{"id":12617,"date":"2013-09-30T00:00:00","date_gmt":"2013-09-30T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T03:46:37","modified_gmt":"2017-09-14T03:46:37","slug":"consideracoes-sobre-a-janela","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/consideracoes-sobre-a-janela\/","title":{"rendered":"Considera\u00e7\u00f5es sobre a janela"},"content":{"rendered":"<p>Dizem que basta uma janela para o cronista confabular sobre o mundo e sua gente.<\/p>\n<p>Que me perdoem os \u00f3bvios, mas uma boa janela na vida da gente \u00e9 fundamental.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Para os da minha gera\u00e7\u00e3o, a janela nos trazia o mundo.<\/p>\n<p>V\u00edamos o movimento das ruas, as pessoas, os bondes, o tom s\u00e9pia das luzes que se acendiam ao entardecer. Fiscaliz\u00e1vamos o cotidiano dos vizinhos e avist\u00e1vamos, ansiosos, o Jardim da Aclima\u00e7\u00e3o, onde existia a j\u00f3ia rara de um campo de futebol gramadinho, gramadinho.<\/p>\n<p>\u00cdamos para a rua e para a vida repletos de sonhos e possibilidades.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Uma gera\u00e7\u00e3o depois da minha \u2013 ou seriam duas? \u2013 trocou a janela pela tela da TV (que n\u00e3o deixa de ser uma janela) por morar em pr\u00e9dio, pelo recrudescimento da viol\u00eancia na cidade grande, pela aus\u00eancia dos pais. O Jardim da Aclima\u00e7\u00e3o passou a ser o play ground \u2013 que n\u00e3o tem l\u00e1 tantas magias assim. A TV dominou mentes e cora\u00e7\u00f5es desse pessoal. Imp\u00f4s-lhes o tom e a cor da vida.<\/p>\n<p>Lembro de educadores indignados a condenar a longa exposi\u00e7\u00e3o dos infantes aos malef\u00edcios da TV. <\/p>\n<p>N\u00e3o era uma boa influ\u00eancia, diziam.<\/p>\n<p>No meu tempo, a rua tamb\u00e9m tinha l\u00e1 suas armadilhas e perigos.<\/p>\n<p>Enfim&#8230;<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>A meninada de hoje trocou a TV e a rua pelo tablet e\/ou pelo visor do celular. <\/p>\n<p>Tamb\u00e9m pela emo\u00e7\u00e3o dos games.<\/p>\n<p>Para estes, \u00e9 ali que a vida acontece.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Estava a olhar um grupo de adolescente, ontem mesmo, em uma pra\u00e7a de alimenta\u00e7\u00e3o. Vestiam agasalhos de algum col\u00e9gio particular, deviam ter sa\u00eddo das aulas naqueles instantes. Estavam juntos, mas cada um por si. Entretinham-se cada qual com sua engenhoca.<\/p>\n<p>Mal se davam conta do grupo, da turma.<\/p>\n<p>Por vezes, um ou outro fazia algum coment\u00e1rio disperso que se perdia solto no ar, sem resposta. Conectados com as pr\u00f3prias fantasias.<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Por alguma associa\u00e7\u00e3o esdr\u00faxula, lembrei-me do tempo de garoto. Da atra\u00e7\u00e3o que a bola de capot\u00e3o exercia sobre n\u00f3s, quando quicava diante dos nossos olhos e nos divid\u00edamos em dois times. Duas, sele\u00e7\u00f5es, melhor dizendo. Pois, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9ramos o Carlinhos, o Cl\u00e1udio, o Pelinho, o Nestor, o Orelano, o Bet\u00e3o, o Vaqueta&#8230; <\/p>\n<p>O camp\u00e3o da Aclima\u00e7\u00e3o virava o Pacaembu (pois, o Morumbi n\u00e3o existia) ou mesmo o Maracan\u00e3 \u2013 e n\u00f3s nos transform\u00e1vamos em Luisinho (o Pequeno Polegar), o Rafael, o Mazzola, o Zizinho, o Mauro, o Gilmar e havia at\u00e9 alguns garotos abusados que se imaginavam ser um outro garoto, mirrado, de nome Pel\u00e9.<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>Os tempos mudaram&#8230;<\/p>\n<p>S\u00f3 os sonhos n\u00e3o envelhecem.<br \/>\nVIII.<br \/>\nO amigo Escova me diz que tentou postar um coment\u00e1rio.<\/p>\n<p>Desistiu \u201cpor quest\u00f5es t\u00e9cnicas\u201d e pessoais (\u201cN\u00e3o sei lidar com essas engenhocas\u201d).<\/p>\n<p>Seu prop\u00f3sito era elencar outros nomes de craques que fizeram nossa cabe\u00e7a, naqueles idos \u2013 Baltazar, Roberto Dias, Chinesinho, Valdir Joaquim de Moraes, Poy, Dorval, Coutinho, Pepe, Djalma Santos&#8230;<\/p>\n<p>\u201c&#8230; Aproveite e complete com os craques da sele\u00e7\u00e3o de 58. Gylmar, De Sordi Belini, Orlando, Nilton Santos, Zito, Garrincha, Didi, Vav\u00e1, Pel\u00e9 e Zagallo. Dida, Castilho, tantos, tantos&#8230; Deveria falar tamb\u00e9m do notici\u00e1rio esportivo do Canal 100. Do nosso entusiasmo ao ouvir a m\u00fasica que introduzia a cobertura dos jogos. Tatarantaran&#8230; Bons tempos!\u201d <\/p>\n<p>IX.<br \/>\nEscova \u00e9 meu contempor\u00e2neo. <\/p>\n<p>Morava na Vila Carioca, periferia do Ipiranga, e eu no Cambuci. Para a \u00e9poca, havia uma dist\u00e2ncia razo\u00e1vel entre ambos. Mas, nas duas freguesias, o que n\u00e3o falta era campo de futebol. S\u00f3 nos conhecemos naquela velha reda\u00e7\u00e3o de piso assoalhado e grandes janelas para a rua Bom Pastor. \u00c9ramos rep\u00f3rteres, \u201cjovens e inconseq\u00fcentes\u201d, como enfatizava, a cada estripulia que apront\u00e1vamos o Velho Marques, nosso primeiro editor.<\/p>\n<p>X.<br \/>\nEscova me chama aten\u00e7\u00e3o para que todos os garotos da nossa gera\u00e7\u00e3o eram iguais, sonhadores e, \u00e0 sua maneira, rom\u00e2nticos. Mesmo assim fez quest\u00e3o de cravar a bonita frase que o Papa Francisco disse quando, em junho, esteve entre n\u00f3s, no calor das manifesta\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p>\u201cA juventude \u00e9 janela pela qual o futuro entra no mundo.\u201d<\/p>\n<p>E acrescentou:<\/p>\n<p>\u201cSeja em que tempo for.\u201d<br \/>\nXI.<br \/>\nEis que hoje se apresenta o amigo Poeta para, igualmente ao que o Escova ontem fez, esticar o nosso convers\u00f3rio, tendo a janela como tem\u00e1tica.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o fa\u00e7o diferen\u00e7a entre um e outro, rabisco aqui as observa\u00e7\u00f5es feitas pelo Poeta que, como poder\u00e3o ver a seguir, \u00e9 mais chegado \u00e0s artes do que \u00e0s lembran\u00e7as.<\/p>\n<p>Ele come\u00e7a citando dois quadros que lhe s\u00e3o marcantes: \u201cA Mo\u00e7a na Janela\u201d, de Di Cavalcanti, e \u201cMulher \u00e0 Janela\u201d, de Salvador Dal\u00ed (foto). O primeiro, conhe\u00e7o a partir da consulta que fa\u00e7o ao Google, incitado pelo coment\u00e1rio do amigo. O segundo, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, eu o vi no Museu Reina Sofia, em Madri e, mais incr\u00edvel ainda, sem nada entender de arte, tive a cara dura de escrever sobre o mesmo. <\/p>\n<p>Foi em 14 de agosto de 2008, e assim termina:<\/p>\n<p>\u201cDirei apenas que a mo\u00e7a, para mim, se faz t\u00e3o enigm\u00e1tica quanto a Mona Lisa, do Louvre. Com a diferen\u00e7a que, de repente, estamos do lado de c\u00e1 da janela, t\u00e3o pr\u00f3ximos e t\u00e3o alheios; como ela, atemporal e c\u00famplices de um eterno esperar\u201d.<\/p>\n<p>Como viram, este blog tamb\u00e9m \u00e9 cultura.<\/p>\n<p>XII.<\/p>\n<p>Poeta quase mudou de assunto. <\/p>\n<p>Recuperou o f\u00f4lego e seguiu com o relato.<\/p>\n<p>Para ele, \u201cJanela Indiscreta\u201d, de Hitchcock \u00e9 um de seus filmes preferidos. Mist\u00e9rio e suspense a partir do voyerismo do protagonista (James Stwart) que, por ter quebrado a perna, est\u00e1 confinado ao seu apartamento. Da sua janela come\u00e7a a espiar \u2013 talqualmente um Bial das antigas \u2013 o dia a dia da vizinhan\u00e7a. <\/p>\n<p>O filme \u00e9 de 1954 \u2013 e o Poeta jura que nem era nascido nessa \u00e9poca.<\/p>\n<p>Eu e o Escova duvidamos, mas preferimos n\u00e3o entrar no m\u00e9rito da quest\u00e3o.<\/p>\n<p>XIII.<\/p>\n<p>No \u00e2mbito da m\u00fasica, o Poeta faz duas refer\u00eancias que acha b\u00e1rbaras.<\/p>\n<p>A primeira \u00e9 a can\u00e7\u00e3o \u201cTrem das Cores\u201d que Caetano Veloso fez para S\u00f4nia Braga \u2013 e \u00e9 lind\u00edssima mesmo.<\/p>\n<p>Descreve poeticamente a paisagem a partir da janela do trem que corta a Espanha.<\/p>\n<p>Um trecho:<\/p>\n<p>\u201cAs casas t\u00e3o verde e rosa<br \/>\nQue v\u00e3o passando ao nos ver passar<br \/>\nOs dois lados da janela<br \/>\nE aquela num tom de azul<br \/>\nQuase inexistente, azul que n\u00e3o h\u00e1<br \/>\nAzul que \u00e9 pura mem\u00f3ria de algum lugar\u201d.<\/p>\n<p>XIV.<\/p>\n<p>A outra can\u00e7\u00e3o, de inevit\u00e1vel lembran\u00e7a quando este \u00e9 o assunto, \u00e9 a que Chico Buarque fez em idos tempos:<\/p>\n<p>\u201cO tempo passou na janela<br \/>\nS\u00f3 Carolina n\u00e3o viu\u201d.<\/p>\n<p>XV.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei bem o porqu\u00ea, mas ao cantarolar esses versos, senti o amigo Poeta triste que s\u00f3. <\/p>\n<p>Quis, ent\u00e3o, quebrar o clim\u00e3o que ficou e brinquei:<\/p>\n<p>&#8211; Tem alguma Carolina no seu passado?<\/p>\n<p>E ele respondeu de forma bem realista, sem nenhuma poesia:<\/p>\n<p>&#8211; Carolina, Carolina, n\u00e3o tem nenhuma, n\u00e3o. Fiquei no vazio. Por isso que fico triste.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dizem que basta uma janela para o cronista confabular sobre o mundo e sua gente.<\/p>\n<p>Que me perdoem os \u00f3bvios, mas uma boa janela na vida da gente \u00e9 fundamental.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-12617","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-parangoles"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12617","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12617"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12617\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13923,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12617\/revisions\/13923"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12617"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12617"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12617"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}