{"id":12725,"date":"2014-02-26T00:00:00","date_gmt":"2014-02-26T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:16:29","modified_gmt":"2017-09-15T19:16:29","slug":"maximas-do-boteco","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/maximas-do-boteco\/","title":{"rendered":"M\u00e1ximas do boteco"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9ramos felizes do nosso jeito, ali, naquele boteco que n\u00e3o mais existe na esquina das ruas Bom Pastor e Greenfeld, onde hoje est\u00e1 a portentosa Esta\u00e7\u00e3o do Metr\u00f4 no Sacom\u00e3.<\/p>\n<p>Form\u00e1vamos \u201cuma turma da pesada\u201d, como se dizia \u00e0 \u00e9poca.<\/p>\n<p>Sem eira, nem beira, menos ainda esteira. Mas cheios de raz\u00e3o e com argumentos para discutir a hist\u00f3ria do mundo, se necess\u00e1rio fosse.<\/p>\n<p>Havia um cat\u00e1logo de m\u00e1ximas que ainda, hoje, tanto tempo depois, gosto de cit\u00e1-las quando conto minhas prosas.<\/p>\n<p>O Nasci, do alto dos quase 60, era o nosso guru, jurado e sacramentado. Era dele o bord\u00e3o que nos trazia mais perto da realidade. T\u00ednhamos entre vinte e trinta e poucos. Quer\u00edamos voar em nossas aventuras dentro ou fora da pequena reda\u00e7\u00e3o de piso assoalhado e grandes janel\u00f5es para a rua Bom Pastor.<\/p>\n<p>\u201cJu\u00edzo rapaziada. N\u00e3o estica a corda, compadre, que ela arrebenta\u201d.<\/p>\n<p>Outra dele:<\/p>\n<p>\u201cUm amigo \u00e9 p\u2019outro\u201d.<\/p>\n<p>Na verdade, uma corruptela de \u201cum amigo \u00e9 para o outro\u201d que propunha uma integra\u00e7\u00e3o para o pessoal. Coisa do tipo aquela fala de Os Tr\u00eas Mosqueteiros: Um por todos. Todos por um&#8230;<\/p>\n<p>\u201cSem exageros, amigos. Sem exageros.\u201d<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o radicalizar jamais\u201d.<\/p>\n<p>Outro das antigas, o Z\u00e9 Jofre, discordava na fala de socialista convicto:<\/p>\n<p>\u201cPatr\u00e3o bom nasce morto\u201d.<\/p>\n<p>O Osmar, que morava na Ilha do Sapo, regi\u00e3o entre o Riacho Ipiranga e o Rio Tamanduate\u00ed, tinha um bord\u00e3o, digamos, mais existencialista. Que usava mais frequentemente em tempos de chuvas.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o apresse o rio&#8230; Que a enchente \u00e9 inevit\u00e1vel\u201d.<\/p>\n<p>O Almir, que trabalhava do outro lado da rua, tamb\u00e9m bradava o seu bord\u00e3o, sempre que chegava:<\/p>\n<p>\u201cMeus caros, como diz aquele fil\u00f3sofo, o mesmo homem n\u00e3o atravessa duas vezes a mesma rua Bom Pastor\u201d.<\/p>\n<p>Desse modo, ele justificava idas e vindas cada vez mais cambaleantes, do trabalho ao bar, do bar ao trabalho.<\/p>\n<p>Escova, figura mais constante neste Blog e tido e havido como Dom Juan das Quebradas do Sacom\u00e3, enfileirava casos e hist\u00f3rias, sob a capciosa \u00e9gide:<\/p>\n<p>\u201cConquista adiada \u00e9 conquista perdida\u201d.<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o usava exatamente o termo \u201cconquista\u201d, mas para bom entendedor creio que \u00e9 o suficiente.<\/p>\n<p>O Nasci gostava de citar uma frase famosa de Machado de Assis:<\/p>\n<p>A gente vivia se queixando disso e daquilo, mas est\u00e1vamos todos bem, s\u00e3o e salvos e fortes. Ent\u00e3o ele n\u00e3o perdoava:<\/p>\n<p>\u201cMelhor cair das nuvens do que do quarto andar\u201d.<\/p>\n<p>Mas, o dito mais bonito, e que me \u00e9 inesquec\u00edvel, voc\u00eas podem n\u00e3o acreditar, n\u00e3o lembro quem foi o autor. Foi em uma noite qualquer que se perdeu no tempo.<\/p>\n<p>L\u00e1 pelas tantas, quando as brumas da madrugada ro\u00e7avam nossos sentidos, algu\u00e9m prop\u00f4s um brinde que acabou por dar a dimens\u00e3o daqueles encontros vulgares.<\/p>\n<p>Disse mais ou menos assim:<\/p>\n<p>\u201cAmigos, proponho que bebamos a este momento. Digo por mim, mas desconfio falar em nome de todos. Quando estou com as pessoas que amo \u2013 e incluam-se entre elas \u2013 sou eu mesmo. Quando estou com as pessoas que apenas tolero, \u00e9 diferente. Sou algu\u00e9m muito parecido comigo\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9ramos felizes do nosso jeito, ali, naquele boteco que n\u00e3o mais existe na esquina das ruas Bom Pastor e Greenfeld, onde hoje est\u00e1 a portentosa Esta\u00e7\u00e3o do Metr\u00f4 no Sacom\u00e3.<\/p>\n<p>Form\u00e1vamos \u201cuma turma da pesada\u201d,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-12725","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12725","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12725"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12725\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15295,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12725\/revisions\/15295"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12725"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12725"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12725"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}