3o Enrustido lhe ca\u00edsse bem mais apropriadamente.<\/p>\n<p>Era elegante \u00e0 sua maneira,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-12567","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12567","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12567"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12567\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15449,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12567\/revisions\/15449"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12567"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12567"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12567"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}