{"id":12597,"date":"2013-09-13T00:00:00","date_gmt":"2013-09-13T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2018-03-29T20:59:44","modified_gmt":"2018-03-29T20:59:44","slug":"meu-amigo-fernando","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/meu-amigo-fernando\/","title":{"rendered":"Meu amigo Fernando"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Autor: Valdir Boffetti<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Vi o Fernando pela \u00faltima vez no dia 24 de agosto.<\/p>\n<p>Ele estava sozinho no quarto do hospital Bosque da Sa\u00fade e me recebeu contente. Esperava a visita do pai que chegaria logo, para juntos assistirem ao jogo do Palmeiras, na TV.<\/p>\n<p>Ao me ver, tirou a m\u00e1scara de oxig\u00eanio.<\/p>\n<p>Eu lhe disse que estava com apar\u00eancia melhor. Ent\u00e3o fez a pergunta se achava que ele tinha engordado um pouco &#8211; concordei.<\/p>\n<p>Era verdade.<\/p>\n<p>Levei gibis do Chico Bento e do Cebolinha. Antes, disse-lhe que era um novo livro sobre telejornalismo.<\/p>\n<p>\u2013 Ohhhh, Valdir! Olha o que tem a\u00ed nesta gaveta!<\/p>\n<p>Eram diversos exemplares da revistas MAD.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Mudamos de assunto.<\/p>\n<p>Ele se empolgou em contar, em detalhes, a viagem que fez a Nova York em 2001. No in\u00edcio, preveniu que o relato n\u00e3o iria passar de quinze minutos, mostrou o rel\u00f3gio e me pediu para avisar se \u201cestourasse\u201d o tempo &#8211; o ritual do fazer telejornalismo sempre teve papel importante na vida dele, at\u00e9 na linguagem.<\/p>\n<p>Falamos por mais de uma hora. Contou da alegria de ouvir a m\u00fasica que mixou ser tocada em uma r\u00e1dio online nova-iorquina, das pessoas que conheceu por l\u00e1, das lojas de discos que visitou, do quanto gostava de morar em S\u00e3o Paulo e andar pela cidade em dias de jogos do Verd\u00e3o. Falou do filho Fl\u00e1vio, da preocupa\u00e7\u00e3o com a carreira escolhida por ele. Da m\u00e3e que nunca o havia visto numa situa\u00e7\u00e3o assim. Falou do plano de reformar a casa &#8211; sinal aparente da confian\u00e7a em tocar o barco depois da tempestade.<\/p>\n<p>Notei, na cabeceira da cama, uma rela\u00e7\u00e3o de tarefas a fazer que ele enumerou item a item com a conhecida letra mai\u00fascula. Coisas a serem ditas e realizadas ou apenas lidas um dia, como mem\u00f3ria. Depois, recolocou a m\u00e1scara. Estava disposto, mas ainda lhe faltava f\u00f4lego.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Entendi que era hora de ir.<\/p>\n<p>Sai confiante na sua volta. Pensei na barra que estava segurando. Na falta que faz uma amizade a mais nessas horas. Lembrei que j\u00e1 eram quinze anos de conviv\u00eancia. Mas ainda \u00e9ramos quase amigos.<\/p>\n<p>Dividimos turmas, calend\u00e1rios did\u00e1ticos, reuni\u00f5es pedag\u00f3gicas e impress\u00f5es ligeiras sobre a vida. Ele foi uma \u00fanica vez \u00e0 minha casa. Eu nem retribui a visita.<\/p>\n<p>Jogamos sinuca uma vez. Jogamos futebol uma vez.<\/p>\n<p>De vez em quando fal\u00e1vamos dos nossos filhos que t\u00eam a mesma idade e estudaram no mesmo col\u00e9gio.<\/p>\n<p>Vez ou outra, na presen\u00e7a dele, eu disse aos nossos alunos que ele tinha sido um professor prod\u00edgio, que come\u00e7ou a dar aulas na Meto ainda muito jovem e que at\u00e9 eu, ao retomar o curso interrompido em fins dos anos 80, havia sido seu aluno.<\/p>\n<p>Ele sempre fazia a ressalva:<\/p>\n<p>&#8211; Mas n\u00f3s temos quase a mesma idade!<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Fernando gostava de mostrar sua identidade com a foto de cabelos vastos e encaracolados.<br \/>\nSempre foi um colega generoso. Dividiu os programas de aula, as tabelas de cronogramas, o senso de organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Conversamos v\u00e1rias vezes sobre os rumos do ensino de tele na Meto. Ele, sempre um pouco mais apocal\u00edptico. Outras vezes questionei a sua matem\u00e1tica t\u00e3o precisa na corre\u00e7\u00e3o das provas, sua exig\u00eancia com a qualidade m\u00e1xima das produ\u00e7\u00f5es dos alunos.<\/p>\n<p>&#8211; Fernando, vamos avaliar tamb\u00e9m o processo?<\/p>\n<p>Ele respondia altivo com os exemplos de ex-alunos e alunas formados na Meto e que hoje ocupam posi\u00e7\u00e3o e destaque na v\u00e1rias emissoras de TV. Orgulho que ele sempre exibiu com justi\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Eu sou filho de portugu\u00eas! Outra defesa que sempre invocava quando lhe questionavam o jeito dur\u00e3o.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da visita no hospital, cruzei com o Fernando apenas uma vez neste semestre.<\/p>\n<p>Atend\u00edamos grupos de TCC. Notei-o ainda mais magro. Perguntei apressadamente se tinha lido o email com as mudan\u00e7as no projeto integrado do sexto semestre. Nem perguntei como estava, como foram as f\u00e9rias&#8230;<\/p>\n<p>Ele respondeu que tinha gostado da mudan\u00e7a e que precisava falar comigo.<\/p>\n<p>Andamos demais ocupados e n\u00e3o temos tido tempo para prestar aten\u00e7\u00e3o nas coisas fundamentais. O que vai em cada pessoa, por exemplo.<\/p>\n<p>Eu devia ter apressado aquela conversa com o amigo Fernando.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em><strong>Autor: Valdir Boffetti<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Vi o Fernando pela \u00faltima vez no dia 24 de agosto.<\/p>\n<p>Ele estava sozinho no quarto do hospital Bosque da Sa\u00fade e me recebeu contente.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-12597","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uns-e-outros"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12597","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12597"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12597\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18597,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12597\/revisions\/18597"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12597"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12597"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12597"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}