{"id":12576,"date":"2013-08-16T00:00:00","date_gmt":"2013-08-16T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:17:30","modified_gmt":"2017-09-15T19:17:30","slug":"um-naco-de-saudade","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/um-naco-de-saudade\/","title":{"rendered":"Um naco de saudade"},"content":{"rendered":"<p>\u201cN\u00e3o requer pr\u00e1tica, nem t\u00e3o pouco habilidade.\u201d<\/p>\n<p>O refr\u00e3o dos camel\u00f4s de ent\u00e3o \u2013 n\u00e3o eram t\u00e3o numerosos quantos os atuais \u2013 refletiam a praticidade do produto que vendiam. N\u00e3o eram CDs, DVDs ou qualquer outra jabirosca chinesa. Variavam entre \u201ca babosa milagrosa\u201d que daria tons rejuvenescedores aos cabelos e a cera lustra m\u00f3vel (sabe-se l\u00e1 de que proced\u00eancia) que daria \u201caspecto de nobreza \u00e0 sua casa\u201d.<\/p>\n<p>H\u00e1beis nas palavras, \u00e1geis nas vendas, espertos o suficiente para escapar das \u2018baratinhas\u2019 da r\u00e1dio patrulha, espalhavam-se pelas pra\u00e7as S\u00e9 e Cl\u00f3vis, pelas cercanias da rua Direita, pela Ladeira Porto Geral, dando uma sonoridade t\u00edpica \u00e0 regi\u00e3o, desde ent\u00e3o apinhada de gente pra l\u00e1 e pra c\u00e1.<\/p>\n<p>Sempre \u2013 e sempre, havia uma roda de curiosos onde quer que os tais armassem sua banca &#8211; muitas vezes, improvisadas em caixotes de frutas \u2013 com olhar cr\u00e9dulo diante dos malabarismos verbais dos \u2018malandros do bem\u2019. <\/p>\n<p>Para muitos, ot\u00e1rio era quem ca\u00edsse no conto do vig\u00e1rio da vez.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Anos 50. Garoto ainda, gostava de acompanhar o Tio Neno nas caminhadas que dava quase que semanalmente por aquelas bandas. O ru\u00eddo, o cen\u00e1rio, o ir-e-vir das pessoas \u2013 tudo aquilo, desde ent\u00e3o, me encantava.<\/p>\n<p>Os motivos para os \u2018perneamentos\u2019 do tio eram os mais diversos. Podia ser a quita\u00e7\u00e3o de alguma presta\u00e7\u00e3o na Mesbla ou em A Exposi\u00e7\u00e3o\/Clipper ou mesmo uma visita \u00e0 Casa Jos\u00e9 Silva para ver a nova cole\u00e7\u00e3o de ternos da renomada loja.<br \/>\nTio Neno \u2013 como todos n\u00f3s \u2013 era tecel\u00e3o; remedidado de grana, portanto. Mas, tinha l\u00e1 seu estilo no vestir.<\/p>\n<p>Outra das minhas admira\u00e7\u00f5es, \u00e0 \u00e9poca, era olhar o guarda-roupa dele, com os ternos enfileirados de acordo com os tons de cinza, marinho at\u00e9 chegar ao vistoso terno social, preto (que usava em ocasi\u00f5es raras).<\/p>\n<p>Me \u00e9 inesquec\u00edvel a cena do tio chegando com um grande pacote de papel caqui. Ao desfaz\u00ea-lo, surgiu um novo blazer de l\u00e3 acizentado. Orgulhoso que s\u00f3, se p\u00f4s a me explicar a categoria do tecido:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 \u2018olho de perdiz\u2019 leg\u00edtimo.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Estive em Montevideo nesses dias de aus\u00eancia do blog.<\/p>\n<p>Andei pela regi\u00e3o central, pelas imedia\u00e7\u00f5es do Teatro Sol\u00eds, pela Pra\u00e7a Independ\u00eancia&#8230; N\u00e3o sei bem o porqu\u00ea, mas dei de achar incertas (e nost\u00e1lgicas) parecen\u00e7as com a S\u00e3o Paulo dos idos de 50. <\/p>\n<p>Tenho mesmo uma tend\u00eancia a imaginar coisas. Ainda mais quando me toca um naco de saudade que n\u00e3o sei explicar de onde vem e para onde vai. Deve ser pr\u00f3pria da idade.<\/p>\n<p>\u00c9 certo que faltaram o olhar do menino sonhador que um dia eu fui e os alaridos dos camel\u00f4s de antigamente. Se bem que estes, creio, entraram na hist\u00f3ria s\u00f3 para introduzir a conversa de hoje.<\/p>\n<p>Afinal para trope\u00e7ar no t\u00fanel do tempo, tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 preciso pr\u00e1tica, nem t\u00e3o pouco habilidade&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cN\u00e3o requer pr\u00e1tica, nem t\u00e3o pouco habilidade.\u201d<\/p>\n<p>O refr\u00e3o dos camel\u00f4s de ent\u00e3o \u2013 n\u00e3o eram t\u00e3o numerosos quantos os atuais \u2013 refletiam a praticidade do produto que vendiam.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-12576","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12576","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12576"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12576\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15440,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12576\/revisions\/15440"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12576"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12576"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12576"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}