{"id":12735,"date":"2014-03-20T00:00:00","date_gmt":"2014-03-20T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:14:09","modified_gmt":"2017-09-15T19:14:09","slug":"historias-de-berlim-5","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/historias-de-berlim-5\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3rias de Berlim -5"},"content":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria do \u2018novo amigo\u2019 \u00e9 simples, e bonita. S\u00f3 poderia mesmo ter acontecido em Berlim.<\/p>\n<p>Ele conheceu Julien quando ambos ainda tinham 18 anos. Trabalhavam na mesma loja de sapato situada nas imedia\u00e7\u00f5es da \u00e1rea central. Apaixonaram-se e viveram o que, para \u00e9poca, significou um t\u00f3rrido romance. <\/p>\n<p>At\u00e9 que o inevit\u00e1vel se deu.<\/p>\n<p>Inexor\u00e1vel, cruel.<\/p>\n<p>A cidade foi cortada pela Muro em 1961.<\/p>\n<p>Julien morava no lado oriental. Rudi, no ocidental.<\/p>\n<p>N\u00e3o houve tempo sequer para despedidas.<\/p>\n<p>N\u00e3o houve tempo para considerarem a possibilidade , corajosa, de assumirem-se como definitivos.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9ramos jovens demais.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Os anos se passaram.<\/p>\n<p>Inelut\u00e1veis, soberanos,<\/p>\n<p>Rudi e Julien reconstru\u00edram suas vidas, como pessoas comuns, normais.<\/p>\n<p>No entanto, um n\u00e3o esqueceu o outro.<\/p>\n<p>Eles se reencontraram dias depois a derrubada do muro, em 1989. (Estavam acompanhados das respectivas fam\u00edlias em meios \u00e0s festividades e os reencontros.)<\/p>\n<p>&#8211; Brasileiro, vou lhe dizer, foi emocionante v\u00ea-la ainda t\u00e3o linda.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Dias depois \u2013 Rudi n\u00e3o soube precisar quantos \u2013 voltaram ao mesmo lugar. <\/p>\n<p>Sozinhos, cora\u00e7\u00f5es acelerados.<\/p>\n<p>Conversaram, e at\u00e9 tentaram uma reaproxima\u00e7\u00e3o, digamos, amorosa. Mas, n\u00e3o eram mais as mesmas pessoas.<\/p>\n<p>A partir de ent\u00e3o, adotaram, no entanto, um estranho ritual.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Todos os s\u00e1bados \u2013 ou quase todos \u2013 por volta das 10 horas da manh\u00e3, ambos se encontram na Checkinpoint Charlie, pra\u00e7a nas imedia\u00e7\u00f5es do antigo posto de checagem, guardado por soldados americanos na Berlim de ent\u00e3o, onde ainda resiste um trecho m\u00ednimo do muro de Berlim.<\/p>\n<p>Rudi e Julien se confundem \u00e0s turbas de turistas que visitam o local \u2013 e ficam ali, sentados em sil\u00eancio, um ao lado do outro, em um banco sob um antigo mapa da cidade nos tempos da divis\u00e3o.<\/p>\n<p>Dez, quinze minutos depois (de acordo com o compromisso de cada um), levantam-se e, depois deb trocarem sorrisos c\u00famplices, v\u00e3o embora.<\/p>\n<p>Desse jeito, me informa o alem\u00e3o, eles vivem o que restou do amor que um dia sentiram e, desconfio, ainda sentem.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Ao final da narrativa, Rudi pede outra cerveja imensa e se mostra um tanto melanc\u00f3lico. O homem tamb\u00e9m me derrubou com a tal hist\u00f3ria. Agora o vejo como um cara legal, do bem que, a seu jeito, sabe lidar com um sentimento bel\u00edssimo. Mesmo assim, continuo sem saber o que dizer.<\/p>\n<p>Deixo escapar, no entanto, a pergunta que me parece \u00f3bvia:<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea \u00e9 feliz assim?<\/p>\n<p>Rudi se faz ainda mais enigm\u00e1tico. Mas, responde convicto:<\/p>\n<p>&#8211; Melhor do que ficar sem v\u00ea-la.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria do \u2018novo amigo\u2019 \u00e9 simples, e bonita. S\u00f3 poderia mesmo ter acontecido em Berlim.<\/p>\n<p>Ele conheceu Julien quando ambos ainda tinham 18 anos. 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