{"id":12572,"date":"2013-08-05T00:00:00","date_gmt":"2013-08-05T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T03:47:20","modified_gmt":"2017-09-14T03:47:20","slug":"a-historia-de-serena","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-historia-de-serena\/","title":{"rendered":"A hist\u00f3ria de Serena"},"content":{"rendered":"<p>Chamava-se Serena.<\/p>\n<p>Para muitos da velha reda\u00e7\u00e3o de piso assoalhado e grandes janel\u00f5es para a rua Bom Pastor, no entanto, o nome de Vulc\u00e3o Enrustido lhe fosse bem mais apropriado.<\/p>\n<p>Era elegante \u00e0 sua maneira, de passos duros e porte altivo (sem ser esnobe). Tinha uma beleza pl\u00e1cida, dessas que n\u00e3o despertam amores \u00e0 primeira vista, mas aos poucos cativam aqueles que a rodeiam.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Seria exagero dizer que todos, no jornal, cobi\u00e7avam a aten\u00e7\u00e3o de Serena. Seu El\u00edzio, o motorista, por exemplo, lhe era indiferente. <\/p>\n<p>&quot;N\u00e3o faz meu tipo&quot;, dizia. <\/p>\n<p>O pessoal da Distribui\u00e7\u00e3o, que s\u00f3 trabalhava \u00e0s sextas-feiras, dia em que a edi\u00e7\u00e3o circulava, e n\u00e3o a conhecia, tamb\u00e9m. De resto, do porteiro \u00e0 turma da Administra\u00e7\u00e3o, s\u00f3 havia elogios e quer\u00eancias em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mo\u00e7a.<\/p>\n<p>Entre os rapazes e os senhores da Reda\u00e7\u00e3o, digamos que Serena era uma unanimidade.<\/p>\n<p>III. <\/p>\n<p>Acontece que a jovem tinha l\u00e1 seus encantos (indiscut\u00edveis) e outros tantos insond\u00e1veis mist\u00e9rios. <\/p>\n<p>Ela trabalhava no primeiro hor\u00e1rio da Digita\u00e7\u00e3o, um departamento que existiu nos jornais em tempos idos. Era de poucas palavras, t\u00edmidos sorrisos, noiva e, creiam, profundamente religiosa.<\/p>\n<p>De uma doutrina que proibia todo e qualquer contato afetivo antes que se efetivassem as bodas matrimoniais.<\/p>\n<p>Al\u00ed\u00e1s, casamento, para Serena, era \u201cboda matrimonial\u201d.<\/p>\n<p>Formal, e linda.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>T\u00e3o rigorosos eram tais preceitos que as pessoas, na Reda\u00e7\u00e3o e arredores, comentavam da pureza e da castidade da mo\u00e7a, sempre em tom de desafio, e alguma maldade. Diziam que Serena e o felizardo noivo nunca foram al\u00e9m do breve enla\u00e7ar de m\u00e3os. <\/p>\n<p>Havia quem duvidasse, \u00f3bvio.<\/p>\n<p>O que s\u00f3 aumentava o tom mirabolante que inventavam para as poss\u00edveis aventuras do casal. E da retid\u00e3o com que ambos procediam, fosse qual fosse a situa\u00e7\u00e3o em que se encontrassem.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Como sempre acontece nessas ocasi\u00f5es, as vers\u00f5es superam fantasiosamente os fatos. Nunca ningu\u00e9m ouviu uma confiss\u00e3o, por menor que fosse, de Serena sobre sua intimidade e a de seu parceiro. Mas, para aqueles debil\u00f3ides da Reda\u00e7\u00e3o (entre os quais me incluo), n\u00e3o faltavam roteiros de puro erotismo. <\/p>\n<p>O mais c\u00e9lebre deles \u2013 n\u00e3o lembro exatamente quem o criou, mas juro que eu n\u00e3o fui \u2013 descrevia o casal a s\u00f3s, em uma su\u00edte, em lugar incerto e n\u00e3o sabido. Ambos nus, a se olhar, em sil\u00eancio absoluto, tensionado pelo desejo e pela sedu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao cabo do per\u00edodo de praxe, vestiam suas roupas \u2013 e sa\u00edam, diziam, se amando mais e mais.<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Vou lhes dizer com sinceridade.<\/p>\n<p>N\u00e3o achava gra\u00e7a nenhuma nessa hist\u00f3ria, nem nas que, a partir dela, se sucediam. Com um tempero, digamos, bem mais caliente. O pessoal da reda\u00e7\u00e3o era bem criativo em tais circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>Pobre de quem ca\u00edsse na roda das brincadeiras e zoa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, t\u00ednhamos uma praxe de nunca estar entre os primeiros a deixar a turma. Sab\u00edamos de antem\u00e3o que, em nossa aus\u00eancia, ser\u00edamos o alvo das goza\u00e7\u00f5es. <\/p>\n<p>Registre-se que, n\u00e3o raras vezes, tamanhos eram os detalhes com que recheavam a trama que, por fim, essas inven\u00e7\u00f5es ganhavam contornos de verdades absolutas e, como dizia aquele ministro, imex\u00edveis.<\/p>\n<p>Particularmente, n\u00e3o achava justo com a eleg\u00e2ncia de Serena.<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>Nunca soube ao certo se Serena tomou conhecimento desses desafortunados coment\u00e1rios.<\/p>\n<p>Ela sempre se manteve distante do diz-que-diz. Indiferente \u2013 e bela \u2013 professava aos quatro quantos, e quando necess\u00e1rio, que dedicava toda sua vida aos ditames religiosos, \u00e0 doutrina, seu bem maior.<\/p>\n<p>Certa manh\u00e3, soubemos com o pessoal do RH que a misteriosa Serena demitira-se, pois pensava em casar breve, breve. <\/p>\n<p>E precisava de tempo para preparar a cerim\u00f4nia.<\/p>\n<p>Mais do que normal. A rotina do jornal era aquela mesmo. Um entra e sai danado de gente.<\/p>\n<p>VIII.<\/p>\n<p>N\u00e3o quero terminar a cr\u00f4nica pousando de \u00fanico santo, n\u00e3o.<\/p>\n<p>Preciso lhes dizer que outro a n\u00e3o concordar com o malfadado falat\u00f3rio era o Escova, o nobre Escova, solerte rep\u00f3rter, tido e havido como o Dom Juan das Quebradas do Sacom\u00e3, grande Escova.<\/p>\n<p>Ele mesmo, sempre t\u00e3o cheio de hist\u00f3rias e lero-leros, teve um procedimento de impec\u00e1vel discri\u00e7\u00e3o quando o assunto Serena entrava na pauta do dia.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, o amigo vivia um momento diferente \u00e0quela \u00e9poca.<\/p>\n<p>Chegava antes do que todo mundo na reda\u00e7\u00e3o. N\u00e3o nos acompanhava mais em nossas esticadas noites adentro. <\/p>\n<p>Havia at\u00e9 quem o chamasse, em tom de provoca\u00e7\u00e3o, de Escova, o Puro. <\/p>\n<p>IX.<\/p>\n<p>Alguns diziam que ele havia sido enquadrado pela patroa, a Dona Encrenca, tamanho era o zelo com que se comportava.<\/p>\n<p>Para completar o quadro, era comum \u2018os perdidos\u2019 de Escova em algumas tardes que, segundo ele argumentava para a chefia, eram necess\u00e1rios para desenvolver uma pauta especial sobre o avan\u00e7o das novas e exc\u00eantricas seitas no Brasil, especialmente na regi\u00e3o do Grande Ipiranga.<\/p>\n<p>Enfim&#8230;<\/p>\n<p>X.<\/p>\n<p>Dias atr\u00e1s, encontrei-me com Escova em um daqueles botecos chinfrins do Sacom\u00e3 para alguns bebericos e, inevit\u00e1vel, reverenciarmos os velhos tempos. <\/p>\n<p>N\u00e3o sei o porqu\u00ea lhe perguntei sobre a tal reportagem que, fiz quest\u00e3o de salientar, por desmazelo meu, acabei por n\u00e3o l\u00ea-la, e sequer lembro de v\u00ea-la impressa. <\/p>\n<p>Escova disse que eu estava delirando. <\/p>\n<p>Nunca fizera reportagem com tema semelhante. Quando muito colaborou, gratuitamente e a meu pedido com O Carpinteiro, jornal da Par\u00f3quia S\u00e3o Jos\u00e9, que editei ao lado do padre Brito por dois ou tr\u00eas anos. <\/p>\n<p>XI. <\/p>\n<p>O Carpinteiro foi uma gratificante experi\u00eancia jornal\u00edstica. <\/p>\n<p>O jornal mensal chegou \u00e0 tiragem de 100 mil exemplares. Era um prazer faz\u00ea-lo ao lado de amigos caros como o pr\u00f3prio Escova, o padre Brito, o Zezinho, a Fernandinha, o An\u00edsio, o Alexandre, a saudosa Rita, entre outros. Mas, n\u00e3o era sobre esse momento que me referia. <\/p>\n<p>\u201cFalo da tal reportagem sobre as tais seitas emergentes que voc\u00ea jurou existir \u00e0s dezenas na periferia de S\u00e3o Paulo, especialmente nas vilas e jardins que cercam o Ipirang\u00e3o velho de guerra\u201d, insisti.<\/p>\n<p>Escova continuou balan\u00e7ando negativamente a cabe\u00e7a em sinal de desaprova\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>At\u00e9 eu comecei a duvidar do que eu pr\u00f3prio dizia. <\/p>\n<p>XII. <\/p>\n<p>Resolvi for\u00e7ar a mem\u00f3ria do amigo, dando o contexto da hist\u00f3ria toda: <\/p>\n<p>\u201cLembra-se que voc\u00ea chegava cedo na reda\u00e7\u00e3o para adiantar as mat\u00e9rias do dia, e sa\u00eda quase todas as tardes atr\u00e1s dessa bendita pauta. Nem para as noitadas com a gente voc\u00ea ia. Ficava preparando as tais entrevistas.\u201d<\/p>\n<p>Escova continuou negando: <\/p>\n<p>&#8211; De onde voc\u00ea tirou isso, parceiro. Justo eu, o grande Dom Juan das Quebradas, o Tal e o Qual, me envolvendo com esses carolas. Sem chance. <\/p>\n<p>XIII. <\/p>\n<p>Ao ouvi-lo citar, orgulhoso, o velho codinome de guerra, me veio uma inspira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Caiu a ficha, e resolvi jogar o \u2018verde\u2019: <\/p>\n<p>\u201cFoi no tempo da Serena, lembra? Aquela mo\u00e7a linda, toda pura, que o pessoal maldava que ela n\u00e3o transava nem com o noivo, e que pertencia a uma dessas religi\u00f5es rigoros\u00edssimas no quesito sexo antes do casamento. Lembra-se dela?\u201d <\/p>\n<p>Fez-se um sil\u00eancio comovedor. <\/p>\n<p>Tive a impress\u00e3o que todo o boteco entendeu o que de fato acontecera.<\/p>\n<p>Que pauta que nada.<\/p>\n<p>Por Serena, a bela e casta, o cara madrugava na reda\u00e7\u00e3o e sa\u00eda, mais ou menos, no hor\u00e1rio que ela tamb\u00e9m se ia. Por Serena, a bela e casta, a aus\u00eancia das nossas noites ruidosas quando sempre se bebia demais, se falava demais. N\u00e3o havia segredos naquela roda. <\/p>\n<p>XIV. <\/p>\n<p>Escova respirou fundo. Viajou para os confins da alma. <\/p>\n<p>Nada me respondeu. <\/p>\n<p>Nem precisaria. <\/p>\n<p>Seus olhos retomaram o brilho dos tempos idos e vividos. <\/p>\n<p>Diria at\u00e9 \u2013 convicta e SERENAmente, muito bem vividos&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Chamava-se Serena.<\/p>\n<p>Para muitos da velha reda\u00e7\u00e3o de piso assoalhado e grandes janel\u00f5es para a rua Bom Pastor, no entanto, o nome de Vulc\u00e3o Enrustido lhe fosse bem mais apropriado.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-12572","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-parangoles"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12572","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12572"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12572\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13925,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12572\/revisions\/13925"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12572"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12572"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12572"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}